Olga de Mello: 'Qual clássico você não leu?' | Diário do Porto

Para ler na rede

Olga de Mello: ‘Qual clássico você não leu?’

Ninguém deve ter vergonha de clássicos não lidos. É pena, apenas, não ter aproveitado, diz Olga de Mello, assumindo em público que pulou metade de ‘Guerra e Paz’

28 de maio de 2021


Olga de Mello


Compartilhe essa notícia:


Para ler na rede

 

Há tempos, desisti de manter intacto na estante o Em busca do tempo perdido completo, com tradução de Mario Quintana e imagens de quadros impressionistas na capa. Por muito tempo, dizia que leria Proust ao me aposentar, depois de abrir o Swann duas ou três vezes antes de desistir com tanta madeleine dando água na boca. Embora estivesse chegando a época de ler mais do autor do que suas respostas no Questionário Proust*, acabei passando adiante seus volumes por causa de tantos fungos que ocuparam suas páginas, tocadas apenas, há uns 40 anos, por meu pai, um dos poucos de seus leitores que conheci.

Além de Proust, há diversos clássicos que estão em minha lista para os anos invernais, amarelando suas páginas, à espera de serem desvendados. Não li A divina comédia – e desta, conheço pouquíssimo, fora as referências que passaram para a cultura geral, como a inscrição “Abandonai todas as esperanças, vós que entrais”, na porta do inferno, local onde “os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de
crise”. Não sei se meu conhecimento de Dante terá alguma profundidade um dia.

E tem Virgílio, Petrarca, Homero, todos enfileirados, conservados na poeira do tempo. Não é por qualquer resistência ao estilo de cada um, li um bocado de teatro grego, Aristófanes, Sófocles, e até romano (Plauto e Terêncio). Teatro tem a vantagem dos textos curtos e com suficiente ação – no caso dos clássicos, claro. Pré-adolescente, devorei todo o Shakespeare, porque aqueles personagens tinham alma, não apenas falavam bonito. Em compensação, Fausto está lá, quietinho, virgem de uso. Ter lido Os sofrimentos do jovem Werther deve limpar minha barra com Goethe. É como Dostoievski, de quem só li Crime e Castigo. Até agora.

Existem ainda os clássicos dos quais desisti mesmo, como Victor Hugo. Tentei muito ler Victor Hugo. Não houve empatia, nem com Os miseráveis, nem com Notre Dame de Paris, nem com Os trabalhadores do mar. E olha que sou resistente. Li com muito prazer todo o José de Alencar tão condenado pelos jovens não-leitores de hoje. Se Machado de Assis conta pontos, acho que me falta ler seus artigos em jornal. Dos romances, faltam alguns, sim, mas poucos. Dos contos, nenhum.

 


LEIA TAMBÉM:

MAR: “Imagens que não se conformam”, a construção do Brasil

Em debate, moradores apoiam Parque Sustentável da Gávea

A comunicação de interesse público falha na pandemia


Torcer o nariz só de imaginar o esforço para ler um clássico deve acontecer mundo afora, o que não me atingiu por sofrer de compulsão. Li Kafka menina, Melville também – e só fui absorver em releitura (Kurt Vonnegut Jr. bem dizia para ninguém ver Moby Dick como se fosse um manual de caça à baleia). Acredito piamente que a maioria dos leitores já esqueceu ou nunca tocou em Dom Quixote – eu li, mas a versão de Monteiro Lobato (outro renegado), para crianças.

 

 

Italo Calvino, no célebre Por que ler os clássicos propõe como primeira definição do gênero “aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo”, e nunca “Estou lendo”. Não é vergonha alguma não conhecer Lima Barreto, Charles Dickens ou Racine. É pena, apenas, não ter aproveitado. Não encho o peito, mas confesso: pulei metade de Guerra e Paz, porém amo A morte de Ivan Ilícht, li muito Graciliano e pouco Jorge Amado, parei na poesia de Fernando Pessoa, Vinicius e Bandeira, não leio nem um quinto dos novos poetas do mundo todo.

Ninguém deve ter a menor vergonha dos clássicos não lidos. Por mais que eu concorde com a definição de David Bowie sobre felicidade (“Ler”), em resposta ao Questionário Proust, existe vida fora da rede – e um mundo de novas histórias chegando aos nossos olhos por segundo.

E você, qual clássico não leu?

 

  • O Questionário Proust ficou célebre em 1924, quando se encontrou o confession book de sua amiga
    Antoinette, com as respostas do futuro escritor sobre suas preferências culturais, sentimentos e
    percepções. Os confession books, em moda na Inglaterra vitoriana, são os ascendentes diretos dos
    conhecidíssimos “cadernos de perguntinhas”, populares entre adolescentes brasileiras dos anos
    1970/80. Hoje, com a autoexposição pública na Internet, quem precisa confessar seus gostos? O
    caderno de Antoinette foi leiloado em 2003 por cerca de 100 mil euros.