Política

Sambódromo, 35 anos à espera de um estadista

Desde que Brizola inaugurou o Sambódromo, há 35 anos, nenhum governante fez obra digna de registro no maior equipamento cultural do país. Só proselitismo.

10 de março de 2019
O arco da Praça da Apoteose em construção: depois de 1984, nenhuma obra relevante

Compartilhe essa notícia em sua rede social:

Editorial

É muito positivo que o governo do estado e a prefeitura do Rio tenham planos para o Sambódromo, mesmo que ninguém saiba quais são eles. A Riotur diz que são grandiosos. O governador Wilson Witzel manifesta a intenção de retomar o controle do equipamento. Não é sem tempo. Desde que o trio Brizola, Darcy e Niemeyer apresentou este colosso ao mundo, em 1984, a única obra digna de registro por ali foi a dos carnavalescos e sambistas. Prefeitos, governadores e presidentes nada fizeram além de sassaricar no recuo de bateria, levar vaia ou protagonizar cenas constrangedoras.

A exposição de instalações perigosamente degradadas, com a ameaça pirotécnica do Ministério Público de pedir a interdição na véspera da festa, é só mais um episódio do desleixo com o qual os governantes tratam o maior equipamento cultural do País há três décadas e meia. O entorno da Passarela do Samba, por onde turistas do mundo inteiro circulam, mata o carioca de vergonha. Ratos e urubus circulam entre montanhas de lixo, água e esgoto formam poças fedorentas, muitas vezes gasta-se uma hora para percorrer meio quilômetro em ruas escuras e inseguras. Sempre foi assim e continua sendo.

Nesses 35 anos de Sambódromo, a arte fez muita história e mudou, ano a ano, o conceito dos desfiles. O Brasil viu o luxo e a revolução de Joãosinho Trinta na Beija-Flor, a Mocidade high tech de Renato Lage, o requinte de Rosa Magalhães, a magia de Paulo Barros, o renascimento da Portela e da Mangueira e muito mais. Da parte do poder público, proselitismo, factoides e cenas bizarras e praticamente nada a mais. Nem mesmo um projetinho de iluminação cenográfica, sonho de todo carnavalesco, para acabar com a frieza estéril dos canhões de luz fluorescente.

O debate sobre a privatização ou estatização do Sambódromo pode ser a oportunidade histórica de os palácios da Cidade e Guanabara colocarem-se à altura da importância deste templo mundial do turismo, âncora de um fluxo que, este ano, bateu recorde e chegou à cifra de R$ 3,5 bilhões. A forma de agir ou de omitir-se diante de desafios é o que, muitas vezes, marca a diferença entre estadistas e síndicos de massa falida. O heroico carnaval carioca pode estar diante de uma oportunidade e tanto – ou de mais uma frustração. 


LEIA TAMBÉM

Haters, tremei: carnaval carioca gera R$ 3,5 bi

Travellers’ Choice 2018: o Rio entre as 25 mais do mundo

Cristina Fritsch diz que Brizola e Globo fizeram mal ao Rio


Atualização: Atendendo a leitores, registramos que a reforma de 2011/12 aumentou em 20% o número de lugares no sambódromo (de 60 mil para 72.500). Em troca da obra, a Ambev ganhou direito a construir um edifício, que tem baixa ocupação porque continua inserido em uma área com péssima estrutura urbana. 

Compartilhe essa notícia em sua rede social: