Será que vale a pena? | Diário do Porto


Para ler na rede

Será que vale a pena?

Na coluna desta semana, Olga de Melo fala da paixão dos bibliófilos (do latim, amor aos livros), sobretudo por edições raras ou valiosas

24 de julho de 2022

Três homens vasculhando a biblioteca Holland House, em Londres, bombardeada em setembro de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial (foto: reprodução/internet)

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Uma obra na fachada do prédio fez surgir camadas de poeirinha bem fina nas estantes de livros. Essas partículas microscópicas já se infiltram entre as páginas, e, naturalmente, buscam abrigo em meus olhos, ouvidos e narinas. Eu me sinto vivendo dentro de uma descrição de Paul Bowles no deserto em O céu que nos protege (Alfaguara, R$ 42,70): olhos ressecados, garganta coçando, ouvidos empoeirados, um espirro sempre ameaçando explodir.  

Os livros terão de ser limpos, escovados e rearrumados sei lá quando. A obra vai demorar. Estão raspando tudo quanto é infiltração, passando cimento. Depois, vão emassar, lixar e pintar. Já imagino o quanto dará trabalho tirar tudo do lugar para a escovação e retorno às prateleiras. É claro que vai sobrar volume sem lugar, porque sempre aparece um novo para entrar naquele nicho. A bibliofilia começou na Antiguidade, diz a filóloga espanhola Irene Vallejo, autora do best-seller (lá fora) O infinito em um junco – A invenção dos livros no mundo antigo (Intrínseca, R$ 66,90), que vendeu 400 mil exemplares onde foi publicado. Um catatau de 496 páginas – mas 50 são de referências bibliográficas – que é simplesmente impossível de abandonar, uma vez aberto.

Irene Vallejo se detém nos papiros e na proeza que era montar uma biblioteca de rolos e mais rolos com textos que se tornaram clássicos. Quantas foram queimadas ao longo dos séculos, enquanto a qualidade do material para a gravação de letras e leitura, no Ocidente, passava por alterações até chegar à prensa mecânica lançada pelo alemão Johann Guttenberg em 1455. Claro que os chineses já haviam inventado a imprensa, mas se até hoje não compreendemos os ideogramas, naqueles tempos de analfabetismo majoritário então… Irene Vallejo torna a evolução tecnológica dos livros um relato empolgante de gente que almejava passar para outras gerações o conhecimento dos ancestrais, a cultura que eles próprios sabiam que morreria aos poucos.


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Um desses apaixonados por livros era Alexandre da Macedônia, que deu seu nome à cidade egípcia onde se criou a primeira biblioteca da Antiguidade, com mais de 700 mil volumes em papiros, acredita-se. A mesma metrópole cosmopolita imortalizada por Lawrence Durrell em O quarteto de Alexandria (Ediouro, R$ 116), que fala numa população de cinco culturas diferentes, comunicando-se em cinco idiomas, honrando uma dúzia de religiões, antes que a  cidade entre em total decadência depois da Segunda Guerra Mundial. Milênios antes, ali floresceu um dos maiores casos amorosos da História, entre o romano Marco Antônio e a egípcia Cleópatra, que, segundo Vallejo, poderiam ter mudado o centro de referência da cultura ocidental, caso o romance não se acabasse com o suicídio do casal. Dali, o macedônio Alexandre partiu para conquistar mais territórios, sempre carregando uma cópia da Ilíada, que, diz a lenda, costumava ler todas as noites. Para traçar o perfil do conquistador, Irene Vallejo fala no filme que retrata sua vida, dirigido por Oliver Stone, e que “a música de seu nome continua soando”, pois “Caetano Veloso dedica a ele “Alexandre”, em seu disco Livro”, enquanto os roqueiros do Iron Maiden batizaram de Alexander the great uma de suas canções.

O estilo envolvente de Irene Vallejo se presta, principalmente, à defesa do formato do livro impresso, cujo fim é vaticinado pelos apaixonados por tecnologia, mas que, para Umberto Eco, estaria na mesma categoria que  a colher, o martelo, a roda e a tesoura: uma vez inventados, não se pode fazer nada melhor. O texto traz o percurso dos livros e sua inserção social tratando, no mesmo parágrafo, de um trecho do Senhor dos Anéis e Ptolomeu, citando Foucault, Paul Auster e, claro, Ray Bradbury com os bombeiros que ateiam fogo em bibliotecas em Fahrenheit 451 (Biblioteca Azul, 25,40). Um livro para lá de pop perfeito para os doidos proprietários de  bibliotecas modestas – e que sempre ouvirão “Você já leu isso tudo?” de qualquer visitante novo no círculo de amizades –  a continuarem com essas coleções que ocupam um espaço imenso, são o paraíso de proliferação de traças, ácaros e ainda provocam acessos de asma nos alérgicos. Se vale a pena? Pergunte a seu amigo que vive igual ao Visconde de Sabugosa, enfurnado na biblioteca!


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