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Olga de Mello: ‘Os dias duros da infância’

“A infância feliz é uma criação literária tanto quanto o amor romântico”, diz Olga de Mello. Ela indica dois livros com a temática das lembrança de infância

18 de outubro de 2019
A pintora chilena Emma Reyes tem 23 cartas reunidas em Memória por Correspondência

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Olga de Mello

Olga de Mello

A infância feliz é uma criação literária tanto quanto o amor romântico. Se a importância dos primeiros anos de vida foi ressaltada a partir de Freud e de outros estudiosos do aprendizado, da educação e do desenvolvimento humano, até que suas ideias fossem divulgadas, crianças tinham valor pecuniário para qualquer família. Ricas, eram moeda de troca em casamentos arranjados; pobres, mais um par de braços para ajudar no sustento do grupo. Se o olhar sobre a infância mudou no século XX, a exploração de crianças continua existindo mundo afora, principalmente nos meios rurais – hoje há cerca de 150 milhões de pessoas entre 5 e 17 anos trabalhando no planeta, sem qualquer proteção legal. 

A forma como a criança encara essa exploração, no entanto, pode ser menos traumatizante do que acredita nossa vã psicologia. É o que revelam as lembranças da pintora chilena Emma Reyes (1919-2003) nas 23 cartas reunidas em Memória por correspondência (Companhia das Letras, R$  33,90). Criadas sem pai por uma suposta mãe em bairros paupérrimos de Bogotá, Emma e a irmã foram abandonadas numa estação de trem em cidade do interior do Chile e encaminhadas a um convento, onde 150 meninas órfãs costuravam e bordavam enxovais para as noivas de alta sociedade. Tiveram parcas noções de alfabetização, mas muito ensinamento religioso, sem jamais irem às ruas. O convento as protege do mundo exterior, e as meninas encontram felicidade ao cumprirem ordens e se esmerarem nos trabalhos manuais. Depois de assediada por um padre “espanhol guapo”, Emma sai pelo portão e vai conhecer o mundo. Roda por diversos países e se fixa em Paris, onde um amigo a convence a contar sua infância em cartas, entre 1969 e 1997. 

Livro Memória Por Correspondência

 

Lançado em 2012, o livro foi um sucesso de crítica e público na Colômbia. O relato não traz mágoas nem aponta culpados pelo estado de abandono das crianças que não conheceram o carinho da figura materna. Já revolta não falta em A devolvida (Faro Editorial, R$ 34,90), que deu à italiana Donatella di Pietrantonio o Prêmio Campiello em 2017.

Capa do livro A Devolvida

Aos treze anos, uma adolescente é levada pelo pai para viver com sua família biológica. A mãe, de classe média alta, adoeceu, e ele não pode olhar pela filha, que descobre ter pais e irmãos num lugarejo paupérrimo. Os pais adotivos são, na verdade, seus primos, que a criaram desde bem pequena, reduzindo as despesas da própria família. A menina que estudava em colégio particular e fazia aulas de balé precisa se adaptar a uma realidade que jamais imaginara sua. Embora ficcional e contada  pela protagonista, atônita com a rejeição dos únicos pais que conhecera até então, a narrativa em nada difere de tantas situações vividas por crianças pobres “dadas” a casais com posses para ter “um futuro melhor”.

A alegria da Devolvida ficou no passado confortável, mas ela exige que a mãe adotiva tome conhecimento das dificuldades que enfrenta e trate de compensá-la, pagando cursos complementares que lhe permitam o ingresso na escola secundária. Enquanto a jovem Emma Reyes era ensinada a ser grata pela caridade de quem não tinha obrigação de criá-la, a Devolvida cresceu acreditando que tinha direitos e os reivindica sem conformar-se com o destino que traçaram para ela. 

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