Com aumento de casos de sarampo nos EUA, o Brasil está vacinando quem vai pra Copa do Mundo | Diário do Porto


Saúde

Com aumento de casos de sarampo nos EUA, o Brasil está vacinando quem vai pra Copa do Mundo

Com explosão de casos nos EUA, Ministério da Saúde lança no Rio campanha de vacinação contra sarampo focada em turistas da Copa.

29 de abril de 2026

O craque Raí foi vacinado pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha | Rafael Nascimento / Ministério da Saúde

Compartilhe essa notícia:


A proximidade da Copa do Mundo de 2026 está movimentando não apenas os preparativos táticos e a expectativa da Seleção Brasileira, mas também exigindo uma forte estratégia de defesa sanitária do nosso país. Para evitar que as viagens de torcedores rumo aos jogos na América do Norte se transformem em uma perigosa porta de entrada para a reintrodução do sarampo em território nacional, o Ministério da Saúde escolheu a capital fluminense como base de lançamento da sua mais nova e vital campanha de imunização.

Batizada de “Vacinar é muito Brasil”, a mobilização nacional teve seu pontapé inicial nesta quarta-feira (29), em um evento realizado na sede do projeto social Fundação Gol de Letra, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A ação tem um objetivo muito claro: convocar todos os viajantes a atualizarem rigorosamente suas cadernetas antes do embarque para os três países que vão sediar a principal competição do planeta: Estados Unidos, Canadá e México.

A preocupação das autoridades sanitárias brasileiras é plenamente justificada pela escalada das estatísticas internacionais. Conforme detalhado com exclusividade em reportagem da jornalista Tâmara Freire, da Agência Brasil, os três países-sede da Copa do Mundo estão no epicentro de uma crise epidemiológica, concentrando atualmente impressionantes 67% de todos os casos de sarampo registrados nas Américas ao longo dos últimos anos. O cenário de alerta máximo divulgado pelas agências de saúde mostra que, somente no ano de 2026, até o dia 11 de abril, já foram confirmadas cerca de 17 mil infecções pelo vírus em todo o continente americano. A situação mais grave e fora de controle ocorre no México, que contabiliza mais de 10 mil casos da doença. Na sequência, os Estados Unidos registram 1.792 ocorrências confirmadas, seguidos pelo Canadá, com 907 registros. A região ainda conta com outro país em situação de franco surto, a Guatemala.

O status do Brasil e a contaminação de trabalhadora de hotel no Rio

Apesar da circulação global acelerada do vírus, o Brasil tem conseguido manter o seu cobiçado status de país livre do sarampo, um certificado valioso que foi reconquistado com muito esforço pelas campanhas de vacinação em 2024. Contudo, a intensa movimentação de turistas provoca episódios esporádicos que exigem vigilância epidemiológica constante e ininterrupta em todas as nossas fronteiras e aeroportos. Neste ano, por exemplo, três infecções já foram confirmadas pelas autoridades no território nacional.

Um desses casos confirmados acendeu o sinal amarelo diretamente no coração turístico do Rio de Janeiro. Trata-se de uma jovem carioca que trabalha ativamente em um grande hotel da cidade com alto e constante trânsito de visitantes internacionais, evidenciando o risco diário de importação do vírus em polos turísticos. Os outros dois casos notificados em solo brasileiro neste ano envolveram uma bebê moradora do estado de São Paulo, que acabou sendo contaminada durante uma viagem à Bolívia, e um homem adulto vindo da Guatemala, que apresentou os sintomas característicos da doença também no estado paulista.

Vacinas de poliomelite, sarampo; caxumba e rubéola produzidas por Bio-Manguinhos/Fiocruz
A Fiocruz produz grande parte das vacinas usadas pelo SUS | Fernando Frazão/Agência Brasil

Durante o evento de lançamento na Fundação Gol de Letra, que contou com a presença do ex-jogador Raí e outras personalidades, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi categórico ao explicar a prioridade da ação governamental e o motivo do alerta neste momento estratégico. “Primeiro esse público que está indo para Copa, porque são os três países que têm explosão de casos de sarampo no continente americano”, ressaltou o ministro, destacando o perigo da alta transmissibilidade nas aglomerações típicas de estádios de futebol.

Ainda assim, o imenso esforço sanitário não se restringe apenas aos torcedores brasileiros que carimbarão o passaporte rumo ao exterior. O plano de barreira preventiva desenhado pelo governo federal atinge em cheio a rotina de cidades turísticas como o Rio de Janeiro, que se prepara para receber parte do intenso fluxo reverso de visitantes durante a competição. “E aqui no Brasil a gente está fazendo uma campanha muito intensa com todo mundo que tem contato com turista, trabalhadores de hotel, trabalhadores de restaurantes, de táxi, de transporte coletivo. Para continuar com a nossa defesa firme”, completou Padilha, detalhando as trincheiras de defesa contra o vírus.

Como funciona o esquema de imunização para viajantes

Para barrar definitivamente o avanço do sarampo e impedir o colapso da saúde pública, a principal e mais eficaz arma disponível é a vacina tríplice viral, que é oferecida de forma totalmente gratuita em todos os postos do Sistema Único de Saúde (SUS) e que tem o benefício adicional de prevenir também contra a caxumba e a rubéola. O Ministério da Saúde recomenda fortemente que as pessoas que planejam viajar recebam a vacina com, pelo menos, 15 dias de antecedência em relação à data do embarque. Esse prazo é considerado fundamental pelos médicos infectologistas para garantir que o organismo humano tenha o tempo necessário para processar o imunizante e garantir a chegada ao exterior com o máximo possível de proteção.

O esquema de imunização nos postos de saúde possui regras claras, que foram adaptadas há duas semanas para focar na segurança máxima desse público viajante. Os bebês que possuem entre 6 meses e 11 meses de vida devem obrigatoriamente receber a chamada “dose zero”, que funciona como uma injeção extra aplicada antes da idade normal prevista no calendário básico de vacinação infantil. Para o público a partir de 12 meses até jovens de 29 anos, a exigência médica é de duas doses completas, com um intervalo mínimo de um mês de espera entre as aplicações.

Já os adultos que se encontram na faixa etária de 30 a 59 anos precisam apenas comprovar a aplicação de uma única dose para estarem protegidos. Os idosos, por sua vez, via de regra não recebem o imunizante, já que as autoridades em saúde apontam que muito provavelmente essa parcela da população já teve contato com o vírus selvagem do sarampo ao longo da vida e, por isso, desenvolveu imunidade natural. No entanto, esses idosos podem e devem ter acesso à vacina nas unidades de saúde caso comprovem que farão viagens internacionais para as áreas de risco e desde que estejam em boas condições gerais de saúde.

Apesar de o foco imediato das ações estar voltado para as fronteiras e passageiros internacionais, o ministro Padilha fez questão de reforçar que a imunização é, acima de tudo, um direito fundamental e um dever coletivo de cidadania para conter a circulação do agente infeccioso. “O sarampo é o vírus que mais transmite entre os seres humanos. A vacina é para todos os brasileiros”, ressaltou.

Combate feroz ao negacionismo e a força da Fiocruz

A garantia e a segurança das vacinas que são distribuídas e aplicadas diariamente nos postos do SUS em todo o país também figuraram como um dos pontos mais contundentes do discurso da autoridade máxima da saúde brasileira. O imunizante tríplice viral que está sendo amplamente utilizado na campanha “Vacinar é muito Brasil” é produzido pela renomada Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição centenária baseada no Rio de Janeiro que é motivo de orgulho absoluto da ciência carioca e do desenvolvimento biotecnológico nacional. Padilha usou a sua própria vivência, pessoal e profissional, para atestar de forma inquestionável a altíssima qualidade do produto fabricado no país.

Zé Gotinha no evento
Zé Gotinha fez gol no evento | Rafael Nascimento / Ministério de Saúde

“Eu sou médico infectologista e sou pai de uma criança de 11 anos anos de idade. Eu não vacinaria minha filha se eu não tivesse confiança na qualidade, na segurança e na importância da vacina contra o sarampo e de todas as vacinas que estão no SUS. Nós estamos vencendo o jogo contra o negacionismo e derrotando a turma da antivacina”, cravou o ministro, marcando uma posição dura contra o movimento de desinformação que tem minado campanhas de saúde pública nos últimos anos.

O longo histórico recente do Brasil em relação ao controle e aos impactos do sarampo serve como um lembrete doloroso do imenso perigo que o negacionismo científico e a baixa cobertura vacinal representam para toda a sociedade. A Agência Brasil recorda que o país havia conquistado com grande festa o sonhado certificado da Organização Mundial da Saúde (OMS) de área totalmente livre do vírus em 2016. No entanto, o Brasil amargou a derrota e perdeu esse importante título internacional em 2019, após uma severa sequência de surtos da doença. Esses problemas tiveram início justamente a partir de casos importados de outras nações, e encontraram um terreno muito fértil para a proliferação em bairros e cidades devido às baixas taxas de adesão da população à vacina.

O esforço para reverter esse triste quadro e obter o certificado de volta durou anos e custou muitas vidas. O ministro encerrou seu pronunciamento fazendo um alerta duro para a população sobre a gravidade da patologia, que muitos insistem em tratar de forma equivocada apenas como uma leve virose infantil. “Porque começou a ter campanha contra a vacina, teve corte nos investimentos na área da saúde, redução das coberturas vacinais, e só recuperamos em 2023. O sarampo é uma doença que pode progredir como uma espécie de pneumonia e gerar internação e óbito, como nós tivemos quando voltou a ter surto no Brasil”, finalizou Padilha, escancarando a necessidade vital da imunização como a grande defesa dos torcedores antes do apito inicial nos estádios.


LEIA TAMBÉM:

Com aumento de casos de sarampo nos EUA, o Brasil está vacinando quem vai pra Copa do Mundo

Ricardo Couto, governador interino do Rio, cancela patrocínio pra show de Shakira

World Press Photo expõe no Rio as fotos de concurso mundial