A República, Marielle e a vergonha pela escravidão | Diário do Porto


Editorial

A República, Marielle e a vergonha pela escravidão

O aniversário da República deve resgatar valores da Constituição e a vergonha pela escravidão. Projeto dá nome de Marielle Franco a estação do metrô

14 de novembro de 2019

Marielle: "Falar sobre raça é falar sobre a desigualdade que estrutura a nossa sociedade até hoje"

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Editorial

O feriado desta sexta-feira, 15 de novembro, exalta o dia em que o Brasil deixou de ser um império de 67 anos para tornar-se uma das maiores repúblicas do mundo. O regime anterior produziu estadistas, como Pedro I, que proclamou a independência em relação a Portugal em 1822. Pedro II, amante das artes, transformou o Rio de Janeiro em uma das cidades mais atraentes do planeta. A mácula do Império foi ter esticado a escravidão enquanto o mundo civilizado se distanciava de sua monstruosidade. Coube à Princesa Isabel assinar a Abolição em 1888, um ano e meio antes de o Império sucumbir de vez.

O Cais do Valongo, na Região Portuária do Rio de Janeiro, foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO em 9 de julho de 2017 por ser o maior vestígio material da chegada dos africanos escravizados nas Américas. Só de 1811 a 1831, quando o tráfico transatlântico de escravos foi proibido, nossa Pequena África recebeu entre 500 mil e 1 milhão de negros privados da liberdade. A reurbanização do Porto Maravilha encontrou valiosas peças arqueológicas que ilustram essa tragédia mundial e que hoje estão expostas sem qualquer proteção em um galpão na Gamboa, um desleixo injustificável.

Na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro há um projeto de lei para rebatizar a Estação Estácio do Metrô, vizinha à Região Portuária, como Estação Marielle Franco – Estácio. Feminista e ativista negra, a vereadora socióloga foi assassinada ali perto no infame 14 de março de 2018, assim como o motorista Anderson Gomes. O projeto justifica a homenagem pelo fato de a estação “ser a principal ligação, no modal metroviário, para estações que servem a bairros populares da Cidade do Rio de Janeiro; por estar próxima a favelas vizinhas ao Centro do Rio (como São Carlos), cujas populações eram defendidas pela parlamentar; e por ser próxima à sede da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, alvo de recorrentes demandas, sugestões e críticas, próprias de uma vereadora combativa, como era o caso de Marielle Franco”.

O DIÁRIO DO PORTO apoia a iniciativa como mais uma ação afirmativa contra o terrorismo político e os resquícios de supremacia racial que ainda povoam mentes bestiais. O regime republicano, em seu 130º aniversário, deve redespertar a vergonha pela escravidão e o orgulho pelos fundamentos da República Federativa do Brasil, que a Constituição de 1988 consagrou: soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e pluralismo político.

Todo poder emana do povo.