Uma hermana no Booker Prize | Diário do Porto


Literatura

Uma hermana no Booker Prize

Em sua coluna, Olga de Mello fala sobre a escritora argentina Claudia Piñeiro, que concorre ao Booker Prizer International e é pouco editada no Brasil

29 de abril de 2022

Claudia Piñeiro, escritora argentina que concorre ao Booker Prize International (foto: Divulgação)

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Olga de Mello

Olga de Mello

Com Paulo Scott e seu contundente Marrom e Amarelo (Alfaguara, R$ 26,10) fora do Booker Prize Internacional, o jeito é torcer pela argentina Claudia Piñeiro, que, apesar do sucesso para além das fronteiras dos pampas, continua com discreta publicação no Brasil. Fora alguns textos em antologias de escritores latino-americanos, seu último romance lançado por aqui foi Tua (Verus, R$ 20,90), em 2015, embora seu nome circule por no noticiário literário mundo afora, não apenas pelas adaptações cinematográficas dos romances As viúvas das quintas-feiras (Alfaguara, R$ 43,01) e Betibu (Verus, R$ 19,90).

Levado ao cinema em 2009 pelo diretor Marcelo Piñeyro, Viúvas tem um enredo que pode ser transposto para qualquer megalópole ocidental. O cenário – um condomínio de luxo, cercado por todo aparato de segurança possível – é repetido em Betibu, lançado em 2011 e transformado em filme três anos depois por Miguel Cohan. As cancelas que controlam a entrada de visitantes e moradores para o território cercado por portões blindados não impedem que crimes misteriosos aconteçam nos ambientes assépticos e à prova de invasores. Já os assassinatos de Tua, de 2005, transcendem o temor da classe média alta em relação à violência urbana.

Chamada de grande dama das novelas negras em seu país, Claudia Piñeiro tem colecionado premiações para o gênero. No ano passado, com Catedrales conquistou o prestigiado prêmio Dashiell Hammett, na 34ª Semana Negra de Gijón, na Espanha. Sem se deixar levar pela fórmula clássica dos thrillers, suas histórias não se limitam à busca de culpados por crime, tendo causas sócio-histórico-econômicas como motivadoras dos delitos. Displicência e apatia das investigações policiais, prováveis resquícios de práticas dos duríssimos anos de ditadura militar na Argentina, também são elementos de sua literatura.

A tradução para o inglês de Elena Sabe, publicado em 2006, garantiu sua presença entre os finalistas do Booker Prize Internacional. Elena, uma idosa com Parkinson, não aceita o laudo de que a filha, Rita, tenha se suicidado. Apesar das dificuldades de locomoção, ela sai em busca de respostas para o que acredita ser o assassinato de Rita, auxiliada por um investigador também inconformado com o fim do processo. Entre os ganhadores dos últimos anos, não há nenhuma trama de mistério, porém o desenrolar das criações de Piñeiro não se enquadram nos clássicos do segmento – e aí está sua distinção. Ter obtido elogios rasgados pelo roteiro – em nova dobradinha com Marcelo Piñeyro – de Vosso Reino, seriado televisivo sobre a ascensão de um pastor na política argentina não foi suficiente para animar as editoras brasileiras a trazer outros títulos de Cláudia para cá. Por enquanto, o jeito é ler no original em Kindle (versões impressas são proibitivas para quem prefere ler no papel). Se sair o Booker Prize para ela… aí, quem sabe?


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