Sepetiba volta a ser Sucupira, em O Bem-Amado | Diário do Porto


História

Sepetiba volta a ser Sucupira, em O Bem-Amado

A praia de Sepetiba foi o cenário de O Bem-Amado, primeira novela em cores da Globo, em 1973. Apesar da degradação ambiental, ainda há vestígios de Sucupira

24 de fevereiro de 2021

Em Sepetiba. o ator Paulo Gracindo deu vida ao personagem Odorico Paraguaçu, prefeito de Sucupira (foto: TV Globo / Divulgação)

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Com a reexibição da novela O Bem-Amado, no Globoplay, o público poderá ver como era o bairro de Sepetiba, na Zona Oeste carioca, há 50 anos. Além de rever, é claro, personagens imortais como Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), Zeca Diabo (Lima Duarte) e Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz).

Sepetiba foi o cenário escolhido pela TV Globo, em 1973, para ser a cidade de Sucupira, que na ficção criada pelo autor Dias Gomes estava situada em algum ponto do litoral da Bahia. O enredo chega a ser premonitório e, entre outras tramas, mostra uma crise da vacina, durante uma epidemia, e um líder político, defensor da família e bons costumes, com uma vida pessoal discutível.

O Bem-Amado marcou a história da teledramaturgia brasileira por sua irreverência política em plena ditadura militar, sendo alvo constante dos censores. Além disso, foi o primeiro programa em cores da TV no Brasil e o primeiro a ser exportado.

Isso tudo em um cenário que na época era considerado paradisíaco: a praia de Sepetiba, com suas águas tépidas e cristalinas, a 70 km do centro do Rio, quase a mesma distância que Petrópolis (66 km). Daquela época, restam no bairro alguns vestígios, como o coreto onde o prefeito Odorico fazia seus discursos em linguagem rebuscada que satiriza até hoje o “enrolês” de boa parte dos políticos do país. Moradores mais velhos ainda se lembram de ter participado como figurantes para as cenas da novela. O coreto é tombado desde 1985.

Porém o paraíso foi destruído a partir do final dos anos 70, com a ocupação desordenada da região, sem infraestrutura e rede de esgotos. Nos anos 90, veio a catástrofe final. As obras para a ampliação do Porto de Itaguaí removeram toneladas de lama no fundo da baía de Sepetiba e acabaram assoreando a praia outrora tão bonita.

Sepetiba vivia do turismo de proximidade

Nunca houve uma reparação efetiva para os moradores do bairro e da região. Há 10 anos, tentou-se uma obra paliativa que recuperou uma faixa de areia da praia, para que ficasse própria ao lazer, porém sem a despoluição e a remoção da lama tóxica, os efeitos benéficos não duraram.

Antes de ser degradada ambientalmente, Sepetiba era um bairro que vivia principalmente da pesca artesanal e do turismo dentro do próprio Rio, atraindo, no verão, famílias de outras regiões da cidade, que lá iam passar as férias em casas alugadas.

Com a volta da novela O Bem-Amado, Sepetiba poderia até sonhar em reviver essa vocação turística, recepcionando os fãs que adorariam ver o que resta da Sucupira em que Zeca Diabo enfrentou Odorico e o matou, dando enfim um defunto para inaugurar o cemitério, principal promessa do prefeito corrupto.

Se isso ocorresse, alguém poderia repetir Odorico em uma de suas frases célebres e recepcionar os visitantes dessa forma: “É com a alma lavada e enxaguada que lhe recebo nesta humilde cidade”.

A novela fez tanto sucesso que chegou a ter versões posteriores, filmadas em Macaé e no litoral sul de Alagoas. Mas essa essa é outra história. Como diria Odorico: “vamos deixar de lado os entretantos e partir para os finalmente”.


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