A contagem regressiva para o aguardado megashow gratuito da cantora Shakira nas areias de Copacabana, marcado para este sábado (2), ganhou um capítulo de forte tensão nos bastidores da política fluminense. Em meio a um cenário de estrangulamento financeiro, o governador em exercício do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, bateu o martelo e decidiu que o Estado não vai mais injetar os R$ 15 milhões que estavam previstos para o patrocínio do espetáculo. A decisão drástica, motivada por um rombo bilionário nos cofres públicos, provocou uma reviravolta na organização do evento, levou à demissão imediata do subsecretário estadual de Grandes Eventos e fez com que a Prefeitura do Rio assumisse de vez o protagonismo no financiamento da festa.
O peso do déficit de R$ 19 bilhões e o recuo do Palácio Guanabara
A mudança de rota marca uma quebra no padrão de investimentos do Estado em megashows na orla carioca. Para efeito de comparação, no ano passado, o governador Cláudio Castro (PL) destinou R$ 15 milhões para a apresentação de Lady Gaga; já para o histórico show de Madonna, em 2024, o aporte estadual foi de R$ 10 milhões. Desta vez, a torneira secou.
De acordo com apuração da jornalista Ludmilla de Lima, da revista Veja, o Palácio Guanabara justificou em nota oficial que a gestão “tomou a decisão de não patrocinar o evento em razão da grave crise fiscal que assola o Estado”. Para se ter uma dimensão da gravidade do problema econômico fluminense, o déficit projetado para as contas do governo neste ano ultrapassa a assustadora marca de R$ 19 bilhões. Com o veto do Estado, a responsabilidade financeira pública da atração internacional recaiu inteiramente sobre os ombros do município.
Crise nos bastidores e a demissão de Rodrigo Castro

A tesourada nos recursos não passou ilesa pela estrutura interna do governo fluminense. Conforme divulgado pela coluna da jornalista Berenice Seara, no portal Tempo Real, o subsecretário de Grandes Eventos do Estado, Rodrigo Castro, pediu exoneração do cargo na noite de terça-feira (28), logo após o desgaste provocado pela decisão do governador interino.
Rodrigo estava à frente da agenda de grandes eventos do Rio de Janeiro por quase uma década e ocupava a cadeira estadual desde 2020. A decisão de cortar o repasse milionário foi comunicada oficialmente à Bonus Track Entretenimento — produtora responsável pelo projeto “Todo Mundo no Rio” — pelo secretário da Casa Civil, Flávio Willeman. Em sua despedida, Rodrigo Castro destacou à coluna do Tempo Real que respeita a decisão de Couto, mas fez questão de defender sua área: “Entendo que os grandes eventos representam um impacto econômico e turístico gigantesco para o estado, além de gerarem milhares de empregos”.
O peso do déficit de R$ 19 bilhões e o recuo do Palácio Guanabara
Duas horas após a reunião decisiva entre o Estado e a produtora, o prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere (PSD), entrou em cena para blindar o evento. Ele anunciou a liberação de mais R$ 5 milhões do tesouro municipal, somando-se aos R$ 15 milhões que a prefeitura já havia concedido, elevando o investimento total da cidade para R$ 20 milhões. Longe de criticar o governador interino, Cavaliere elogiou a postura de Ricardo Couto pela responsabilidade fiscal.
Segundo o prefeito, a readequação representa, na prática, uma economia de R$ 10 milhões na soma dos cofres públicos (já que o Estado cortou R$ 15 milhões e o município cobriu apenas um terço desse valor). Cavaliere reforçou que a festa está mais do que paga, lembrando que a expectativa de retorno financeiro para o comércio e o turismo da cidade é mais de 30 vezes superior ao valor investido.
Parabéns ao Governador Ricardo Couto por ouvir a recomendação da Prefeitura do Rio que é a patrocinadora oficial deste evento. Ele tomou a decisão correta. Assim, a Prefeitura vai honrar com 5 milhões necessários para a produção do evento, economizar 10 milhões para os cofres… https://t.co/jgqn6Tg0w5
— Eduardo Cavaliere (@CavaliereRio) April 29, 2026
O xadrez político e a visão de Eduardo Paes
O movimento de reorganização financeira também ganhou o endosso de figuras de peso da política local. O ex-prefeito do Rio e pré-candidato ao governo estadual, Eduardo Paes (PSD), usou suas redes sociais para apoiar publicamente a decisão do desembargador Ricardo Couto. Para Paes, o financiamento direto de atrações de entretenimento é uma atribuição típica das prefeituras, devendo o Estado concentrar sua energia e recursos naquilo que é essencial para o funcionamento do evento.
Megaesquema de segurança e estrutura garantidos na orla

Apesar de ter retirado o patrocínio direto para o cachê e a produção do show, o governo estadual garantiu que não deixará a orla desamparada. O Palácio Guanabara confirmou a manutenção de todo o planejamento estratégico operacional para receber a multidão neste sábado.
A Polícia Militar vai mobilizar um contingente expressivo de 5.692 agentes de segurança para o patrulhamento preventivo e ostensivo em Copacabana. O megaesquema tático inclui tecnologias de ponta, como monitoramento em tempo real, instalação de pórticos de revista com reconhecimento facial nos acessos à praia, torres de observação elevadas e viaturas equipadas com câmeras embarcadas. A operação integrada contará ainda com o suporte fundamental do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil e com a distribuição gratuita de água potável para o público através de caminhões da Cedae.
O maior palco da história de Copacabana à espera de 2,5 milhões de fãs
A reestruturação dos patrocínios não diminui a magnitude do que está sendo erguido na Praia de Copacabana. A estrutura que vai receber a estrela colombiana bateu recordes e terá impressionantes 1.345 metros quadrados, tornando-se o maior palco já montado para uma apresentação musical na orla carioca. O espaço supera de longe as megaestruturas usadas por Lady Gaga (1.260 m²) e Madonna (812 m²).
A promessa é de máxima proximidade com os fãs cariocas e turistas: o projeto de 2,20 metros de altura em relação à areia inclui uma passarela de 25 metros que ligará o palco principal diretamente à área do Copacabana Palace. Com 500 metros quadrados de painéis de LED e 16 torres de som e vídeo espalhadas até o Leme, a organização espera receber um público arrebatador de 2,5 milhões de pessoas — um mar de gente pronto para consolidar a terceira edição do projeto “Todo Mundo no Rio” como um marco na história da cidade.