Sete dias sem Beth Carvalho: a perda das gerações | Diário do Porto


Música

Sete dias sem Beth Carvalho: a perda das gerações

Texto singelo da carioca Camila Pizzolotto ilustra o poder de Beth Carvalho de atravessar gerações. Com ele, o DIÁRIO presta seu tributo à madrinha do samba

7 de maio de 2019

Beth Carvalho, uma mensagem que atravessa gerações (Fernando Frazão/Agência Brasil)

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Há sete dias o Brasil perdeu uma das artistas que mais gerações atravessaram, não pela idade, mas pela atração que suas canções e suas mensagens sempre exerceram em pessoas de todas as idades. Para homenagear Beth Carvalho, o DIÁRIO DO PORTO publica o texto que a jovem carioca Camila Pizzolotto, 29 anos, doutoranda em História, postou no Facebook. O depoimento de Camila ilustra este poder que Beth Carvalho sempre possuirá: o de nos fazer entender, como diz a jovem, “qual o papel do samba na nossa vida”. 

 

‘Meu samba é ruim de aturar’

camila pizzolotto
camila pizzolotto

“Quando era pequena, só escutava samba e pagode de relance. Em casa, festas de família, vizinhos. Nunca tive um apreço especial. Na adolescência, a única opção era ser roqueira, ainda que gostasse de uns Zezé di Camargo que minha mãe colocava pra tocar, de uns Nelson Cavaquinho que meu pai ouvia, mas dava aquela escondida, fingia que Blink 182 me representava mais e melhor do que a música brasileira.

No final dessa fase difícil, ouvia samba e gostava, mas ainda persistia no Bob Dylan, que tem seu valor, e nos Beatles. O samba continuava como uma música de fundo que me remetia à minha família, aos meus primos, à casa da minha avó.

Foi quando eu parei pra ouvir, escutar de verdade, essa letra do Arlindo Cruz cantada pela Beth Carvalho. Eu ouvi mesmo, com muita atenção.

E foi aí que eu me emocionei pela primeira vez com pagode. Quando parei de ironizar quem ouvia, ainda que eu também gostasse de ouvir.

“Vem ver o meu povo cantar, vem ver o meu samba é assim…”

Senti que essa letra falava das pessoas que passavam por mim, falava um pouco da minha família, dos lugares que passei, das pessoas que me rodeavam. Ela então se tornou a minha preferida.

Quando passei a ouvir samba com regularidade e ir às rodas, lembro da sensação que essa música me trouxe.

Entendi porque me emocionei com ela. Ela me recolocou no mundo, me sacudiu, me fez enxergar as coisas com mais nitidez, me fez entender qual o papel do samba na minha vida.

“Na hora do vamo vê

Meu samba é ruim de aturar

Tem o dom de resolver

Deixar tudo no lugar…”

Pra mim, o samba deixa tudo no lugar. A essa primeira paixão, agradeço a Beth Carvalho por ter dado voz e tesão. Obrigada.”

Camila Pizzolotto


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