Rio tenta trazer Fórmula 1, mas pode perder o Carnaval | Diário do Porto


Editorial

Rio tenta trazer Fórmula 1, mas pode perder o Carnaval

Prefeito Crivella aproveita crise da Liesa, após virada de mesa em prol da Imperatriz, para atacar a TV Globo e reafirmar que não vai patrocinar o Carnaval

7 de junho de 2019

Em 2020, cerca de 2.1 milhões de turistas vieram para a folia no Rio de Janeiro, deixando R$ 4 bilhões na cidade (Alexandre Macieira/Riotur)

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Depois da Bolsa de Valores, de grandes empresas e eventos e de quase todos os voos diretos para a Europa e os Estados Unidos, o Rio de Janeiro corre o risco de perder para São Paulo o coração do maior evento turístico internacional do país: o Carnaval. O inferno astral que paira sobre o “maior espetáculo da Terra” está deixando a Cidade do Samba, na Gamboa, à beira de um ataque de nervos, com medo do desemprego e do imponderável no desfile de 2020.

A prefeitura carioca já cortou, este ano, metade da subvenção ao desfile do Grupo Especial, abrindo uma crise na Liga Independente das Escolas de Samba, a Liesa. No Carnaval de Rua, houve confronto aberto entre a Riotur, empresa municipal, e as associações de blocos de rua, como a Sebastiana, que perderam patrocínio e reduziram os desfiles em função de exigências de última hora que não puderam ser cumpridas.

O tiro no pé dos mandachuvas do samba

O prefeito recebe críticas no mundo do samba, mas tem aprovação de setores para os quais a festa deve beber em fontes privadas. É o que Crivella chama de “desmame de um bebê parrudo”. O debate enfraqueceu a Liesa. Para piorar, os mandachuvas do samba acabam de dar um tiro no pé.

A autoflagelação ocorreu segunda-feira 3. Em uma reunião para analisar as contas de 2019, a maioria dos dirigentes da Liesa decidiu virar a mesa para impedir o rebaixamento da Imperatriz Leopoldinense, penúltima colocada este ano. A repercussão foi a pior: o presidente da Liga, Jorge Castanheira, pediu para sair, a Beija-Flor cancelou a festa de lançamento do enredo para 2020 e o prefeito não perdeu a chance: partiu para cima.

Em video oficial nas redes sociais, a Prefeitura atacou a Liesa e a TV Globo, reforçando a ameaça de não financiar mais o evento. “Para quem ainda não sabe, o desfile das escolas de samba custa para a Prefeitura R$ 70 milhões. O enredo é fácil de entender, a conta é que é difícil de engolir”, diz o apresentador, caminhando por um Sambódromo vazio.

Carnaval de SP movimentou R$ 1,9 bilhão

“Quem vende os espaços ganhando milhões é a Liesa. Quem vende o patrocínio, comercializando várias cotas milionárias, é a Rede Globo. E, nessa história de milhões para lá e nunca para cá, quem paga a conta do Carnaval é a Prefeitura”, segue o filmete. A Prefeitura, continua o apresentador, “tem 100 mil aposentados, 100 mil funcionários para pagar e 650 mil crianças na escola para cuidar, sendo a metade carente, que recebe bolsa-família”.

Enquanto o samba sofre em seu reduto histórico, São Paulo entra firme no apoio e na organização do carnaval. A prefeitura paulistana cadastrou 556 desfiles este ano, enquanto no Rio foram 498. Segundo a SPTuris, os foliões movimentaram R$ 314 milhões em 2017 e R$ 550 milhões em 2018. Em 2019, o carnaval paulistano como um todo movimentou R$ 1,9 bilhão, encostando no carioca (R$ 2,1 bilhões). Os números são da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A rede hoteleira e as agências de viagem acompanham com tensão máxima os próximos capítulos da crise. É possível que a saída venha de uma ação inédita da iniciativa privada, assumindo as rédeas do espetáculo, ou mesmo do governo estadual. O governador Wilson Witzel já manifestou interesse em reassumir o sambódromo, inaugurado pelo governador Leonel Brizola em 1984. Quando Witzel lançou a ideia, Crivella recuou de seu desapego pela festa, dizendo que só cede o Sambódromo se Witzel também levar três hospitais.

Witzel, Crivella e o presidente Jair Bolsonaro ensaiam transferir o GP de Fórmula 1 de Interlagos para Deodoro. A prefeitura e o governo de São Paulo reagiram em conjunto e com firmeza. É bem possível que, em vez de perder a Fórmula 1 para o Rio, São Paulo tire dos cariocas, mais rapidamente do que se esperava, o título de capital nacional do Carnaval.


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