Investimentos

Porto Maravilha é destaque no workshop Transformações Urbanas

Arquitetos e urbanistas brasileiros e holandeses discutiram o Porto Maravilha, projeto de requalificação urbana da Região Portuária do Rio

15 de março de 2020
Arquitetos brasileiros e holandeses discutiram soluções para o desenvolvimento do Porto Maravilha (foto: Cdurp / Bruno Bartholini)

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O Porto Maravilha foi o grande assunto de discussão durante o workshop Transformações Urbanas, que aconteceu simultaneamente nas cidades do Rio, São Paulo, Niterói e Brasília, entre os dias 9 e 13 de março. As palestras buscaram discutir soluções por meio de arquitetura e urbanismo para problemas comuns às grandes cidades.

A iniciativa teve o apoio do Consulado Geral dos Países Baixos no Brasil e foi idealizado pelo arquiteto e urbanista Rafael Saraiva, mestre em Urbanismo pela Technische Universiteit Delft, na Holanda. Segundo o idealizador, um dos objetivos do evento é contribuir para o 27º Congresso Mundial dos Arquitetos, a ser realizado em julho no Rio, que este ano é a Capital Mundial da Arquitetura.

No debate sobre o Porto Maravilha participaram Saraiva; Hercilia Borges, arquiteta brasileira e funcionária da prefeitura de Roterdam, na Holanda; Lodewijk Luken, arquiteto especializado em economia circular; Luiz Santos, da empresa holandesa/suiça Güler Güler; Fernando Portella, especialista em Economia Urbana; Victor Carvalho Pinto, jurista especializado em infraestrutura, desenvolvimento urbano e finanças públicas e consultor legislativo do Senado Federal na área de Desenvolvimento Urbano.

Nas discussões, ficou claro que um dos motivos para a Região Portuária ainda não ter deslanchado totalmente foi a aquisição dos Cepacs (Certificados do Potencial Adicional de Construção) em lote único pela Caixa Econômica Federal. Embora na época da compra tenha sido uma solução financeira rápida, a concentração contribuiu para aumentar a dificuldade de aquisição de terrenos e de construir na área, já que o alto valor dos títulos afasta compradores.

Rafael Saraiva
Rafael Saraiva, idealizador da série de workshops Transformações Urbanas (Foto: DiPo)

Segundo Rafael Saraiva, que atuou entre 2016 e 2018 como consultor do fundo imobiliário do Porto Maravilha, também faltou para a região uma etapa de ativação. Fundamental em muitos lugares da Europa, esta etapa cria a utilização da área do projeto com usos transitórios e temporários do espaço, como eventos culturais, para incentivar na população o desejo de continuar frequentando o ambiente. Uma das ideias desenvolvidas pelo urbanista para a ativação da região era a criação de uma passarela ligando o metrô da Cidade Nova com um acesso ao Porto Maravilha. A conexão com o metrô atrairia mais moradores e empresas, mas o projeto não foi aprovado.

“A área do Porto enfrenta o problema de atrair novos edifícios residenciais e comerciais. Quando fui contratado pela empresa de consultoria no Porto, pensei em realizar um plano de ativação, porque eu trabalhava na Holanda com vários planos grandes, que sempre tinham uma fase de ativação no início. O Porto Maravilha não teve e é uma área gigantesca, cheia de complexidades”, explica Rafael.

Segundo ele, a mobilidade trazida com o VLT não é o bastante para integrar a região, é preciso investimentos na área para torná-la mais atrativa cultural e economicamente. “O VLT é ótimo, é um diferencial da cidade, mas não é o suficiente. O Porto do Rio é isolado do resto da cidade, até geograficamente com os morros. O Porto é uma “ilha”. Por isso o trabalho de conexão é ainda mais necessário. O Governo, a CDURP e a Caixa Econômica, têm que ajudar para as coisas acontecerem e facilitar para que os imóveis vazios sejam ocupados e a área ganhe vida. Com a área ocupada, os edifícios vão vindo aos poucos”, diz Rafael.


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A arquiteta e urbanista Hercilia Borges, que é formada pela Universidade Federal do Ceará e há 20 anos atua na Holanda, como funcionária da prefeitura de Roterdam, traça paralelos entre essa cidade e o Rio, embora à primeira vista não pareçam ter similaridades. Roterdam tem menos de 700 mil moradores, bem diferente da cidade do Rio de Janeiro com seus 6,32 milhões de habitantes.

Hercilia Borges
A arquiteta brasileira Hercilia Borges atualmente trabalha para a prefeitura de Roterdam, Holanda (Foto DiPo)

Na cidade de Roterdam fica o maior Porto da Europa, que utiliza aproximadamente um terço da área da cidade. Lá, toda a área do Porto e do Centro foi revitalizada. “Há 20 anos, o centro de Roterdam era bem degradado, havia tráfico de drogas e muitos edifícios em desuso, quase não havia moradias, a cidade recebia poucos turistas. Foi desenvolvido um plano diretor sempre com base nas diretrizes gerais da cidade, principalmente para gerar uma economia forte”, diz Hercilia.

“O Centro era um lugar em que ninguém queria estar, passar, passear e muito menos morar. Hoje em dia, o Centro de Roterdam está na mídia como um novo polo turístico da Holanda, principalmente o turismo arquitetônico. Se tornou o branding da cidade”, explica a arquiteta.

Sobre o Porto Maravilha, Hercilia diz sentir falta das diretrizes e compreender onde o Porto quer estar em alguns anos. “É como se em um primeiro momento não tivesse sido pensado, não tivesse um foco. Mas parece que a Caixa Econômica está querendo mudar isso e pretende acionar uma consultoria para realizar um masterplan para a região portuária”, declara.

Economia Circular

Lodewijk Luken, arquiteto
O arquiteto holandês Lodewijk Luken tem projetos sustentáveis na ilha de Paquetá (Foto: DiPo)

Pensar em transformações urbanas é também pensar em sustentabilidade. No cenário atual, é imprescindível pensar em reutilizar e ressignificar produtos. A Economia Circular pretende dar valor ao que, muitas vezes, a sociedade acredita ser “lixo”. Na Economia Circular, a ideia de “lixo” não existe, resíduos quase sempre podem ser reutilizados e transformados. O arquiteto holandês Lodewijk Luken, da empresa Superuse, focada em economia circular, comentou sobre alguns dos projetos da empresa que busca a possibilidade de reciclar um material mantendo o seu valor e utilizando o design para isso.

Lodewijk Luken é o criador do projeto Panorama Paquetá, que será apresentado na UIA 2020. O projeto implementa uma estratégia circular para reduzir a poluição na ilha com intervenções nas áreas de energia, água e materiais. Seu projeto Piscina na Praia cria um sistema para uma piscina na praia com água de reúso, possibilitando aos banhistas uma alternativa à água poluída da Baía de Guanabara, além de ajudar a estimular o turismo local. Algo semelhante ao Piscinão de Ramos. “Para mim a economia circular é valorizar o que já tem e, normalmente, o material tem muito valor, é só identificar o valor e usar a sua criatividade. Isso é o mais importante. A Economia Circular não é uma coisa do futuro, ela já está aqui, é algo lógico”, explica o arquiteto.

Pensando na área do Porto, é essencial incluir a Economia Circular nesse período de transformação como uma forma de trazer para perto da sociedade a ideia de reutilização de materiais. “Pode ser incluída no espaço público, no mobiliário utilizado, que possibilita realmente ao público enxergar a sustentabilidade e a alegria de reutilizar os materiais para fazer coisas boas”, afirma Lodewijk Luken.

Para quem se interessou pelos workshops, mas não conseguiu comparecer, será lançado futuramente um livro, com todos os debates e apresentações. “Já tenho até a capa pronta”, comemora o idealizador do evento, Rafael Saraiva.