Ocupação irregular é cenário para tragédias | Diário do Porto


Editorial

Ocupação irregular é cenário para tragédias

O carioca é empurrado morro acima pela falta de políticas urbanas. Investir no entorno de estações e terminais de transportes de massa é uma oportunidade

10 de abril de 2019

Favela da Rocinha, um grande retrato do descontrole (Alexandre Macieira/Riotur)

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Nos últimas dias de chuva, a Prefeitura do Rio informou que foram acionadas as sirenes de emergência em 21 comunidades com áreas de risco, o que serve de alerta para que moradores deixem suas casas. O IPP considera na cidade 162 bairros formais. Em pelo menos 139 deles há favelas. O crescimento da ocupação irregular dessas áreas, que intensifica a frequência das tragédias, resulta da atávica falta de apetite dos governantes cariocas pelo planejamento urbano. 

A ocupação irregular de áreas de encostas é o fator que mais aumenta as probabilidades de as chuvas causarem vítimas, principalmente entre os mais pobres. Segundo o Instituto Pereira Passos, as favelas tiveram crescimento de 330 mil metros quadrados em dois anos (2016 e 2017). É o ritmo mais acelerado desde 2012. A área equivale à da favela do Borel, na Tijuca.

Em todas as áreas da cidade é possível verificar a expansão de moradias sobre a vegetação ou às margens de rios. Favelas também crescem para cima, adoecendo por falta de incidência de sol e de circulação de ar. Comunidades como Rocinha, Vidigal, Rio das Pedras, Cidade de Deus e muitas outras das zonas Norte, Oeste e Sul alargam-se e sobem sem limites e sem fiscalização. Na Região Portuária, a ocupação irregular data de muito mais longe.

Minha Casa Minha Vida repetiu erro

A febre da ocupação irregular dos morros cariocas o resultado de décadas de ausência de políticas públicas, não só para prevenir as trágicas “chuvas atípicas”. Há muito o Rio não discute de verdade políticas efetivas para melhorar a qualidade de vida através da moradia com acesso à educação e à saúde. Com alto desemprego e baixa renda, muitos acabam construindo suas casas em áreas perigosas e sem estrutura.

Outro fator de desequilíbrio em cidades “esculhambadas” como o Rio, para reproduzir a expressão do prefeito Marcelo Crivella, é a falta de articulação das políticas habitacionais com a mobilidade urbana. O Minha Casa Minha Vida, apesar de ter resgatado o tema no Orçamento da República e de ter recebido investimentos históricos, repetiu em grande parte de sua implantação o modelo clássico de erguer condomínios populares em áreas isoladas, sem vida econômica e sem acesso a transporte de massa.

São incontáveis os imóveis desocupados ou abandonados ao longo das malhas da Supervia, do metrô e do BRT. Um programa efetivo de intervenções públicas no entorno das estações – especialmente saneamento, limpeza, iluminação, segurança e fomento ao empreendedorismo – multiplicaria os efeitos dos investimentos públicos. Aceleraria a geração de empregos, desconcentraria a cidade e, principalmente, reduziria o ritmo de ocupação de encostas.

O transporte como fio condutor de uma nova metrópole

O que se vê, governo após governo, é o desperdício das oportunidades de consertar a cidade esculhambada. Os leitos dos transportes de massa poderiam ser fios condutores de uma metrópole mais inteligente e sustentável, menos violenta. No entanto, o cenário nessas áreas é de abandono. Isso acontece não só no entorno de estações e terminais de bairros afastados e pobres, mas até nos grandes pontos de encontro da cidade. É o caso da Rodoviária do Rio, da Central do Brasil, do terminal Pavuna do metrô e dos terminais mais movimentados do BRT, como Madureira e Santa Cruz.

Sem estímulo para buscar qualidade de vida longe dos bairros centrais, centenas de milhares de cariocas são empurrados morro acima. Acabam construindo, tijolo por tijolo, o cenário de tragédias que passam a aterrorizá-los em dias de chuva, de operações policiais, de confrontos entre máfias, de epidemias e de sofrimento. É preciso ter coragem para virar a página. 


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