Empreendedorismo

VLT Carioca: um trem fantasma na Sete de Setembro

Relato de ex-dona de restaurante conta como virou um deserto a rua que o projeto do VLT Carioca prometeu transformar em Boulevard

23 de agosto de 2020
Sete de Setembro com trilhos do VLT Carioca, o "trem fantasma"

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Amelia Gonzalez

Amelia Gonzalez

Blog Ser Sustentável

Durante dois anos e oito meses de minha nem tão longa existência eu decidi ouvir o canto da sereia. E comprei um ponto de um restaurante popular, bem popular, ali na Sete de Setembro, importante rua do Centro da cidade que é o segundo polo econômico do país. Para isto, investi todo o dinheiro que tinha. E o dinheiro que eu tinha era fruto de uma vida inteira de trabalho como jornalista.

Bem, a história desses 970 dias – eu não quero chamar de aventura, mas é quase isso – vai ser detalhada num livro que estou escrevendo. O que trago hoje, aqui neste espaço, é a minha indignação. E, quem sabe, algum pensamento que possa servir como adjutório aos candidatos a se sentarem na cadeira de quem administra a cidade.

As eleições, no fim das contas, vão acontecer. E, como cidadã, sinto-me impelida a botar holofote sobre aquele canto da cidade. Que não é um canto qualquer, como já disse, e que precisa muito de um estudo urbanístico, social, ambiental. Precisa de régua, compasso, óleos essenciais, velas, orações, mantras… seja lá o que for. Mas não pode continuar como está.

Obras para receber o VLT Carioca

Para falar do presente, preciso dar uma rápida pincelada do que foi aquele momento, em maio de 2016, quando assinei o contrato e tornei-me dona de 80% do restaurante. A Sete de Setembro estava em obras para abrir canal ao Veículo Leve sobre Trilhos, o famoso VLT Carioca. O dono do restaurante que me vendeu o ponto – preciso dizer que fica no trecho mais pobre da rua, entre a Uruguaiana e a Praça Tiradentes – não suportou os quase dois anos de barulho, poeira e poucos clientes. Vendeu-me por um preço que, para ele, era muito baixo. E deu para eu comprar.

Alimentei-me da esperança que estava no ar. Eu era a sócia majoritária, e tive ajuda de um amigo, que se tornou o segundo sócio, que já tinha outro restaurante no local. Era um momento penoso para os comerciantes, mas todos acreditavam que a bonança estaria próxima. A Sete de Setembro, até então uma rua praticamente tomada por carros – estacionados e circulando – se tornaria um boulevard. Teria vasos, flores, plantas. O VLT Carioca iria atrair turistas, os turistas se sentiriam atraídos pelos restaurantes, a clientela faria filas nas portas.

Sonho desmorona como marshmallow

Meu projeto era ter um local bonito, confortável, oferecer boa comida por um preço que pudesse ser pago por trabalhadores. Camelôs, funcionários de lojas, iriam se sentar para comer num lugar com quadros de Tarsila do Amaral, pequenos textos contando a história da Semana da Arte Moderna. E fariam contato com alimentos com os quais estavam pouco familiarizados, já que eu queria tornar prática a teoria que estudo, sobre um ecodesenvolvimento, sobre a necessidade de se diversificar nossos hábitos alimentares.

O sonho foi se desmoronando como marshmallow em fogo. As obras terminaram, o trenzinho começou a circular e, em poucos meses, viu-se que o boulevard não saíra das pranchetas dos urbanistas e das propagandas. A rua foi virando um deserto. E o que é pior: árido. Passei lá três verões. E era um sacrifício fazer o trajeto entre o Metrô Rio e meu restaurante sob um sol que, já de manhã, me desnorteava de tão forte. Quem mora nesta cidade sabe a ilha de calor em que ela se transforma.

Tentei, juro que tentei. Fiz contato com a Fundação Parques e Jardins, que me dizia que a empresa do VLT Carioca (Alstom) era obrigada a fazer a urbanização como contrapartida. Ofereci-me para ajudar, na época ainda sobravam-me alguns tostões. Sugeri que eu pudesse levar alguns vasos, enfeitar de alguma forma e trazer algum verde para tanta aridez.

“A senhora vai acabar sendo multada por atrapalhar o caminho dos pedestres”, disse-me uma voz fria do outro lado do telefone.

A Sete de Setembro está proscrita

À medida que os clientes iam desistindo, não só por falta de incentivo para atravessar o deserto e ir almoçar,  como por falta de dinheiro – sim, a crise foi comendo também a vontade de ir a restaurantes, e eu via, desesperada, aumentar o número das tais bolsinhas de marmitas nas mãos de usuários no Metrô – a minha energia ia baixando. E o meu caixa ia se esvaziando. Até que, em janeiro de 2019, dei por finda a minha vida de empreendedora. Mas meu coração, é claro, continua ligado ao lugar onde vivi tão intensamente.

Salto para agosto de 2020. Mesmo nos meus mais atormentados pesadelos, à época que me vi como dona de restaurante, pude imaginar o que estamos vivendo. A pandemia, o isolamento social, acirraram o desterro. A Sete de Setembro, naquele trecho, está proscrita. O VLT ganhou um apelido: o trem fantasma. Que leva ninguém a canto nenhum, dizem os comerciantes guerreiros que sobrevivem ao caos.

Lição de casa para o governante que ganhar as eleições. E lição de vida para nós, que vivemos aqui nesta cidade. Acreditar demais em quem se dá o direito de redesenhar a trama urbana oferecendo garantias de progresso e bem estar aos cidadãos parece ser a nossa marca.  Atraso o relógio da história e vou mais além, para o início do século XX. Em 29 de fevereiro de 1904, Rodrigues Alves, então presidente da República, deflagrou aqui uma revolução urbana.


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A mudança na cidade exigia que os prédios tivessem fachadas e que os projetos fossem previamente aprovados. Remodelou-se, também, a rua do Ouvidor e a avenida Beira-Mar, revelando a beleza da orla, pouco aproveitada … Impuseram-se normas de civilidade: tornou-se proibido cuspir no assoalho dos bondes…” (Mary del Priore, em “Histórias de gente brasileira”, volume 3) .

Olavo Bilac, num texto reproduzido pela historiadora, invejava a sorte dos “que agora estão nascendo, dos que vão viver numa cidade radiante – quando eu, e os da minha geração, pela estupidez e pelo desleixo dos enfunados parlapatões que nos governaram, tivemos de viver numa imensa pocilga de dois mil quilômetros quadrados, como um bando de bácoros fuçando a imundície”.

Ah, meu caro Bilac, se me permite me dirigir a você com tanta intimidade, quero lhe dizer que aquela cidade radiante de seus sonhos anda precisando de muitos cuidados, em todos os setores. Que não tenhamos, a nos governar, mais um parlapatão. A gente não conseguirá sobreviver…