'Quanto tempo sobra para o Amanhã?' | Diário do Porto


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‘Quanto tempo sobra para o Amanhã?’

Em artigo, pesquisadoras do Lembrar, da ESPM, veem “uma névoa de dúvida sobre o funcionamento e a existência o Museu do Amanhã a partir de 2020”

18 de setembro de 2019

Vista do espelho d´água do Museu do Amanhã, no Porto Maravilha (Foto DiPo)

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Cláudia Mesquita | Isabella Perrotta

Em dezembro, o Museu do Amanhã — hoje um dos principais equipamentos culturais do Rio de Janeiro — completa quatro anos. Nesse período, cerca de 3,5 milhões de pessoas visitaram as exposições, mostras e eventos promovidos pelo museu, que surgiu como um dos marcos do que seria uma nova era de prosperidade para a cidade. Desde sua inauguração, o Museu do Amanhã é administrado pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), organização sem fins lucrativos responsável pela gestão de projetos de interesse público e pela implementação de programas culturais e ambientais.

Logo após o aniversário do museu, em dezembro, a parceria entre o poder público e o IDG chegará ao fim. Somente agora a prefeitura do Rio de Janeiro se manifestou a respeito de uma nova licitação que definirá o próximo gestor e que prevê o aumento no preço do ingresso. Após a publicação no Diário Oficial, as propostas devem ser enviadas em 30 dias. Mas, por ora, temos apenas silêncio e a redução gradativa da participação pública no orçamento da instituição — o que joga uma névoa de dúvida sobre o funcionamento e a existência o Museu do Amanhã a partir de 2020.

A realidade atual do Museu do Amanhã é um exemplo de como esses equipamentos culturais — tão valorizados mundo afora — são tratados no Brasil. Histórias ruins não faltam: da tragédia que foi o incêndio e a destruição quase total do Museu Nacional ao fechamento provisório, por falta de segurança, do Museu da Independência, em São Paulo.

É evidente a relação do Museu do Amanhã com a região portuária

Ao longo da história, museus dão provas de sua capacidade de desenvolvimento econômico e humanos em suas respectivas cidades ou regiões. Por isso, é urgente que, não apenas o poder público, mas toda a sociedade brasileira passem a refletir sobre e a valorizar sua importância.

Exemplos dessa capacidade de impulsionar o progresso — sob todos os aspectos — não faltam. O Museu Guggenheim, para citar um deles, está umbilicalmente ligado ao plano estratégico de revitalização da cidade de Bilbao, na Espanha. Foi, em grande medida, graças a seu impacto ocorreu a mobilização para a recuperação do rio Nervión, que corta a cidade basca. No Rio de Janeiro, é evidente a relação do Museu do Amanhã com a região portuária da cidade, que manteve-se degradada e desvalorizada por décadas. Graças ao museu, a região reencontrou sua “vocação cultural”, com o surgimento de diversas manifestações artísticas e a revalorização do patrimônio local.


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Até julho deste ano cerca de 500 mil pessoas visitaram o Museu do Amanhã. Seus problemas espraiam-se para o vizinho Museu de Arte do Rio (MAR). O museu não vem recebendo os repasses da prefeitura (ainda que aprovados), o que contribuiu para a demissão, em agosto, da secretária de cultura da cidade, Mariana Ribas.

O poder público, definitivamente, não está enxergando o papel transformador desses equipamentos culturais e sua importância para o desenvolvimento local. É urgente que essa postura mude — assim como é urgente que a sociedade preste a devida atenção a esse tema e se manifeste a respeito.

O Museu do Amanhã é um museu de ciências diferente

O debate sobre o futuro do Museu do Amanhã acontece no momento em que o trágico incêndio que consumiu o Museu Nacional completa um ano. Apesar de toda a comoção gerada na época, o Museu Nacional ainda luta para renascer. O custo estimado para a reconstrução é de 300 milhões de reais. Ao todo, a indignação do brasileiro gerou até agora 3,2 milhões de reais em doações. É pouco. Muito pouco para um lugar tão cheio de significado e história. O Museu Nacional, assim como todos os museus, deve ser visto como um corpo orgânico e vivo, que produzia, e ainda produz, conhecimento para além dos objetos ali guardados.

Por fim, vale a pena refletir sobre a descrição que o Museu do Amanhã faz de si próprio. “O Museu do Amanhã é um museu de ciências diferente. Um ambiente de ideias, explorações e perguntas sobre a época de grandes mudanças em que vivemos e os diferentes caminhos que se abrem para o futuro. O Amanhã não é uma data no calendário, não é um lugar aonde vamos chegar. É uma construção da qual participamos todos, como pessoas, cidadãos, membros da espécie humana. ”

Os museus, embora lugares de memória, não operam sobre o passado, mas sobre o futuro de cada um de nós.

* Cláudia Mesquita e Isabella Perrotta são pesquisadoras do LEMBRAR – Laboratório de Estudos de Memória Brasileira e Representação da ESPM Rio