Vítimas da hipocrisia social | Diário do Porto


Editorial

Vítimas da hipocrisia social

A sociedade finge que só vê a droga ilícita na favela, fechando olhos e ouvidos para a cadeia de uma economia que começa antes e termina muito além do morro

8 de maio de 2021



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Editorial

Vivemos em uma sociedade na qual muitas pessoas consomem drogas todos os dias. Elas são usadas para curar, para relaxar ou para ter prazer. Algumas são lícitas, como bebidas alcoólicas, cigarros e medicamentos muitas vezes usados de forma indevida. Pagam impostos, são fiscalizadas, estão no comércio formal. Outras, não.

A sociedade deixa as drogas ilícitas para serem exploradas pelo crime organizado. São muitas as quadrilhas que sobrevivem justamente dessa atitude hipócrita.

Há consumo de entorpecentes em todas as classes sociais, mas, para aplacar as consciências, a sociedade e o Estado fingem que isso é apenas um hábito localizado. Apontamos o dedo para a favela, mas fechamos olhos e ouvidos para a cadeia da economia da droga que existe antes e depois do morro. 

Quem mais se beneficia com essa hipocrisia social são os traficantes de drogas e, ainda mais, os de armas, estes  invisíveis. Quem mais se prejudica são os pobres nas favelas e os policiais, todos os dias enviados para matar e morrer em uma guerra que não tem fim nem vencedores.

Os policiais e os demais mortos nesses confrontos são nossas vítimas. Somos coletivamente culpados por manter essa farsa.


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