Uma Maratona Maravilhosa | Diário do Porto


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Uma Maratona Maravilhosa

Na véspera da Maratona do Rio, a corredora Michele Chaluppe nos conta como é a experiência de correr 42 kms no cenário urbano mais bonito do mundo

14 de novembro de 2021

Michele Chaluppe em ação na Maratona do Rio 2018 (divulgação/Maratona do Rio)

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*Michele Chaluppe

Eu já conhecia o Rio de Janeiro. Já tinha morado na cidade, corrido pela orla, andado de carro ou de ônibus ou de bicicleta por quase todos os cenários. Mas correr uma Maratona no Rio de Janeiro fez com que eu me sentisse me apropriando de cada pedacinho da Cidade Maravilhosa. A mais bela cidade e a mais bela Maratona. O percurso tem mudado um pouquinho a cada ano, mas os 42,195 quilômetros no Rio de Janeiro continuam sendo inesquecíveis.

Eu nunca tinha corrido uma maratona antes, mas já tinha o hábito de correr na minha rotina há mais de dez anos, conhecia muitos corredores de maratona, sabia que era sério, intenso, emotivo e difícil. Se a informalidade é o tom do carioca, na Maratona do Rio isso se intensifica. Alguns amigos estão na prova, outros correm trechos com você, mas os desconhecidos dão um show: gritos de incentivo, puxadas de ritmo, palavras de apoio, água compartilhada, doação de uma parte da Coca-Cola, um gel que faltou, uma pomada anti-inflamatória, um doce de leite, conversas banais, histórias curtas ou longas, desconhecidos de todo canto. Se a alegria é a busca de quem chega no Rio, a Maratona entrega isso também: corredores vestidos de árvore, de índio, de Super-Herói, com perucas coloridas, capas, faixas com nomes de cidade, com agradecimentos, gente que paga promessa, grupos com camisas de cores coordenadas, meias divertidas, pai e filho, irmãs, amigos.

Mas vale a pena abrir outro parágrafo pra dizer o que, de verdade, a Maratona do Rio de Janeiro produz de ainda mais especial: se você escolhe correr 42 kms na Cidade Maravilhosa, então prepare seus olhos, porque você vai ver o que há de mais bonito. O percurso que eu fiz saía do Recreio, lá no fundo da Zona Oeste, e chegava no Aterro do Flamengo. Era mar do lado direito no caminho inteiro. No roteiro atualizado, os corredores seguem pro Centro e também se encantam o tempo todo. São belezas diferentes. Mas igualmente intensas. Quando minhas pernas doíam, o cenário me abraçava. Quando meu fôlego faltava, o horizonte infinito invadia meu corpo pelas narinas. Quando minha confiança me abandonava, eu era acolhida pelas paisagens mais lindas, pelas cores detalhadamente escolhidas, pelo astral que ninguém nunca conseguiu explicar.

Sem dúvida, a linha de chegada é a porta do paraíso. E é nela que a gente pensa quando nada mais é capaz de te empurrar pra frente. Maratona dói. Muito. Cansa demais. Te exauri. Faz a gente se questionar e se arrepender milhões de vezes. Mas depois da linha de chegada, o que fica – além do orgulho da realização – é o percurso. E eu tenho o privilégio de ter o Rio de Janeiro de cenário da minha primeira maratona. De ter a cidade mais linda do mundo registrada pra sempre no meu feito pessoal mais desafiador, com um selo de beleza infinita. É que depois que a gente supera as dificuldades, a dor vai embora, o corpo se reenergiza e a alma volta pro lugar, a memória dá um reset pra condensar a experiência completa. Foi assim que cada passo meu se juntou a cada palmo do Rio de Janeiro e a Maratona Maravilhosa virou um registro único e eterno no meu coração.

  *Michele Chaluppe correu a Maratona do Rio em 2018. Seu tempo na prova foi de 4h50min26seg


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