Diário do Porto

Para biógrafo do autor de Vale Tudo, versão original foi melhor

Debora Bloch e Alexandre Nero no Copacabana Palace foto Globo Divulgação

Os atores de Vale Tudo, Debora Bloch e Alexandre Neto em festa no Copacabana Palace (foto: TV Globo / Divulgação)

O jornalista Mauricio Stycer, biógrafo de Gilberto Braga, autor da versão original de Vale Tudo, avalia que a novela reescrita por Manuela Dias não conseguiu reproduzir a força e a complexidade da trama exibida pela Globo, em 1988.  

Segundo Stycer, em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, a Vale Tudo original, concebida por Braga com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, retratava “um Brasil vivendo uma crise socioeconômica e moral de grandes proporções”, com personagens movidos por dilemas éticos e pela desigualdade social. Já o remake, na avaliação dele, apostou em “um país fantasioso, sem conflito de classes nem falta de grana”, tornando a história menos provocadora e totalmente despolitizada.

Na versão original, a personagem Raquel teve um protagonismo que rivalizava com a vilã Odete Roitman, por sua teimosia em se manter em linha reta, defendendo a ideia de que valia a pena ser honesta. Em 1988, “Odete se destacou ao mostrar que a ambição da heroína beirava o ridículo. Com seus maus modos, preconceitos, ofensas e vilanias, Odete gerou um desconforto que poucas vezes se viu igual numa novela exibida pela Globo. A personagem entrou para a história”, escreveu Stycer.

A Odete, vivida agora por Débora Bloch, também teria perdido a força que marcou a atuação de Beatriz Segall. “Como se tivesse tirado uma capa chique que cobria a personagem, Débora foi uma vilã que, metaforicamente, bebeu caipirinha e caiu no samba”, escreveu Stycer, acrescentando que a nova Odete foi a personagem mais feliz da nova versão da novela. “Transou praticamente em todos os capítulos com quem ela escolheu. Empoderada, sexy, sacana, esta Odete 2 se divertiu do início ao fim. Não sobrava muito tempo para planejar suas vilanias, o que explica as inúmeras ações mal ajambradas que promoveu.”

Ainda que Manuela Dias tenha afirmado ao Fantástico que sentiu “dó” de matar a personagem — considerada “altamente viciante” por ela —, Stycer ironizou o seu próprio alívio diante da confirmação da morte da vilã: “A boa notícia é que Odete morreu”. Ele lembrou que, diante das liberdades criativas da autora, havia o temor de que Odete escapasse viva no final, o que ainda é uma possibilidade em que prefere não acreditar.

O colunista observou também que o remake refletiu mudanças estruturais na teledramaturgia da Globo, que busca formatos mais curtos e diálogos simples para atender à dinâmica das redes sociais. “As novelas nesta terceira década do século 21 são um produto completamente diferente do que eram nos anos 1980 e 1990”, afirmou. Para ele, a emissora tem investido em narrativas mais comerciais, com menos densidade e acabamento artístico.

Apesar de críticas à superficialidade da nova versão, Stycer reconheceu que a adaptação teve sucesso comercial e audiência razoável, ainda que aquém das expectativas da Globo em seu ano de 60 anos.

Mauricio Stycer publicou, em coautoria com Artur Xexéo, “Gilberto Braga, o Balzac da Globo” (Intrínseca, 2024). Também é autor dos livros “O Homem do Sapato Branco” (Todavia, 2023), “Topa Tudo por Dinheiro” (Todavia, 2018), “Adeus, Controle Remoto” (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009), “O Dia em que Me Tornei Botafoguense” (Panda Books, 2011) e “O Brasil em Mil Frases” (Publifolha, 1996).


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