A discussão sobre a falta de uma sala própria para concertos sinfônicos no Rio de Janeiro voltou com força em artigo publicado em O Globo. O professor e maestro André Cardoso lembrou o óbvio que há décadas se tenta contornar: uma cidade com vida orquestral não pode depender de soluções improvisadas nem de espaços concebidos para outros fins. O DIÁRIO DO PORTO concorda com o diagnóstico e vai além: o prédio histórico da Estação Leopoldina reúne condições simbólicas, urbanísticas e arquitetônicas para abrigar esse espaço tão necessário à cultura do Rio.
Atualmente em obras de restauração, a antiga estação — oficialmente chamada Estação Barão de Mauá — ainda não tem destino claramente definido no debate público, apesar dos anúncios genéricos de que se tornará um “complexo multiuso”, um centro de convenções ou coisa parecida. Essa situação mostra que uma oportunidade de ouro corre o risco de se tranformar em desperdício irreparável. Um edifício com tamanha carga histórica e localização estratégica não pode se perder em usos difusos, subordinados apenas à lógica imobiliária ou à agenda episódica de eventos.
Inaugurada em 1926, a Leopoldina foi projetada pelo arquiteto escocês Robert Prentice, o mesmo do Palácio da Cidade, em Botafogo. Durante décadas, foi porta de entrada ferroviária para o Rio, conectando a capital a Minas Gerais e São Paulo. Seu fechamento progressivo e posterior abandono, a partir de 2001, sintetizam um padrão recorrente: o da negligência com a infraestrutura histórica e cultural da cidade. Agora, às vésperas do centenário, a reforma — estimada em R$ 80 milhões — representa uma rara chance de reconciliação do Rio com o próprio patrimônio.
Transformar o edifício principal da Leopoldina em uma sala de concertos sinfônicos seria mais do que um gesto cultural: seria um projeto de cidade. Diferentemente de teatros com fosso e caixa cênica, uma sala sinfônica exige concepção acústica específica, palco amplo, áreas técnicas adequadas e espaços de estudo e ensaio. Nada disso existe hoje de forma satisfatória no Rio, como escreve André Cardoso em seu artigo. As experiências de São Paulo e Belo Horizonte mostram que investimentos desse tipo geram retorno cultural, social e econômico, ativando cadeias produtivas e qualificando o espaço urbano.

Enquanto o futuro do prédio histórico permanece nebuloso, o que já está claramente definido é o destino dos terrenos nos fundos da estação, onde ficavam os antigos trilhos. Ali avança a chamada Fábrica do Samba Rosa Magalhães, ou Cidade do Samba 2, com a construção de 14 barracões destinados às escolas de samba da Série Ouro. O projeto inclui ainda cerca de 700 moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, além de equipamentos públicos como clínica da família e escola tecnológica. Também está previsto a chegada do VLT, conectando a região ao Terminal Gentileza e a São Cristóvão, com participação do BNDES na estruturação do modelo de ocupação de longo prazo.
Nada disso é irrelevante. Ao contrário: trata-se de um redesenho urbano de grande escala. Justamente por isso, causa estranheza que o edifício-símbolo do conjunto não tenha uma vocação cultural à altura de sua história. O Rio já perdeu oportunidades demais por falta de visão estratégica. Fazer da Estação Leopoldina a casa definitiva da música sinfônica carioca seria alinhar memória, cultura e desenvolvimento urbano.
O DIÁRIO DO PORTO entende que o debate precisa sair dos bastidores e ganhar transparência. A cidade deve ser chamada a discutir o destino de um patrimônio que lhe pertence. Se é urgente preparar o futuro da música orquestral no Rio, como alerta André Cardoso, por que não fazê-lo a partir de um de seus marcos históricos mais belos e emblemáticos?