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Arte

Providência ganha seu maior mural, por Miguel AFA

Com 4 x 22 metros, grafite de Miguel AFA não teve spray em respeito ao meio ambiente. Arte mostra mães pretas com seus filhos: inspiração na própria favela

4 de dezembro de 2019

Miguel AFA, o autor do maior mural de grafite da primeira favela

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Cosme Felippsen

Especial para o DIÁRIO DO PORTO

Cores, tintas no chão, mãos pincelando um colorido na parede e olhos fitos na obra que vai nascendo. Assim surge mais um grafite nas ruas e becos da primeira favela do país, o Morro da Providência. Não é uma obra simples. As mãos do artista Miguel AFA produzem o maior mural de grafite do Morro. Para chegar lá, Miguel contou com o auxílio do ex-aluno Felipe Som na pintura da parede da Ladeira do Faria Fica perto da estação do teleférico da Providência, que segue parado enquanto a arte avança.

A pintura, finalizada, ficou de presente para a favela, que este mês completou 122 anos no mês da Consciência Negra. E tornou-se a mais nova prova viva – e bela – de que a favela é muito mais do que o resumo injusto que sai das páginas negativas dos jornais.

Vista geral do mural de Miguel AFA na Providência
O mural de Miguel AFA na Providência (fotos de Cosme Felippsen)

Miguel AFA é cria de outra área popular do Rio, o Complexo do Alemão. Começou a pintar aos 13 anos. Aos 32, o artista visual trabalha como tatuador. Na Faculdade de Belas Artes na UFRJ, ele deparou-se com uma realidade incômoda: o desprezo pelo grafite por parte dos intelectuais e estudiosos da arte tradicional.

Deslocado no Fundão, ‘diferentão’ no morro

“Me sentia deslocado na faculdade”, afirma Miguel. Ele deixou a universidade e insistiu nas ruas. Na Ilha do Fundão, ele vivia o conflito entre a arte da rua e academia. Quando voltava para a favela, era visto como “o diferentão” pelos amigos. Com roupas pouco usuais e cabelo grande, era chamado de playboy ou de maluco, ao gosto do freguês. AFA argumenta que nada há de insano em não gastar dinheiro com tênis de grife. Como artista e morador do Alemão, importa-se muito menos com marcas do que com o conforto na forma de se vestir.

Quem acompanhou o trabalho na Ladeira do Faria viu que o artista não usava spray na obra. Cobriu o paredão de 4 metros de altura e 22 de comprimento com pincel e rolo de tinta. “Tenho abandonado o uso do spray por conta da saúde e do meio ambiente”, justifica.


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AFA explicou ao DIÁRIO DO PORTO o processo de criação do mural e de escolha das imagens. Um dia, após um tempão sentado diante da parede, viu uma mãe preta passar com o filho no colo. Da simplicidade desta imagem nasceu a inspiração. E então ele começou a encher a parede de vida, com 3 mães pretas e seus filhos.

Ao contrário de outros trabalhos, neste AFA não desenhou previamente no papel o que faria na parede. Foi se deixando conduzir pela sensibilidade, pelo instinto de artista e do momento. Ele diz que tem refletido muito sobre os afetos das relações. “Abordo uma relação de afeto entre esses corpos pretos, periféricos e objetificados”, descreve. As linhas pintadas que perpassam na imagem são mapas da memória dos caminhos, segundo o artista.

No Galeria Providência

O paredão vai compor o Galeria Providência, uma galeria de artes a céu aberto. Uma vez por ano, artistas da cidade se reúnem para grafitar na Providência. Há também rodas de conversas sobre algum tema proposto. O deste ano foi Saúde Mental na Favela. O Galeria Providência ainda tem apresentação de dança, poesia, música e muita cultura pelas ruas do Morro. Há 3 anos o criador do evento, Hugo de Oliveira, mobiliza artistas e moradores para colorir o território. Já está em super agitação para o Galeria Providência de 2020.