Paraíso do Tuiuti vai transformar Obama em Orixá | Diário do Porto


Carnaval 2022

Paraíso do Tuiuti vai transformar Obama em Orixá

Depois do estrondoso sucesso de 2018, Paraíso do Tuiuti ficou em 8º e 11º lugares. Agora volta a cantar a negritude na linguagem futurista de Paulo Barros

8 de abril de 2022

Em 2019, a Paraíso do Tuiuti fez seu maior sucesso com enredo político sobre a escravidão (Gabriel Nascimento/Riotur)

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Não é fácil a tarefa do genial carnavalesco Paulo Barros, que está à frente do desfile da Paraíso do Tuiuti no Carnaval 2022 com o enredo Ka ríba tí ÿe – Que nossos caminhos se abram, sobre a resistência dos negros. A escola ainda tem o gostinho do vice-campeonato de 2018, quando arrebatou o Sambódromo com um desfile de alta acidez política sobre os 130 anos da Lei Áurea.

Naquele ano, o enredo “Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?“, o Paraíso do Tuiuti recontou a história da escravidão no Brasil. Era o 130º aniversário da Lei Áurea. E fez uma denúncia do racismo e das dificuldades dos trabalhadores brasileiros, colocando o então presidente Michel Temer em uma alegoria de vampiros. 

Em 2019, outro enredo político e crítico, sobre o Bode Ioiô, rendeu o oitavo lugar e o Estandarte de Ouro, do jornal O Globo, como melhor enredo. A extrema direita esteve na mira do desfile, ao ponto de uma ala mostrar coxinhas armadas, crítica direta ao discurso do presidente Jair Bolsonaro. No último carro, frases aludiam a falas do presidente e seus aliados, como “Deus acima de tudo, mas a favor da tortura”.

O Santo e o Rei

No último desfile, 2020, o susto de quase ter sido rebaixada: 11º lugar.  para o enredo “O santo e o rei”, do carnavalesco João Vítor Araújo, que mostrou um encontro de Dom Sebastião, rei de Portugal, com São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro.

Paulo Barros agora aposta todas as fichas, mais uma vez, na ligação da escola com a história dos negros. O enredo trata de luta, sabedoria e resistência dos descendentes da África. Ka ríba tí ÿe vai exaltar a contribuição de grandes figuras negras para a humanidade e levar ao Sambódromo uma perspectiva futurista da negritude.

Paraíso do Tuiuti 2018
A empolgação da ousada Paraíso do Tuiuti no Sambódromo (Dhavid Normando/Riotur)

O desfile do Paraíso do Tuiuti passa, entre outros, por Barack Obama, Nelson Mandela e Catherine Johnson, uma das responsáveis por colocar o homem em órbita da Terra. Esses herois da vida real vão estar vinculados, no Sambódromo de Paulo Barros, às figuras do candomblé, como Xangô.

O enredo falará da importância de quebrar barreiras e estereótipos, como Obama fez ao se tornar o primeiro presidente negro da nação mais poderosa do planeta. 

História da Paraíso do Tuiuti

A história da Paraíso do Tuiuti remonta à década de 1930, mas a Unidos do Tuiuti desapareceu após a Segunda Guerra Mundial para dar lugar ao Bloco dos Brotinhos. Até que um grupo de sambistas se reuniu, terminou com o bloco e com a Paraíso das Baianas e fundou, em 5 de abril de 1954, a Paraíso do Tuiuti, com as cores amarelo (herdado da Paraíso das Baianas) e azul (herdado da Unidos do Tuiuti).

Em 1968, com o enredo de Júlio Matos homenageando o bairro de São Cristóvão, a Paraíso do Tuiuti tira o primeiro lugar no Grupo 3 e vai para o Grupo 2. O fato é que, até o início da década de 1980, quase ninguém de fora da região ouviu falar da escola.

Você pode ouvir o samba aqui. Confira a letra abaixo:

Ka ríba tí ÿe – Que nossos caminhos se abram

Alô, meu Tuiuti!

Quem for contra, vai chorar

Porque, se Deus é por nós

Quem será contra nós?

Abriu a porta da senzala!

É pegada de africano, hein?

 

Ogunhiê! Okê arô!

Laroyê! Meu pai, kaô

Tem sangue nobre de Mandela e de Zumbi

Nas veias do povo preto do meu Tuiuti

 

Ogunhiê! Okê arô!

Laroyê! Meu pai, kaô

Tem sangue nobre de Mandela e de Zumbi

Nas veias do povo preto do meu Tuiuti

 

Olodumarê mandou

Oxalá me conduzir

Pelo céu da liberdade

Me falou Orunmilá

Vai, meu filho, semear, pelo mundo, a humanidade

Nos caminhos de Exu

Me perdendo, eu encontrei, nua e crua, essa verdade

Que a raiz do preconceito

Nasce do olhar estreito da cruel desigualdade

Sou alabê gungunando o tambor

Trago cantos de dor, de guerra e de paz

Pra ver secar todo pranto nagô

E gritar por direitos iguais

Meu sangue negro que escorre no jornal

Inundou um oceano até a Pedra do Sal

 

É! Dandara!

A espada e a palavra, é!

Não vai ser escrava, é!

De ver noutras negras minas

Um baobá malê que nasceu do chão

Pra vencer a opressão

Com a força da melanina

 

É! Dandara!

A espada e a palavra, é!

Não vai ser escrava, é!

De ver noutras negras minas

Um baobá malê que nasceu do chão

Pra vencer a opressão

Com a força da melanina

 

Negro é cultura e saber

Ka Ríba Tí Yê, caminhos de Sol

Onde Mercedes, Estelas

Por becos e vielas

Se fazem farol

Pra iluminar Alafins

E morrer só de rir, feito mil Benjamins

E cantar! Cantar! Cantar

A beleza retinta que veio de lá

E cantar! Cantar! Cantar

Pra saudar o meu Orixá

 


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