A ousadia da clássica Mangueira fez mais história em 2020 | Diário do Porto

A ousadia da clássica Mangueira fez mais história em 2020

A Estação Primeira vive a inovação. Em 2020, imaginou que Cristo morreria do mesmo jeito se voltasse ao mundo. Relembre um pouco da história da Mangueira

Em 2020, a Mangueira sonhou com a volta de Jesus (Raphael David/Riotur)
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É tão querida, ultrapassa tanto as fronteiras do carnaval carioca, que ganhou o status de nação. A Nação Verde-e-Rosa é uma das escolas de samba mais premiadas da história, construída e venerada por ídolos eternos da música brasileira. O maior deles é Cartola, marido de Dona Zica da Mangueira. É forte a influência das tradições, crenças, batuques e cantos de nações africanas nos muitos campeonatos da Nação.

A Mangueira foi a campeã de 2019 com uma apresentação emocionante do enredo “História pra ninar gente grande”. Naquele ano, venceu também os dois principais prêmios de veículos do Rio de Janeiro: o Estandarte de Ouro do jornal O Globo e o Tamborim de Ouro do jornal O DIA.

Se foi ousado recontar a história do Brasil sob a ótica dos heróis populares, em 2020 a escola convidou o mundo a refletir sobre a maior famosa de todas as histórias da humanidade, a de Jesus Cristo. O carnavalesco Leandro Vieira criou o enredo A verdade vos fará livre, uma releitura da vida de Cristo que levantou polêmicas.

Bandeira verde-rosa no desfile da Mangueira em 2019
Bandeira no desfile de 2019 contra a história oficial (Richard Santos/Riotur)

O desfile de 2020 foi no espírito da “história que a história não conta”, como diz o trecho do samba de 2019. Segundo a sinopse, Jesus “nasceu pobre, e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular”. Ressalta que Jesus “exaltou os humildes e condenou o acúmulo de riqueza”, insurgiu-se contra o comércio da fé, desafiou a “hipocrisia” dos líderes religiosos, questionou o governo da época (o Império Romano) e condenou a opressão. A escola mais querida não teve o mesmo desempenho do ano anterior, mas garantiu presença no Desfile das Campeãs por ter ficado em 6º lugar.

A mesma morte, 2020 anos depois

O comportamento pacifista de Jesus, segundo o enredo, e suas ideias revolucionárias “inflamaram o discurso dos algozes, que passaram a excitar o estado a decretar sua sentença”. O resultado da história, lembra o enredo de Leandro Vieira, todos sabem: “Foi torturado, padeceu e morreu.” O desfile põs o Morro da Mangueira como cenário de uma possível volta de Jesus Cristo ao mundo. “Estaria do lado dos sem eira e nem beira estranhando ver sua imagem erguida para a foto postal tão distante, dando as costas para aqueles onde seu abraço é tão necessário.”

E como terminaria a volta de Jesus à humanidade de 2020? Do mesmo jeito que há dois milênios, apostou o carnavalesco: “Se sobrevivesse às estatísticas destinadas aos pobres que nascem em comunidades, chegaria aos 33 anos para morrer da mesma forma. Teria a morte incentivada pelas velhas ideias que ainda habitam os homens. O amor irrestrito ainda assusta. A diferença jamais foi entendida. Estender a mão ao oprimido ainda causa estranheza. Seria torturado com base nas mesmas ideias.” Ao fim desta matéria, confira a letra do samba que os mangueirenses cantaram na Sapucaí em 2020.

História da Mangueira

Duque de Caxias no desfile da Mangueira de 2019
Os heróis revistos no desfile campeão de 2019

Os mangueirenses gostam de contar que, nos carnavais antigos, seus sambistas e foliões negros não eram bem vindos nos desfiles elegantes dos brancos. Além do preconceito racial, a turma bebia, falava palavrões, se metia em brigas e, mesmo no morro, muitos eram barrados nos blocos carnavalescos familiares.

Foi então que resolveram criar um bloco só de homens, o Bloco dos Arengueiros. É quem faz arengaria, algazarra, farra, bagunça. Estrearam nas ruas e ruelas em 1923, vestidos de mulher, arrumando briga com os outros blocos no meio do caminho. Depois de apanharem, baterem e serem presos, em 28 de abril de 1928 uniram-se a outros blocos do morro para desfilar na Praça Onze.

Aquela turma de bagunceiros seria consagrada como uma constelação do samba, começando pelo que hoje é considerado o maior sambista do mundo: Angenor de Oliveira, o Cartola. A união ainda contou com Saturnino Gonçalves (Seu Saturnino), Abelardo da Bolinha, Carlos Moreira de Castro (Carlos Cachaça), José Gomes da Costa (Zé Espinguela), Euclides Roberto dos Santos (Seu Euclides), Marcelino José Claudino (Seu Maçu) e Pedro Paquetá. Fundaram o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Como primeiro presidente, elegeram Saturnino Gonçalves.

Cartola sugeriu as cores

Por sugestão de Cartola, adotaram as cores verde e rosa, do Rancho do Arrepiado, de Laranjeiras, lembrança dos carnavais de sua infância. Recebeu o nome de Estação Primeira porque a primeira parada do trem, que saia da Estação de Dom Pedro (a Central do Brasil) para o subúrbio era Mangueira.

Hoje com mais de 40 mil habitantes, o Morro da Mangueira é conhecido também pelas ações sociais desenvolvidas ou inspiradas na escola de samba. Elas atendem a cerca de dez mil moradores, em parcerias com os governos federal, estadual, municipal e empresas privadas.

O verde e rosa de sua bandeira sempre presentes no desfile da Mangueira. Foto: Aziz Filho

Quando a Mangueira começa seu desfile, todo mundo reconhece ao longe, “pelo som de seus tamboris e o rufar de seu tambor”, como canta Chico Buarque no Hino de Exaltação à Mangueira. Única a não usar surdos de terceira e segunda, a bateria da Mangueira faz uma marcação de primeira forte. O rufar das caixas vai longe e sempre levanta as arquibancadas.

Super-campeã do Sambódromo

A escola ganhou o Super-Campeonato de 1984, quando o governador Leonel Brizola inaugurou o Sambódromo. Ela fora a campeã da segunda-feira de carnaval, depois de a Portela ganhar o desfile de domingo. Três escolas foram para o sábado das campeãs disputar o Super-Campeonato, e a Mangueira foi aclamada a Super-Campeã com um desfile histórico: ao chegar à Praça da Apoteose, retornou pela avenida, carregando milhares de foliões.


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A Mangueira é pródiga em figuras lendárias do carnaval, como o mestre-sala Delegado e o inesquecível sambista Jamelão, intérprete oficial da escola de 1949 até 2006. Com seu jeito mal-humorado e a voz potente, Jamelão tornou-se um mito. É considerado o maior intérprete de samba-enredo de todos os tempos.

Após parceria com a Xerox do Brasil e a Petrobras, na década de 1990 a Mangueira também montou uma Vila Olímpica e passou a disputar campeonatos esportivos, principalmente no Atletismo e no Basquete.

Os campeonatos da Nação Verde-e-Rosa:

1932 – Sorrindo e A Floresta
1933 -Uma Segunda Feira no Bonfim da Bahia
1934 – Divina Dama / República da Orgia
1940 – Prantos, Pretos e Poetas
1949 – Apologia ao Mestre
1950 – Plano Salte – Saúde, Lavoura, Transporte e Educação
1954 – Rio de Janeiro de Ontem e Hoje
1967 – O Mundo Encantado de Monteiro Lobato
1968 – Samba, Festa de um Povo
1973 – Lendas do Abaeté
1984 – Yes, Nós temos Braguinha
1986 – Caymmi Mostra ao Mundo o que a Bahia e a Mangueira Têm
1987 – O Reino das Palavras
1998 – Chico Buarque da Mangueira
2002 – Brazil com “Z” é pra Cabra da Peste, Brasil com “S” é Nação do Nordeste
2016 – Maria Bethânia: A menina dos olhos de Oyá

2019 – História pra Ninar Gente Grande

 

O samba-de-enredo de 2020

Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra do buraco quente
Meu nome é Jesus da gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais que a escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão

Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade