Turismo

Theatro Municipal adia espetáculos sem previsão de retorno

O balé ‘Coppélia’, programado para setembro, foi adiado, assim como todo o restante da temporada de 2018, por conta de uma determinação do Tribunal de Contas da União (TCU). As informações foram dadas durante audiência pública na Alerj nesta quarta-feira (29)

30 de agosto de 2018
Fachada do Theatro Municipal (Foto: Alexandre Macieira)

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theatro municipal
Theatro recebeu R$ 4,66 milhões este ano, mas enfrenta problemas com a gestão (Foto: Alexandre Macieira/ Riotur)

Perto de completar 110 anos, em 2019, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que sofreu uma grave crise em 2016, volta a ter seu funcionamento comprometido. O balé ‘Coppélia’, programado para setembro, assim como todo o restante da temporada de 2018, foi adiado sem previsão de retorno.

De acordo com o presidente da Fundação Theatro Municipal, Fernando Bicudo,  o principal motivo para o adiamento é uma determinação do Tribunal de Contas da União (TCU), que teve impacto na forma como era feita a contratação de artistas há 30 anos na instituição.

“Os espetáculos não foram cancelados e estamos estudando uma previsão de retorno, que ainda não temos, com a assessoria jurídica do teatro”, disse ele à Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), durante audiência pública sobre o tema nesta quarta-feira (29).

Na audiência pública anterior, Bicudo afirmou que o Municipal precisaria de patrocínio para terminar a temporada deste ano. Nesta quarta, ele informou à comissão da Alerj que os recursos para a apresentação de ‘Coppélia’ já estão garantidos: R$ 600 mil repassados pela Secretaria de Estado de Cultura.

Segundo ele, uma possível captação de patrocínio só beneficiaria a programação de 2019. “A época de captar recursos é a partir de novembro ou dezembro, não no meio do ano”, explicou.

Em julho, o Theatro Municipal havia conseguido superar uma série de problemas e planejava uma ampla programação para o segundo semestre, como divulgamos aqui. 

R$ 4,66 milhões em 2018

Ao todo, o Theatro Municipal recebeu R$ 4,66 milhões em 2018, segundo a subsecretária de Política Fiscal da Secretaria de Estado de Fazenda, Josélia Castro. Desse valor, de acordo com Fernando Bicudo, R$ 700 mil mensais são destinados à manutenção do espaço, como segurança, luz e outros gastos com o prédio.

O repasse, no entanto, não tem sido suficiente para manter o equipamento. Bicudo explicou que, dentre outros itens emergenciais, o sistema cênico e os vitrais do teatro precisam ser restaurados, assim como precisa ser trocada a cortina do palco, que rasgou. O valor desses reparos estaria em torno de R$ 15 milhões.

Em resposta, o deputado Luiz Paulo (PSDB), que integra a Comissão de Cultura e preside a de Orçamento, solicitou que seja encaminhado à Casa um relatório detalhado com os custos dos reparos. A ideia seria inserir os gastos na Lei Orçamentária Anual de 2019.  “O orçamento do Estado chega aqui até 30 de setembro e a gente teria que analisar esse acréscimo, buscando dar as compensações. Não adianta só somar, tem que ver da onde vai tirar”, explicou.

“Nós vamos trabalhar no reforço do valor destinado à Cultura e, dentro da pasta, vamos dar destaque ao Theatro Municipal, dada a relevância deste espaço”, reiterou o deputado Eliomar Coelho (PSol), membro da comissão que presidiu o encontro.

Funcionários e problemas de gestão

Os corpos técnico e artístico do Theatro Municipal, no entanto, enxergam o problema da continuidade da temporada como uma falta de planejamento na gestão. No início do ano, a realização da ópera “Um Baile de Máscaras” custou R$ 1,3 milhão e contou com grandes recursos tecnológicos e integrantes de elenco internacionais.

Nos seis primeiros meses do ano, o corpo artístico do Theatro Municipal trabalhou o equivalente a 60 dias, de acordo com o presidente da Associação dos Músicos da Orquestra Sinfônica da instituição, Ayram Nicodemo. O violinista de 26 anos contou que bailarinos e músicos têm recebido salário pontualmente, mas problemas no planejamento da temporada de 2018 vêm limitando a entrada dos artistas no palco.

“A gente está todo dia pedindo para ir trabalhar e ensaiar, mas as chefias não sabem o que fazer conosco”, desabafou. “A questão atual vai além da conjuntura apresentada pelo tribunal. Em 2016, no auge da crise e com salários atrasados, realizamos muito mais do que já fizemos este ano inteiro, quando estamos com o salário em dia”, disse Nicodemo.

Para o bailarino Edfranck Alves, o que aconteceu é que grandes produções significam gastos maiores. “Na primeira vez que o balé “Coppélia” foi cancelado, foi por esse problema na gestão financeira do teatro. Se não tivéssemos tomado a iniciativa de apresentar o espetáculo “Joias do Balé”, que era o nosso plano Z, ainda estaríamos sem nos apresentar”, contou.

Segundo o presidente da associação dos músicos, além dos gastos com o espetáculo ‘Um Baile de Máscaras’ (incluindo R$ 259 mil com a remuneração de dois artistas que não pertencem aos quadros do Municipal), a gestão do teatro utilizou a própria orquestra para um evento de terceiros, em que os ingressos custaram a partir de R$ 500, sem remunerar os profissionais. “Não teve água para a equipe tomar durante o intervalo do concerto”, denunciou Nicodemo.

Corpo artístico está há quatro anos sem reajuste

A desvalorização do corpo artístico também foi reconhecida por Fernando Bicudo quando este lembrou que há quatro anos não há reajuste salarial da categoria, que o último plano de cargos e salários é de 2011 e que os artistas e técnicos do Municipal, “apesar de serem os melhores do país, são os mais mal pagos”. Segundo o diretor, o vale-refeição dado aos funcionários é de R$ 7 por dia. “Queremos que seja de R$ 21, que é [o valor de] um pf (prato feito) para se poder sobreviver”, disse.

Dentre as sugestões feitas pelas associações de artistas e técnicos do teatro estão a volta do conselho consultivo de programação, composto por funcionários, e a possibilidade dos servidores sugerirem a presidência da instituição. “Se não for um artista, que seja alguém de escolha dos corpos artísticos, alguém que seja da nossa confiança”, pontuou o violinista Ayram Nicodemo. Em resposta, Leo Feijó, subsecretário de Estado de Cultura, disse que encaminhará as demandas ao secretário Leandro Sampaio Monteiro.

Fonte: Alerj, com Redação

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