Desordem na Central do Brasil: promessa no papel | Diário do Porto

Segurança

Desordem na Central do Brasil: promessa no papel

O abandono da Central do Brasil provoca medo dos passageiros e desvaloriza uma área estratégica da cidade mais turística do Brasil

12 de agosto de 2019


Camelôs tomam conta do lado de fora da Central do Brasil. Foto:DiPo)


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“A Central é um lugar de passagem. Ninguém fica aqui muito tempo, acho que é por isso que o governo não dá valor.” A sensação é de Rosângela da Silva, enfermeira de 42 anos que passa por ali pelo menos duas vezes ao dia, de segunda a sexta. Como ela, são 600 mil pessoas que, todos os dias, entre a casa e o trabalho, convivem com a insegurança, a falta de organização e a precariedade de infraestrutura na Central do Brasil, principal estação da SuperVia e onde fica uma das mais movimentadas do MetrôRio.

Em 2018, Estado e Prefeitura anunciaram um projeto de revitalização da área, que deveria ter sido concluído em novembro passado (Confira aqui). A famosa Central do Brasil, que deu nome e cenário a filme de sucesso em Hollywood, deveria se tornar um terminal de alto padrão da Supervia, com direito até a um shopping no prédio em estilo art-dèco. De lá para cá, a SuperVia já mudou de dono, passando para a japonesa Mitsui, mas nada mudou. Como tantas outras promessas de políticos, nenhuma medida para melhorar o ambiente saiu do papel.

Situação só piora

Muito pelo contrário: a cada dia que passa, a Central do Brasil e seus arredores metem mais medo em quem chega ou sai de trem do Centro do Rio. É como se fosse um cartão postal às avessas, um cenário planejado detalhadamente para amedrontar qualquer turista.

A enfermeira Rosângela não está otimista. Ela acredita, como qualquer carioca que passa por ali, que o problema principal é a sensação de insegurança. “Projeto para embelezar não adianta nada, não. Nesse tempinho em que estou aqui, dois já vieram me pedir dinheiro.” Um dos pedintes, minutos antes, ameaçara assaltar outra passageira.

 

Usuários de drogas estão espalhados pela parte externa da Central do Brasil
Sujeira e desordem desagradam passageiros de trens e metrô da Central (Foto DiPo)

Lohrane Vicente, dentista de 22 anos, acha que pode dar certo. Para ela, a Central tem jeito. “É só olhar a quantidade de gente passando por aqui. Um projeto para melhorar isso seria excelente para a cidade.” Apesar da positividade, a jovem reconhece que é muito difícil andar por ali atualmente. Sempre que pode, acha melhor evitar.


 

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O prédio da Central do Brasil, como conhecemos hoje, foi inaugurado em 1943. Desde então, passou por poucas mudanças. É um dos pontos de maior movimento de passageiros do país, destino final de 270 quilômetros de trilhos que cortam as cidades da Região Metropolitana.

O entorno da Central é tomado pelo comércio irregular, por moradores de rua e por jovens em situação de risco social que assaltam ou ameaçam os pedestres. Sérgio Ricardo, 49 anos, é funcionário público e trabalha no prédio da Central, onde, por incrível que pareça, funcionou por muito tempo a sede da Secretaria de Segurança. A pasta foi extinta no governo Witzel, que recriou as secretarias de Polícia Militar e de Polícia Civil, separadas.

Intervenção não reduziu violência na área

Assim como a Lohrane – e como todo carioca -, Sérgio não entende por que o poder público não investe em melhorias na Central. “Essa área é bastante nobre, tem esse prédio bonito do Exército aqui do lado, se melhorasse a infraestrutura da Central, acho que essa parte da cidade ia ganhar muito em questões turísticas”.

O “prédio bonito” ao qual ele se refere é o imponente Palácio Duque de Caxias, que sedia o Comando Militar do Leste. Ali ficou o cérebro da Intervenção Federal no Estado, entre fevereiro e dezembro do ano passado. Entre os saldos da intervenção, houve o aumento de vários crimes na região, como assaltos e roubos em ônibus. Sob as barbas dos generais.

 

Central do Brasil está tomada por moradores de rua em sua parte externa.
Morador de Rua deitado em frente ao prédio da Central do Brasil (Foto DiPo)

Neste cenário, é difícil o passageiro acreditar que existe um projeto sério de reurbanização. O Teleférico da Providência, que liga a Central à parte superior do morro e custou R$ 75 milhões, foi abandonado e está virando sucata sem que a prefeitura encontre uma solução.

Para a estudante Dandara Franco, 21 anos, o projeto poderia dar início a mudanças na região. Enquanto isso não acontece, segundo ela, é preciso ficar atento o tempo todo. Inclusive para caminhar da estação do metrô até a plataforma do trem da Supervia. “Principalmente se você for mulher. Durante o dia já ruim, imagine à noite. Isso é o claro reflexo do descaso público, aumento de violência e falta de medidas sociais”, ensina a jovem.

(Caio Garritano, sob supervisão)