AMOR À MÚSICA: O Brasil se despede de Lô Borges | Diário do Porto


Obituário

AMOR À MÚSICA: O Brasil se despede de Lô Borges

Jornalista Roberto Machado escreve texto especial sobre a morte de Lô Borges para o Diário do Porto

4 de novembro de 2025

Brasil se despede de Lô Borges (foto: Divulgação)

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Roberto Machado

Lô Borges foi o filho do meio dos 11 produzidos por seu Salomão e dona Maricota. Salomão pai era jornalista e amigo dos artistas de BH. A mãe fundou uma escola. A casa dos Borges respirava música, arte e cultura. Todos os irmãos tocavam algum instrumento. Marilton, o mais velho, foi músico da noite.

Como é bastante difundido, Lô conheceu Milton Nascimento numa escada do edifício Levy. Tinha 10 anos e foi atraído pela voz de Bituca. Aos 13, ganhou de Milton seu primeiro violão. Quase uma criança, já tocava o instrumento e também piano. As primeiras canções foram escritas entre os 16 e 17 anos, com frescor e juventude, assim como sua voz. Sempre fico chocado com a idade que tinha quando compôs tudo aquilo. São músicas de uma beleza exuberante.

Milton convenceu a EMI a produzir um álbum duplo (raridade na época) reunindo a música de ambos. Os executivos acharam que Milton havia enlouquecido por gravar um disco com um moleque de 17 anos. Parte das canções foi composta numa praia de Niterói. Como era menor de idade, longe de BH, o menino ficou sob a guarda de Milton. O que resultou dali ditou o que veio depois. Clube da Esquina é o maior disco da música brasileira. Transita de João Gilberto a Beatles com uma pegada própria, inventiva, inspiradora.

Com uma pérola na mão, a gravadora pediu a Lô um LP solo, que veio a ser o icônico disco do tênis, marcado pelo experimentalismo, do rock ao jazz. Como era pouco mais do que um adolescente, aos 20 anos pegou um punhado de LPs e foi morar em Arembepe, praia da Bahia então meca dos hippies.

Algum tempo depois lançou “Nuvem Cigana”, “Via Láctea” e “ Sonho Real” que fecham o primeiro e mais criativo ciclo. Vieram tantos outros, igualmente inspirados. Certamente foi o cantor e compositor que mais ouvi. E são incontáveis os shows. Em alguns deles, Lô vestia a camisa do Cruzeiro, talvez a maior paixão depois dos Beatles.

De todas as suas histórias, há uma que nunca esqueci: a mais louca de todas, já no nascimento. Maricota estava com nove meses de gravidez. Havia chegado a hora de Salomão Borges Filho vir ao mundo. Mas Maricota se recusava a ir à maternidade sem Salomão pai. Num mundo sem celular, conseguiram localizá-lo. Assim que chegou, colocou a mulher na traseira do fusca e partiram para o hospital. Chovia. Nervosíssimo, o pai perdeu a direção e bateu num poste. Ninguém se machucou, mas Dona Maricota deu à luz ali mesmo, num parto conduzido por um policial militar que estava por perto. Posso ter omitido ou alterado algum detalhe dessa história, a memória falha, mas o fato é esse aí.

De todas as obras-primas, “Um girassol da cor de seu cabelo” sempre me emociona. Faz aflorar meu amor absoluto pela música. Sobre hoje, o que posso fazer é citar um pequeno trecho da canção: não chore não, é só poesia.


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