Diário do Porto

Projeto na “Ilha dos Gatos” quer cuidar do ambiente e dos gatos abandonados

Gatos abandonados na Ilha Furtada a ilha dos Gatos em Mangaratiba

Presidente da Rede Brasileira de Pesquisa em Toxoplasmose e professora da UFRRJ, Andressa Ferreira da Silva diz que os gatos são vítimas do abandono e que ninguém contrai toxoplasmose ao tocar em um animal (foto: Reprodução da Internet)

Conhecida como “Ilha dos Gatos”, a Ilha Furtada, localizada a cerca de oito quilômetros da costa de Mangaratiba, abriga aproximadamente 700 felinos abandonados e se tornou alvo de uma ampla mobilização científica e institucional. Liderado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o projeto “Uma Só Saúde na Ilha Furtada” quer  investigar os impactos da presença dos animais no ecossistema local e propor soluções que contemplem tanto a preservação ambiental quanto o bem-estar dos próprios gatos.

Além da UFRRJ, participam do projeto a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), o Instituto Boto Cinza e a Prefeitura de Mangaratiba, segundo reportagem do jornal O Globo. A iniciativa ganhou força após uma audiência pública realizada em março deste ano na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), convocada pelo deputado estadual Carlos Minc (PSB)

Embora a presença de centenas de gatos na ilha tenha levantado preocupações sobre a disseminação da toxoplasmose e seus possíveis efeitos sobre a fauna marinha, os pesquisadores fazem questão de ressaltar que os animais não devem ser tratados como culpados pela situação.

Toxoplasmose não se contrai por contato com gatos

Presidente da Rede Brasileira de Pesquisa em Toxoplasmose e professora da UFRRJ, Andressa Ferreira da Silva destaca que os felinos são, na verdade, vítimas de décadas de abandono. “O gato é vítima nesse processo. Foi abandonado na ilha. Ninguém contrai toxoplasmose ao tocar em um gato. Isso não acontece. A transmissão está relacionada principalmente ao contato com fezes contaminadas e ao consumo de alimentos contaminados”, afirmou a pesquisadora ao Globo. A toxoplasmose é uma infecção que, na maioria das pessoas saudáveis, é assintomática ou causa sintomas leves como gripe, mas pode provocar complicações graves, principalmente em gestantes, bebês e pessoas com imunidade baixa. 

Segundo moradores da região, os primeiros animais teriam sido deixados na ilha ainda na década de 1950. Com o passar dos anos, o abandono se tornou recorrente. Relatos apontam que até hoje embarcações fazem o transporte ilegal de animais para o local mediante pagamento.

Além de investigar a circulação do parasita causador da toxoplasmose, o projeto também demonstra preocupação com as condições de vida dos felinos. Sem fontes naturais de água doce e sem oferta de alimento, os gatos dependem do trabalho de voluntários e organizações de proteção animal para sobreviver.

A fundadora da ONG Emergência Animal, Joyce Puchalski, explica que os grupos de proteção mantêm uma rotina de alimentação e resgate de animais doentes ou feridos. “Os bichos são inocentes. A legislação protege o animal comunitário, não podemos deixá-los morrer de fome e sede. O que fazemos é alimentar e, quando encontramos algum machucado, debilitado ou com zoonose, fazemos o resgate e a internação”, declarou.

Pesquisas conduzidas pela UFRRJ identificaram anticorpos contra o parasita da toxoplasmose em cerca de 40% dos gatos analisados na ilha. O resultado, publicado na revista científica internacional EcoHealth, abriu novas linhas de investigação sobre possíveis impactos na fauna marinha e na saúde humana. Os estudos agora buscam compreender se existe relação entre a presença dos gatos na Ilha Furtada e a ocorrência de toxoplasmose em mamíferos marinhos da região. Pesquisadores do Instituto Boto Cinza investigam o tema após estudos apontarem a presença do parasita em golfinhos da Baía de Sepetiba.

Enquanto as respostas científicas são buscadas, os integrantes da força-tarefa defendem que qualquer solução passe necessariamente pelo combate ao abandono e pelo cuidado com os animais já existentes na ilha, conciliando proteção ambiental, saúde pública e bem-estar animal.


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