As festas juninas no Rio de Janeiro não terminam neste mês. A cidade tem um intenso calendário de celebrações, que vai até o início de agosto. E essa efervescência não é nova, faz parte de uma longa tradição carioca que, na música popular, teve seu auge entre os anos 1920 e 1960. É uma história marcada por compositores que ajudaram a moldar a identidade cultural brasileira — entre eles, Noel Rosa, Braguinha, Ary Barroso, Lamartine Babo, Assis Valente, e aquele que mudou tudo, Luiz Gonzaga.
Em meio às comemorações típicas, esse grupo deixou um legado que ecoa até hoje nas celebrações de junho, nas competições de quadrilhas das festas juninas, nos arraiais escolares, nos palcos das festas populares ou nas playlists que mantêm viva a tradição que, apesar das origens rurais, tem forte sotaque urbano carioca.
Nos primeiros sessenta anos do século passado, havia no Rio de Janeiro um sólido costume de lançamento de músicas durante as festas juninas, especialmente em bairros como a Penha, onde multidões se reuniam em torno da igreja de Nossa Senhora para celebrar o São João. Foi nesse ambiente que surgiram alguns dos maiores clássicos do repertório junino brasileiro.
Um dos primeiros sucessos foi “Chegou a Hora da Fogueira”, lançado em 1933 por Lamartine Babo e imortalizado por Carmen Miranda e Mário Reis. Considerada por muitos como a mais cativante marchinha das festas juninas, a música se tornou símbolo desta época do ano em todo o país. No mesmo ano, Assis Valente lançou “Cai, Cai, Balão”, outro hino das festas, especialmente entre o público infantil. Em 1936, Francisco Alves gravou “Pula a Fogueira”, composta por Getúlio Marinho e João Bastos Filho, que rapidamente se espalhou pelos arraiais brasileiros.
Braguinha, também conhecido como João de Barro, contribuiu para o lirismo das festas juninas com “Noites de Junho” (1939), parceria com Alberto Ribeiro, que se destacou pela melancolia dos versos “Noite fria, tão fria de junho…”. Antes disso, em 1931, Ary Barroso, ao lado de Lamartine Babo, compôs “No Rancho Fundo”, que, embora não fosse feita especialmente para São João, virou presença recorrente nas celebrações juninas, sendo até hoje um hit em grandes shows de música sertaneja.
Noel Rosa, o Poeta da Vila, registrou em 1937 sua evocação emotiva às festas juninas com “Último Desejo”, parceria com Vadico. O samba, que começa com os versos “Nosso amor que eu não esqueço / E que teve o seu começo / Numa festa de São João”, foi composto pouco antes de sua morte precoce e se tornou uma das mais belas declarações de amor da música brasileira.
As festas juninas nunca mais foram as mesmas, depois de Luiz Gonzaga
A partir da década de 1940, o cenário das festas juninas no Rio ganharia um novo sotaque com a chegada e o sucesso de Luiz Gonzaga. Nascido em Pernambuco e radicado no Rio, Gonzaga foi responsável por introduzir os ritmos e a estética do Nordeste nas festas juninas cariocas. Com o lançamento de músicas como “Olha pro Céu” (1951), em parceria com José Fernandes, ele trouxe o baião, o xote e o forró para o circuito urbano da então capital federal. Outros sucessos como “São João na Roça”, “Respeita Januário” e “O Fole Roncou” ajudaram a consolidar a presença do forró nas festas de São João realizadas na Penha, em São Cristóvão e em vários subúrbios cariocas — onde também crescia o número de migrantes nordestinos.
Com Gonzaga, o São João carioca passou a incorporar sanfona, zabumba e triângulo, transformando as festas juninas em pontos de encontro entre o sertão nordestino e a então capital do país. Seu repertório dialogava com a fé popular, com o romantismo típico da data e com o cotidiano dos trabalhadores nordestinos que ajudaram a construir o Rio do século 20.
Celebrar as festas juninas no Rio é, portanto, mais do que seguir uma tradição: é reconhecer que parte fundamental da música nacional passou por esses festejos. E que, graças a Noel, Braguinha, Ary, Gonzaga e tantos outros, junho nunca foi apenas um mês no calendário — mas um tempo de memória, afeto e canções que continuam tocando o coração do Brasil.
