Os motéis e a Ditadura Militar | Diário do Porto


Literatura

Os motéis e a Ditadura Militar

Livro revela como a indústria dos motéis viveu um boom durante a conservadora e repressiva Ditadura Militar, com farto uso de recursos públicos não fiscalizados

16 de novembro de 2021

Murilo Fiuza de Melo e Ciça Guedes, autores de “Os Motéis e o Poder - Da perseguição pelos agentes de segurança ao patrocínio pela ditadura militar” (divulgação)

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Apesar do discurso moralista e da mão de ferro para controlar as mudanças nos costumes, a Ditadura Militar financiou a construção e a consolidação dos motéis, emblemático espaço para a prática de sexo livre no País, que se espalharam pelo território a partir de 1968. A liberação de recursos públicos e os incentivos fiscais ocorreram nos governos mais repressivos do regime, dos generais Artur da Costa e Silva, que impôs o AI-5, e Emílio Garrastazu Médici, no qual a tortura de opositores se institucionalizou como prática de Estado.

A história é revelada pelos jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo no livro “Os Motéis e o Poder – Da perseguição pelos agentes de segurança ao patrocínio pela ditadura militar” (Ed. C&M), o terceiro assinado pela dupla. A obra expõe as contradições do discurso da “defesa da moral e dos bons costumes da família brasileira”, usado pelos militares para angariar o apoio de parte da sociedade brasileira ao regime – a mesma estratégia, aliás, adotada pelo capitão Jair Bolsonaro na sua bem-sucedida campanha eleitoral à Presidência da República, em 2018.

O dinheiro público jorrou para esses estabelecimentos inicialmente de forma involuntária. O governo identificou o turismo como uma das indústrias com potencial para alavancar o crescimento econômico do Brasil. Criou, então, a Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), em 1966, e desenhou um plano para dotar o país de infraestrutura hoteleira. Os militares incluíram o modelo norte-americano do “motorist’s hotel” (de onde se origina a palavra motel por estimular o uso de carros para acessá-los) entre os meios de hospedagem que receberiam financiamentos e incentivos.

O general amigo dos motéis

Foi justamente entre os anos de 1968 e 1974, que esses estabelecimentos nasceram e floresceram. Os motéis se espalharam pelas maiores capitais e, depois, para as cidades de porte médio, financiados com recursos públicos graças à falta de fiscalização. Com base em entrevistas e extensa pesquisa, Ciça e Murilo revelam as relações íntimas entre militares e motéis. Um dos exemplos é o do Motel Dunas, ainda em operação na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Sua inauguração, numa noite de julho de 1973, contou com a presença do general João Batista de Oliveira Figueiredo, então chefe do Gabinete Militar de Médici, que se tornaria, 12 anos depois, o último presidente da ditadura militar. Os filhos do general eram amigos do filho de um dos sócios do Dunas, e chegaram a ter negócios em comum

Os planos, porém, foram atropelados pela revolução sexual, proporcionada pelo surgimento da pílula anticoncepcional, e a queda nos preços dos carros no país. Como disse o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, “Deus criou a pílula e o automóvel, mas foi o diabo que os juntou”, permitindo aos empreendedores, principalmente imigrantes espanhóis e portugueses, fazerem fortuna com o sexo.

Lançamento

Os Motéis e o Poder”

Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo

Livraria da Travessa Ipanema

Rua Visconde de Pirajá, 572

19 de novembro (sexta-feira)

A partir das 19h


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