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“Why not”: O inverno de nossa desesperança

Olga de Mello fala do livro “Why not”, de Raquel Landim, sobre a trajetória dos irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS

7 de julho de 2019
Os irmãos Batista: do açougue à fortuna e à prisão

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Olga de Mello

Nesses dias brasileiros em que o noticiário concorre em enredo com as séries de televisão, distanciar-se da política é perder o desenrolar de uma sucessão de farsas dramaturgicamente fracas, que desdenham de seu público. A farsa é uma peça curta, satírica, caricatural. Quase como uma sessão de qualquer parlamento brasileiro. Mas as farsas apresentadas ao país se desenvolvem em diversos cenários. Neste inverno desesperançado, sem se preocupar em apontar quem é quem numa pretensa luta do bem contra o mal, a jornalista Raquel Landim lança Why not (Intrínseca, R$ 49,90). A trama é apresentada na capa: “Como os irmãos Joesley e Wesley, da JBS, transformaram um açougue em Goiás na maior empresa de carnes do mundo, corromperam centenas de políticos e quase saíram impunes”.

O título do livro, uma referência ao iate “Why not”, assim batizado por Joesley Batista, parece explicar a política administrativa dos irmãos, que distribuíram dinheiro a políticos a fim de beneficiar seus negócios. Nos últimos dois anos, Raquel Landim entrevistou mais de cem pessoas para levantar a história da família Batista, a escalada da JBS até transformar-se num dos mais importantes grupos frigoríficos internacionais, enquanto desembolsavam muito dinheiro para campanhas eleitorais ou benefícios para determinados políticos.

Livro Why Not

Montado como um thriller, Why not mostra o modo sujo de estabelecer negócios no País, a corrupção que grassa entre os políticos e também mostra os meandros da cobertura jornalística, tornando colunistas, editores e repórteres personagens, em busca de uma visão objetiva diante das falcatruas descobertas. A narrativa saborosa tem o ritmo cinematográfico acelerado de filmes de ação contemporâneos – combinando com o andamento das investigações da Operação Lava-Jato, com prisões de grande impacto visual e comoção pública. Dois anos depois das delações de Joesley e Wesley sobre a corrupção de políticos, a JBS se recuperou do escândalo e aumentou em 23% seu valor de mercado – quase R$ 32 bilhões – em relação à época as denúncias.


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Embora mais ricos, os irmãos Batista ainda não garantiram a liberdade com a colaboração, como pretendiam. As denúncias feitas em maio de 2017 levaram ao indiciamento do deputado federal Aécio Neves pelo suposto recebimento de propina de R$ 2 milhões de Joesley Batista, que entregou fita de suas conversas com o político. Na época, a irmã do deputado, Andrea Neves, e um primo, encarregado de recolher o dinheiro dos Batista, chegaram a ser presos por alguns dias. Esta semana, os três Neves acabam de ser indiciados no mesmo processo por corrupção.

Os últimos atos registrados no livro são as breves detenções, em março deste ano, do ex-presidente Michel Temer e do ex-ministro Wellington Moreira Franco. Temer, que em gravação de conversa com Joesley diria “tem que manter isso aí”, supostamente referindo-se à propina paga ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha para permanecer calado sobre negociatas enquanto cumpre 15 anos de pena por corrupção passiva, foi preso preventivamente pela força-tarefa da Lava-Jato no Rio, sob acusação de desvio de recursos em obras na usina Angra 3. Depois de quatro noites na cadeia, foi solto por falta de provas de que, livre, atrapalharia as investigações. Wesley e Joesley aguardam em liberdade a decisão do Supremo Tribunal Federal quanto à validade da delação premiada.