Fátima França
Repórter especial Diário do Porto
Imagine o menu de uma das maiores conferências climáticas do mundo. Em vez de pratos genéricos e industrializados, que tal um almoço, jantar ou petiscos com ingredientes fresquinhos, colhidos por famílias produtoras da Amazônia? Pois é exatamente isso que vai acontecer na COP30, em Belém. Uma regra inédita e cheia de sabor vai garantir que comida servida durante o evento tenha um gostinho especial: o cardápio vai ser elaborado com produtos provenientes da agricultura familiar.O que significa que o público que estiver em Belém para a conferência vai consumir “comida de verdade”.
Pela primeira vez na história das COPs, a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas exigirá que pelo menos 30% da alimentação servida venha da agroecologia, da agricultura familiar e de comunidades tradicionais. A medida não é apenas um detalhe, mas sim uma estratégia ousada para conectar a comida que a gente come com a saúde do planeta. E o impacto não é pequeno: a iniciativa pode injetar cerca de R$3,3 milhões na economia rural da região. É como se 80% do orçamento anual da merenda escolar de Belém fosse movimentado de uma só vez, um verdadeiro banquete para o campo.
Sabor que transforma: como a comida ajuda o clima
Talvez você não pense nisso no dia a dia, mas o que comemos tem um impacto enorme no meio ambiente. O sistema alimentar global é um dos maiores vilões quando o assunto é emissão de gases de efeito estufa. No Brasil, essa responsabilidade é ainda maior, chegando a 74% das emissões, principalmente por causa da agropecuária. É um número que faz a gente engolir em seco.
Mas a boa notícia é que a agricultura familiar, especialmente a que adota práticas agroecológicas, oferece um caminho diferente. Ao valorizar o uso de alimentos produzidos sem agrotóxicos, ela se torna uma aliada poderosa no combate às mudanças climáticas. Ao apoiar esses produtores, a COP30 vai muito além de oferecer refeições nutritivas: ela fortalece um modelo de produção que cuida do solo, da água e da biodiversidade. É a prova de que a mudança começa na ponta do garfo.
A iniciativa Na Mesa da COP30 surgiu da coalizão de organizações da sociedade civil e é um exemplo de como as ações coletivas podem influenciar grandes eventos. O grupo, liderado pelos Institutos Regenera e Comida do Amanhã, mapeou cerca de 80 associações, cooperativas e redes produtivas que podem fornecer os alimentos, dando grande contribuição para que a medida fosse adotada pela organização da COP30. A expectativa é que mais de 8 mil famílias se beneficiem diretamente dessa iniciativa.
O Legado no Prato
Mais do que movimentar a economia e garantir uma alimentação sustentável, a decisão da COP30 tem o potencial de deixar um legado duradouro. A experiência pode inspirar políticas públicas e práticas alimentares no Brasil e em outros países, mostrando que é possível ter um cardápio alinhado com os objetivos da agenda climática.
É uma mensagem simples, mas poderosa: a mudança global pode (e deve) começar com escolhas locais e sustentáveis. Na COP30, o mundo não vai apenas discutir o clima, mas também vai saborear a solução, um prato de cada vez.