Mobilidade

VLT Carioca defende moradias para recuperar o Centro

Marcio Hannas, presidente do VLT, criticou a falta de subsídio ao transporte público e quer incentivo a moradias no Centro, para retomada dos negócios

4 de setembro de 2020
Marcio Hannas, presidente do VLT Carioca, participou de live do DIÁRIO DO PORTO e disse estar otimista para o próximo ano (foto: VLT / Divulgação)

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O presidente do VLT, Marcio Hannas, defendeu políticas públicas e privadas que incentivem a moradia no Porto Maravilha e no Centro do Rio. Em live com o DIÁRIO DO PORTO, na quinta-feira, 3 de setembro, ele disse que a ocupação da região por mais habitantes será importante para a recuperação das atividades comerciais e para atrair novos investimentos.

Diante de questão enviada pelo público sobre o valor da tarifa do sistema, considerado caro, Hannas explicou que a mesma é definida contratualmente, não pela empresa, e lembrou que no Brasil não há subsídio ao transporte público, ao contrário do que acontece em vários países desenvolvidos.

O confinamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus afetou severamente o movimento de passageiros do VLT, mas Hannas acredita que o próximo ano será de recuperação. E tem uma visão otimista para o futuro do Rio. O que passa pela eleição de um candidato a prefeito que tenha boas propostas para a cidade, especialmente para o Centro, e por uma mobilização também do empresariado, segundo Hannas.

Veja abaixo, alguns trechos de sua participação na entrevista conduzida pelos editores do DIÁRIO DO PORTO, Aziz Filho e Antonio Carlos de Faria.

VLT pede moradias para jovens

O Centro do Rio vem sofrendo um processo de esvaziamento, com menos circulação de pessoas. Para Hannas, uma das soluções seria o estímulo às moradias na região, traçando um paralelo entre uma nova tendência dos jovens e a mudança de hábitos com a pandemia.

“O Centro precisa ter um foco e um trabalho ordenado de planejamento para sua ocupação. A pandemia veio acelerar processos que já estavam ocorrendo na sociedade, como ampliar a experiência do trabalho remoto. Acho que isso vai mudar o modo como a gente circula na cidade. Além disso, a tendência atual dos jovens é a de levar uma vida mais simples, vivendo por meio de negócios próprios ou de trabalho sem vínculo com único empregador. O jovem quer ter o custo de vida baixo. É uma população que busca tipos de imóveis diferentes. Quer trabalhar e morar no mesmo local. O Centro do Rio é ideal para receber empreendimentos residenciais voltados para esse público, com um novo estilo de vida. É preciso projetos que transformem em residenciais boa parte dos atuais edifícios da região e que se construam novos”, destacou o empresário.


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Para Hannas, o aumento de moradores terá reflexos positivos importantes para a região. “Uma vez que traz moradia, vai trazendo novas atividades para o Centro. O restaurante, que normalmente funciona no almoço, vai passar a funcionar no almoço e no jantar. Também tem o desafio da segurança. Talvez reforçar o Centro Presente, programa complementar de policiamento, e trazer mais  tranquilidade para as pessoas se sentirem atraídas a morar na região”.

Empresas têm que participar, diz Hannas

Além de políticas públicas e da ação dos governos, o presidente do VLT cobra mais atitude dos empresários, que poderiam atuar em conjunto para buscar soluções que estimulem uma retomada econômica na região central da cidade. Hannas afirma que não basta ficar reclamando. É preciso se mobilizar, analisar soluções que já foram adotadas em projetos de revitalização de áreas centrais de outras grandes cidades. Para isso, não basta que as empresas fiquem esperando a solução vir dos governantes. “Acho que falta esse movimento da iniciativa privada. Há muitas ações que os próprios empresários poderiam realizar e, em conjunto, trabalhar para que os órgãos públicos também cumpram sua parte.”

Tarifa do VLT e a falta de subsídio ao transporte público

Um dos questionamentos feitos pelo público da live foi sobre o preço da tarifa, de R$ 3,80 e a falta de uma integração tarifária mais justa para os passageiros, com outros modais de transporte, como barcas, ônibus, metrô e trens. Sobre essa última questão, Hannas lembrou que hoje falta uma lei que estenda a integração para uma terceira opção de transporte. Na modalidade atual, a integração ocorre para dois modais, por exemplo entre ônibus e barcas, excluindo o VLT, o que encarece o transporte para o usuário.

Sobre o preço da tarifa, Hannas explicou que ela é definido contratualmente, mas destacou que falta ao Brasil discutir seriamente a questão do subsídio ao transporte público. Isso é o que ocorre em vários países desenvolvidos, para diminuir o custo para a população mais pobre e como forma de incentivar o uso desse tipo de transporte e diminuir os carros nas ruas. “O Brasil não tem subsídio para o transporte público. Isso cria uma equação perversa. O transporte público caro acaba sendo pago pela parcela da população que menos tem dinheiro e mais depende desse tipo de mobilidade. Precisamos discutir a questão do subsídio”.

Para tornar a questão mais clara, o presidente do VLT usou exemplos de capitais europeias, onde há subsídio dos Governos ao transporte público. Entre outros, ele citou o caso de Londres, capital da Inglaterra. “Lá, o Governo paga parte do custo do transporte público e mantém um serviço de qualidade, com tarifa mais acessível à população local. Uma forma para manter esse sistema é a cobrança de pedágio dos carros que querem trafegar pelas áreas centrais”.

VLT e as possibilidades de expansão

O público também enviou questões sobre futuras extensões do VLT a outros bairros e regiões da cidade. Hannas disse que isso é possível em longo prazo, mas depende de planejamento. “Acho que tem possibilidade do VLT se expandir para outros pontos da cidade. Acho que tem muito espaço. Mas acho que tem que ser planejado porque não faz sentido a gente ficar concorrendo com outros modais. O que está faltando é planejar. Será que faz sentido passar pelo Aterro? Já tem o metrô passando perto dali. Talvez o VLT indo para a região da Lapa faça sentido. Pode ter fluxo de gente de Santa Teresa, Cidade Nova… Tem que ser planejado para não investir dinheiro onde não é necessário”.

Efeitos da pandemia

Hannas disse que a queda do número de passageiros foi muito grande e que a recuperação total só virá quando houver vacinação da população. “Todos os transportes perderam passageiros, com a gente não foi diferente. Um percentual de queda de 80% mais ou menos, o que é muito dramático. Houve já recuperação, na medida em que a Prefeitura foi tomando as decisões para flexibilização do confinamento, com as fases de reabertura da economia, hoje estamos na casa de 70% da redução da demanda, o que ainda é muito baixo. Só vamos ter mudança efetiva, quando tivermos a vacina. Não espero nenhuma retomada maior até o fim do ano”.

VLT e o fim da concessão

Em julho do ano passado, alegando prejuízos e falta de cumprimento do contrato pela Prefeitura, o VLT Rio chegou a pedir na Justiça a sua saída da concessão. Na live, Hannas explicou que posteriormente à iniciativa judicial, houve um acordo entre a empresa e o Município, com a volta dos pagamentos. “Na época, nós demos entrada num pedido de rescisão, mas é um processo muito longo, não termina em menos de 10, 15 anos. Independente disso, fechamos um acordo que permitiu a inauguração da Linha 3, e a Prefeitura voltou a pagar as prestações mensais, que ela deve pela construção do sistema. A Prefeitura pagou as duas primeiras e com a pandemia parou de pagar. Mas tivemos um novo pagamento na semana passada. Essa conversa com a Prefeitura continua, para a gente receber as outras parcelas, pelo menos até o final do ano, que vai ser mais uma ajuda pra passarmos por esse período”.

O efeito do VLT na rua Sete de Setembro

Para o presidente do VLT, houve uma coincidência de fatos entre a crise vivida pelos comerciantes do Centro e a instalação das linhas do novo sistema de transporte. O país já vivia uma recessão econômica, com reflexos severos no Rio de Janeiro que, particularmente, teve um decréscimo dos investimentos após as Olimpíadas.

Hannas disse que o projeto do VLT foi todo realizado e que desconhece promessas de complementos como, por exemplo, um tratamento paisagístico na Rua Sete de Setembro, com arborização e redução do calor. “Com relação ao projeto estar incompleto, eu desconheço. Posso garantir que o que estava previsto no contrato, de fato, foi feito. O VLT, normalmente, traz desenvolvimento para as cidades e bairros onde é implantado. Temos estatísticas de Barcelona, na Espanha, e Le Mans, na França, onde os imóveis no entorno das linhas tiveram valorização. Normalmente, o VLT qualifica o lugar. No Rio, você vê os exemplos da Praça Mauá, do Boulevard Olímpico”.