Uma receita simples para Witzel e Crivella no Porto | Diário do Porto

Política

Uma receita simples para Witzel e Crivella no Porto

Witzel pediu a Bolsonaro o Porto do Rio para o Estado, mas Crivella quer para o Município. Ambos só precisam fazer o dever de casa para desenvolver a região

12 de maio de 2019


O Porto espera ações simples como um prato de arroz com feijão


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O governador Wilson Witzel abriu, recentemente, uma disputa com o prefeito Marcelo Crivella. Ele solicitou ao presidente Jair Bolsonaro a estadualização do Porto do Rio de Janeiro. Em dezembro do ano passado, o então futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, ouviu de Crivella pedido semelhante para municipalizar o Porto. Prefeito e governador na defesa pelo desenvolvimento do Porto é excelente sinal, e o Rio de Janeiro precisa muito. No entanto, o futuro da Região Portuária depende muito mais da prestação de serviços públicos convencionais pelo Estado e pela Prefeitura, ou seja, de um arroz com feijão bem feito, do que da complexa transferência das instalações portuárias da União.

Segurança e saneamento

Na esfera estadual, a ação mais determinante para desenvolver o Porto Maravilha seria a promoção da Segurança Pública. Trata-se de uma atribuição natural do governo estadual. Durante os nove meses da intervenção federal-militar na Segurança do Estado, moradores, comerciantes e trabalhadores do Centro e da Região Portuária viram crescer o número de assaltos e roubos. Os imóveis em áreas controladas pelo tráfico nas comunidades do coração do Rio – e em suas imediações – sofreram desvalorização após o fracasso das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

 

Ponte Rio-Niterói vista a partir da Baía de Guanabara
Baía de Guanabara limpa: por enquanto, um sonho frustrado (foto Alexandre Macieira/Riotur)

Não é preciso que o governador arrisque a vida sobrevoando de helicóptero o Morro da Providência, como fez em Angra dos Reis para ressaltar seu alinhamento com as forças policiais. Bastaria estudar o sucesso (mesmo que temporário) de programas simples e corajosos de policiamento comunitário, como o das já citadas UPPs.

O prefeito Crivella também já ensaiou, como senador durante o governo Lula, um choque de urbanismo na maior comunidade da Região Portuária, com o projeto Cimento Social. Se ambos, governador e prefeito, reunissem bons técnicos do serviço público com a missão de levar paz e cidadania à Providência, dariam uma contribuição sem tamanho ao desenvolvimento do Porto Maravilha.

 


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O saneamento da Baixada Fluminense para despoluir a Baía de Guanabara, que já consumiu cerca de R$ 2 bilhões de verbas administradas pelo Estado, também produziria ativos altamente competitivos para a indústria do turismo, um ponto forte da região. Os efeitos não beneficiariam apenas o Centro e o Porto, mas diversas outras áreas com potencial turístico na Zona Sul da capital, em Niterói, nas ilhas do Governador e de Paquetá, na Baixada Fluminense e em São Gonçalo. Sem contar a economia incalculável de recursos hoje gastos com as doenças causadas pela falta de saneamento.

Ordem, limpeza e iluminação

A Prefeitura suspendeu o repasse de verbas para a Concessionária Porto Novo, que parou de administrar os serviços públicos da região, e para o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). A crise do VLT ainda pode paralisar o mais novo modal de transporte da cidade, símbolo do Porto Maravilha.

Houve também corte de verbas municipais para o Museu do Amanhã e para as escolas de samba. A crise no Carnaval, que cresce ano a ano, mergulhou em incertezas a Cidade do Samba, um dos principais equipamentos culturais da cidade, na Gamboa. Muitas demissões foram feitas, e talentos perdidos. O último e mais vistoso, aliás, foi a transferência anunciada de Paulo Barros para a Gaviões da Fiel, em São Paulo. Nos blocos de rua, os paulistanos estão perto de atrair mais foliões brasileiros do que os cariocas.

teleférico do morro da Providência
A desativação do teleférico frustrou o Morro da Providência

A iluminação pública e a limpeza das ruas, especialmente no Santo Cristo, assim como o ordenamento em áreas estratégicas como a Rodoviária do Rio e a Central do Brasil, também poderiam atrair moradores, comerciantes e investidores. O teleférico do Morro da Providência consumiu R$ 75 milhões, mas está inoperante desde dezembro de 2016. É outra atribuição da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), da Prefeitura, que para ser cumprida não depende do presidente Bolsonaro nem do ministro Guedes.

O papel da Caixa

Não é difícil imaginar a explosão desenvolvimentista no coração do Rio de Janeiro em um cenário, infelizmente utópico, de polícia reduzindo a criminalidade, favelas urbanizadas, Baía de Guanabara despoluída, VLT funcionando a todo vapor, menos ônibus para poluir e engarrafar, ordenamento urbano, ruas limpas e boa iluminação pública.

Armazéns antigos e prédios modernos no Porto Maravilha
Prédios modernos do Porto: é preciso vender os Cepacs (foto DiPo)

Além de fazer o dever de casa, governador e prefeito poderiam se unir para defender os interesses do Rio. Um bom começo seria um pedido conjunto ao presidente Bolsonaro para que a Caixa Econômica Federal também cumpra seus compromissos com o desenvolvimento do Porto Maravilha e facilite a venda de Cepacs (Certificados do Potencial Adicional de Construção) a investidores imobiliários. Ou, no mínimo, transfira suas atividades para a Região Portuária, valorizando seu próprio patrimônio.

Um bom arroz com feijão não tem preço.