Enquanto o projeto de revitalização do antigo Moinho Fluminense, na Zona Portuária do Rio, segue em discussão desde 2015 e ainda não saiu do papel, outra capital brasileira já conseguiu transformar um moinho industrial histórico em empreendimento residencial. Em Pernambuco, na capital Recife, 251 unidades habitacionais foram entregues na zona portuária, com a conclusão do retrofit dos silos do antigo Moinho da cidade, no complexo Moinho Recife Business & Life, em obra iniciada em 2020.
Os edifícios Silo 215 e Silo 240 converteram antigos silos industriais centenários — que antes armazenavam trigo — em moradias, preservando elementos da arquitetura original. O projeto tornou-se referência ao manter a memória industrial do local e, ao mesmo tempo, introduzir habitação no centro histórico da cidade. Essa é a proposta para o Moinho Fluminense anunciada inicialmente pela Prefeitura do Rio há onze anos, quando Eduardo Paes estava em seu segundo mandato. Sem cumprir o projeto, ele está deixando a Prefeitura no meio do terceiro mandato, para se candidatar a governador.
No Recife, o moinho local foi transformado em residencial com unidades que vão de estúdios a apartamentos de um e dois quartos, com metragens entre 19 e 68 metros quadrados. As plantas preservam a circularidade das antigas células de armazenamento, unindo funcionalidade e respeito ao patrimônio industrial.
No Silo 215, um vão central criado por meio de demolição controlada atravessa os 11 pavimentos, funcionando como uma espécie de “janela histórica” que garante iluminação e ventilação naturais. Já no Silo 240, o lobby preserva os antigos funis piramidais utilizados no sistema de armazenagem do trigo. Em várias unidades, formadas pela junção de dois ou três silos do moinho, a geometria original das estruturas permanece visível, agora combinada com soluções arquitetônicas contemporâneas.
O empreendimento privado só se tornou viável graças a incentivos criados pela Prefeitura do Recife por meio do programa Recentro. A política pública prevê incentivos fiscais e urbanísticos para estimular novos investimentos no centro histórico, incluindo isenções totais ou parciais de tributos como IPTU, ITBI e ISS, além da concessão de potencial construtivo adicional que pode ser utilizado em outras áreas da cidade.
Moinho Fluminense é conjunto histórico de 1887
O contraste com o caso do Rio de Janeiro é evidente. Na capital fluminense, o antigo moinho localizado na Gamboa permanece no centro de uma interminável discussão. O atual projeto de revitalização integra o plano “Mata Maravilha”, que prevê a restauração do complexo industrial histórico, inaugurado em 1887, e a construção de torres residenciais e comerciais de grande porte, além da criação de um parque urbano com cerca de 50 mil árvores.
A iniciativa faz parte do processo de requalificação urbana iniciado com o projeto Porto Maravilha, mas ainda depende de mudanças na legislação urbanística e de aprovação na Câmara Municipal. A prefeitura negocia a autorização para a construção das torres com cerca de 200 metros de altura, como contrapartida para a criação do parque e a recuperação do patrimônio histórico do Moinho Fluminense.
Em 2023, a prefeitura chegou a anunciar a desapropriação do Moinho Fluminense, alegando interesse público na revitalização da área. A medida acabou sendo abandonada posteriormente, e o controle do terreno permaneceu com o setor privado, mas não abriu caminho para a execução do projeto.
As mais recentes articulações em torno do empreendimento envolveram uma reunião, em fevereiro, entre o vice-prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para discutir iniciativas ligadas à revitalização da região portuária, incluindo o programa Mata Maravilha e o futuro do terreno do Moinho Fluminense. Segundo a Prefeitura, o objetivo do encontro foi alinhar estratégias de desenvolvimento urbano e econômico para o Porto e discutir condições institucionais e financeiras que possam facilitar os investimentos na área.
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