Ouro brasileiro e festa latina no domingo japonês | Diário do Porto


Nas esquinas de Tóquio

Ouro brasileiro e festa latina no domingo japonês

Um domingo feliz para os países de língua latina em Tóquio. E ainda mais para os brasileiros, que viram uma mulher preta no alto do pódio da ginástica

1 de agosto de 2021

Rebeca Andrade entra para história da ginástica olímpica brasileira (Míriam Jeske/COB)

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Nas esquinas de Tóquio

Vicente Dattoli

Não, não vou falar apenas do ouro de Rebeca Andrade no cavalo. Há mais, muito mais, neste segundo domingo olímpico de Tóquio. No sábado, em São Paulo, recebemos de volta o Museu da Língua Portuguesa. Convidados de Portugal, Cabo Verde… Não, não vou falar apenas do inédito ouro de Rebeca Andrade na ginástica.

A Venezuela, vizinha que sofre com tantos problemas (não é a única), levou ouro no salto triplo e, de quebra, viu sua Yulimar Rojas bater o recorde mundial. Lá, como cá, há tantas tristezas, tão pouco apoio ao esporte…

Não, não vou falar que Rebeca Andrade, ouro, é a típica mulher brasileira. Faço, porém, questão de lembrar que o Equador também conseguiu seu ouro, com Neisi Dajomes, no levantamento de peso. Sem fazer fronteira conosco, os equatorianos se veem diante de mazelas semelhantes às nossas, todos os dias. E seguem adiante.

Não, não vou lembrar que Rebeca Andrade, antes do ouro desta madrugada, foi também prata – a primeira conquista na ginástica das meninas do Brasil. É justo, porém, lembrar que a Itália, latina, que tantas influências possui em nossa formação, faturou em dez minutos dois ouros, no salto em altura com Gianmarco Tamberi e nos 100m com Marcel Jacobs – o primeiro velocista campeão pós-Bolt.


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Seria desleal, também, ignorar que o pódio do salto triplo, além da venezuelana Yulimar, teve também a portuguesa Patricia Mamona em segundo e a espanhola Ana Peleteiro em terceiro. Minha pátria é minha língua, já dizia o poeta – e aqui, poeticamente, me deixo levar para chamar de compatriotas todos os que têm o latim como base, falem português, espanhol ou italiano.

Não, não vou falar apenas do ouro de Rebeca Andrade. Nem vou entrar no fácil caminho da superação pela sua vida, sua dificuldade, nada disso. O brilho dourado de Rebeca, que não está sozinho neste mundo, é a demonstração, como disse o nadador Bruno Fratus, bronze também nesta madrugada, que não precisamos ser os mais altos, os mais fortes, os mais bonitos.

Só não podemos desistir, nunca. Assim, teremos vários outros domingos dourados pela vida.

Rebeca brilha em um domingo dourado para os países de língua latina (Míriam Jeske/COB)

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