Olga de Mello: para começar um ano carioca | Diário do Porto


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Olga de Mello: para começar um ano carioca

Nossa crítica literária Olga de Mello nos recomenda quatro leituras que explicam o Rio para o carioca ou para apaixonados pela Cidade Maravilhosa

5 de março de 2022

"Fundação da Cidade do Rio de Janeiro", de Antonio Firmino Monteiro (reprodução internet)

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Olga de Mello

Olga de Mello

O ano brasileiro, e especialmente do carioca, começa na segunda-feira pós-Carnaval, mesmo quando não conta com blocos ou desfiles oficiais. E neste carnaval, teve  aniversário da cidade, 1º de março, pretexto para um mergulho nas muitas histórias cariocas de um Rio de Janeiro anterior à chegada dos brancos. Ricamente ilustrado com imagens dos primeiros habitantes dessas praias, “O Rio antes do Rio” (ed. Relicário, R$ 69,90), em sua quinta edição, é uma viagem ao tempo daqueles grupos sociais que foram aniquilados pelos europeus. A deliciosa pesquisa do jornalista Rafael Freitas da Silva – com edição primorosa da Michelle Strzoda, traz informações que as escolas deixaram de lado por um ensino que privilegiou o Brasil colonizado e desprezou suas origens.

O primeiro carioca

 

Além dos sonoros nomes para lugares, os tupinambás, classificação genérica dos povos da orla, tinham hábitos pessoais guardados até hoje pelos cariocas, como os banhos constantes, cortes de cabelos arrojados e a ornamentação caprichada por brincos e piercings nasais. Brincadeiras à parte, é possível reconhecer um espírito folgazão, alegre e, principalmente, resistente, naquela gente bronzeada que se enfurnou pelas matas, com a invasão de franceses e portugueses em busca de terras férteis e de clima quente, onde, plantando, quase tudo se dá.

Assim nasceu o Jardim Botânico

Séculos depois, chegou por aqui a Corte Portuguesa, em fuga de Napoleão. Como em outras colônias lusas, uma das preocupações foi criar um horto de especiarias alimentares e farmacêuticas. Nascia o Real Horto, que hoje é o centro do bairro do Jardim Botânico, na Zona Sul da cidade, que já teve fazenda de café, uma fábrica de pólvora e outra de tecidos instaladas em seu terreno, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, espalhando-se morros acima e chegando até a Gávea. Nascida e criada em uma das áreas mais valorizadas da cidade, a historiadora Luciene Carris levanta o passado de seu bairro em “Histórias do Jardim Botânico – Um recanto proletário na Zona Sul carioca” (Ed. Telha, R$  59), que poucos recordam ter sido área industrial e um dos centros do sindicalismo têxtil fluminense.

 

A história da família do Parque Lage

Como em todo o Rio de Janeiro, no Jardim Botânico mansões dividem o espeço com edifícios modestos em vários pontos, uma característica da anarquia urbana cultivada ao longo de 460 anos. Uma delas, a partir dos anos 1920, passou a abrigar a família do empresário Henrique Lage e de sua mulher, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni. No meio da propriedade da família, Lage reproduziu um Palazzo italiano, com uma imensa piscina no pátio central, para onde davam os diversos cômodos da imponente edificação, cercada pela floresta, com grutas, trilhas, e a nascente de um rio,  e um imenso jardim. Esse foi o primeiro lar brasileiro da escritora Marina Colasanti, sobrinha-neta de Gabriella, que traz um relato encantador de sua infância e juventude no Parque Lage em “Vozes de Batalha” (ed. Tusquets editores, R$ 54,90).

 

Chegando ao país em 1948, Marina e o irmão Arduíno percorreram cada milímetro da chamada Chácara, desapropriada pelo governo da Guanabara na década de 1960, hoje um parque público cuja mansão abriga uma escola de Artes Visuais. As memórias de Marina Colasanti são quase uma leitura complementar obrigatória da biografia “Henrique Lage – O grande empresário brasileiro que, por amor, criou um parque” (ed. Record, R$ 47,90), do historiador Clóvis Bulcão. Mesmo centrada na trajetória do empreendedor e magnata, a narrativa privilegia a importância da relação do casal, influente política, social e artisticamente, que foi carioca enquanto o casamento perdurou.


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