Mangueira: Cristo negro contra a tortura e o mercado da fé | Diário do Porto


Carnaval

Mangueira: Cristo negro contra a tortura e o mercado da fé

Enredo de Leandro Vieira para a Mangueira em 2020 imagina a volta de Cristo como um bebê nascido no alto do morro. Desfile vai criticar o que Jesus combatia

9 de agosto de 2019

Leandro Vieira, da Mangueira, herói da história recontada (Gabriel Nascimento/Riotur)

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Se você achou ousado e emocionante o desfile da campeã Mangueira deste ano no Sambódromo, ao contar a história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar, é bom preparar o coração para 2020. O carnavalesco Leandro Vieira já apresentou a sinopse do enredo “A verdade vos fará livre”, uma releitura da vida de Jesus Cristo. A polêmica toma conta das redes sociais bem antes da escolha do samba, marcada para 12 de outubro na quadra da escola.

Se o carnavalesco não for atropelado pelas pressões e não recuar, o desfile tem tudo para ser um marco histórico do Carnaval carioca. Foi o que aconteceu com o da Beija-Flor em 1989, com o enredo “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”. O carnavalesco Joãosinho Trinta cobriu uma alegoria de Cristo, vestido de mendigo, com um plástico preto e a faixa com os dizeres “mesmo proibido, olhai por nós”. Ficou em segundo lugar, mas virou um mito.

‘Jamais deixou uma ovelha para trás’

O enredo da Mangueira traz uma explosão tão grande de conceitos, sentimentos e reflexões que deve protagonizar as discussões políticas em torno do Carnaval 2020 até muito depois da apuração das notas dos jurados na Praça da Apoteose, na Quarta-Feira de Cinzas. E, naturalmente, muitos religiosos conservadores vão ter cólicas na Marquês de Sapucaí ou em frente à TV nas transmissões da TV Globo.

A sinopse é uma espécie de resumo do que a escola apresentará na avenida – e no samba, naturalmente. Ela começa no espírito da história que a história não conta. Diz o texto de Leandro Vieira que Jesus “nasceu pobre, e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular”.

‘Foi torturado, padeceu e morreu’

E segue: “Sem posses e mais retinto do que lhe foi apresentado, andou ao lado daqueles que a sociedade virou as costas oferecendo-lhes sua face mais amorosa e desprovida de intolerância. Sábio, separou o joio do trigo, semeou terrenos férteis e jamais deixou uma ovelha sequer para trás.”

Bandeira verde-rosa no desfile da Mangueira em 2019
Bandeira no desfile de 2019 contra a história oficial (Richard Santos/Riotur)

O enredo para 2020 ressalta que Jesus “exaltou os humildes e condenou o acúmulo de riqueza”, insurgiu-se contra o comércio da fé, desafiou a “hipocrisia” dos líderes religiosos, questionou o governo da época (o Império Romano) e condenou a opressão.

O comportamento pacifista de Jesus, segundo o enredo, e suas ideias revolucionárias “inflamaram o discurso dos algozes, que passaram a excitar o estado a decretar sua sentença”. O resultado da história, lembra o enredo de Leandro Vieira, todos sabem: “Foi torturado, padeceu e morreu.”


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“Sendo assim, sua imagem humana não pode ser apenas branca e masculina. Na cruz, ele é homem e é também mulher. Ele é o corpo indígena nu que a igreja viu tanto pecado e nenhuma humanidade. Ele é a ialorixá que professa a fé apedrejada e vilipendiada. Ele é corpo franzino e sujo do menor que você teme no momento em que ele lhe estende a mão nas calçadas. Na cruz, ele é também a pele preta de cabelo crespo. Queiram ou não queiram, o corpo andrógino que te causa estranheza também é a extensão de seu corpo”, assim caminha o enredo.

 

Integrante da Mangueira desfila com placa de Marielle Franco
Homenagem a Marielle emocionou o público em 2019 (Viviane Medina/Riotur)

 

O desfile vai colocar o Morro da Mangueira como cenário de uma possível volta de Jesus Cristo ao mundo. É quando a poesia e a criatividade do enredo mais extrapolam o previsível:

“Talvez na Vila Miséria, região mais alta e habitada do Morro de Mangueira. Ali, uma estrela iluminaria a sala sem emboço onde ele nasceria menino outra vez. Então, ele cresceria entre os becos da Travessa Saião Lobato, correria junto das crianças da Candelária, espalharia suas palavras no Chalé e no “Pindura” Saia. Impediria que atirassem pedras contra os que vivem nas quebradas e nos becos do Buraco Quente. Estaria do lado dos sem eira e nem beira estranhando ver sua imagem erguida para a foto postal tão distante, dando as costas para aqueles onde seu abraço é tão necessário.”

A volta do menino Jesus

E como terminaria a volta de Jesus à humanidade de 2020? Do mesmo jeito que há dois milênios, aposta o carnavalesco: “Se sobrevivesse às estatísticas destinadas aos pobres que nascem em comunidades, chegaria aos 33 anos para morrer da mesma forma. Teria a morte incentivada pelas velhas ideias que ainda habitam os homens. O amor irrestrito ainda assusta. A diferença jamais foi entendida. Estender a mão ao oprimido ainda causa estranheza. Seria torturado com base nas mesmas ideias.”

Veja a sinopse na íntegra no site da Mangueira.


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