Diário do Porto

Revitalização do Moinho ainda pode levar mais uma década

Moinho Fluminense vista da Praça da Harmonia foto Daniela Dacorso Divulgação

O projeto de revitalização do Moinho Fluminense, com sede histórica na Praça da Harmonia, prevê a construção de duas torres residenciais com mais de 200 metros de altura (foto: Praça da Harmonia / Daniela Dacorso)

Seis anos depois de fazer o primeiro anúncio sobre a revitalização do histórico Moinho Fluminense, na Região Portuária do Rio, a gestora americana Autonomy Capital admite agora que a transformação do complexo pode levar mais uma década para ser concluída. O prazo expõe o ritmo lento de um projeto vendido desde 2020 como marco da regeneração urbana carioca e que, ao longo dos anos, acumulou mudanças de discurso, atrasos e até ameaça de desapropriação pela Prefeitura do Rio.

A nova versão do empreendimento, divulgada no ano passado e batizado de Mata Maravilha, passou a ser desenvolvida pela Autonomy em parceria com o empresário francês Alexandre Allard, responsável também pelo Cidade Matarazzo e pelo hotel Rosewood São Paulo, em São Paulo. Na semana passada, O Globo noticiou uma nova previsão de cronograma do projeto. Segundo o jornal, a implantação completa deve consumir pelo menos dez anos. O projeto promete transformar o antigo moinho — inaugurado em 1887 com alvará assinado pela Princesa Isabel — em um megacomplexo residencial, corporativo, hoteleiro e turístico, cercado por uma “floresta urbana” de 40 mil árvores às margens da Baía de Guanabara. Tudo ao lado de dois edifícios residenciais de 70 andares, ou cerca de 200 metros de altura.

A Autonomy comprou o Moinho Fluminense em 2019. Em agosto de 2020, a empresa anunciou que preparava um projeto multiuso para o imóvel histórico, prometendo revitalizar o espaço e transformá-lo em um polo de negócios, cultura e serviços no Porto Maravilha. Na época, a companhia dizia estar realizando limpeza, manutenção e adequações nas estruturas tombadas, mas não apresentou cronograma detalhado.

Dois anos depois, em agosto de 2022, surgiu uma nova promessa: a primeira fase da revitalização estaria pronta até 2025. O discurso incluía escritórios, bares, restaurantes, áreas de exposição e um espaço para eventos distribuídos em sete andares do complexo histórico.

No ano passado, o projeto reapareceu com uma escala muito maior. As duas torres residenciais seriam revestidas por vegetação nativa da Mata Atlântica. Agora, a proposta se tornou prioridade da Prefeitura, que iniciou negociações com vereadores para aprovar mudanças urbanísticas que permitam as intervenções na região da Gamboa. Em 2024, diante da demora para apresentação de um projeto estruturado, a prefeitura chegou a anunciar a desapropriação do imóvel. A medida acabou revertida posteriormente, permitindo que a Autonomy retomasse os planos em parceria com Allard.

Cidade Matarazzo, que seria modelo para o Moinho, sofre críticas

Enquanto o Mata Maravilha é apresentado como símbolo de inovação verde e regeneração urbana, o principal cartão de visitas do projeto, que é a Cidade Matarazzo em São Paulo, enfrenta críticas de moradores e questionamentos sobre a distância entre o marketing ambiental e a realidade cotidiana do empreendimento.

Na região da Bela Vista, vizinhos do Cidade Matarazzo relatam problemas constantes de poluição sonora provocada por eventos exclusivos, aumento do trânsito de veículos de luxo e uso intensivo das calçadas por serviços ligados ao complexo. Moradores descrevem o projeto como uma espécie de “enclave de luxo” isolado da dinâmica urbana ao redor. Críticos apontam que a narrativa de “regeneração” estaria mais associada à valorização imobiliária e à estética verde do que à integração social prometida pelo empreendimento.


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