Turismo

Obras no Cais do Valongo vão durar dois anos

Ruínas de porto que recebeu 1 milhão de escravos africanos serão transformadas em museu a céu aberto. Obras começam em dezembro e devem durar dois anos

21 de novembro de 2018

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Ato de lançamento da pedra fundamental das obras  (Foto: Divulgação/IDG)

Fé, esperança, resistência. O lançamento da pedra fundamental das obras de conservação no Cais do Valongo, na Região Portuária do Rio, se transformou em ato em defesa da igualdade racial e contra o preconceito e a discriminação aos negros no Brasil. Financiadas pelo governo dos Estados Unidos, as obras começam em dezembro e vão durar dois anos, período em que o espaço público a céu aberto poderá ser visto pelos visitantes.

Muitos ativistas e representantes do movimento negro participaram da solenidade, realizada em meio à Semana da Consciência Negra. Representando a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, o cônsul-geral americano no Rio, Scott Hamilton, anunciou o aporte de U$ 500 mil (quase 2 milhões de reais) para financiar as obras.

Em seu discurso, Hamilton destacou a importância do Cais do Valongo, reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade em julho de 2017 pela Unesco. Os recursos para o trabalho de conservação e consolidação do Cais do Valongo vêm do Fundo dos Embaixadores dos Estados Unidos para Preservação Cultural e representam, segundo Hamilton, o segundo maior aporte realizado este ano.

Projeto foi desenvolvido em 2014

Na primeira etapa das obras, serão realizadas a restauração do pavimento original de pedras, drenagem das águas da chuva e ainda reforço estrutural das paredes, fundações e superestrutura. O objetivo é que as ruínas funcionem como um museu a céu aberto, um recorte do passado que deverá ser preservado, respeitando os valores artísticos e históricos envolvidos.

O projeto da prefeitura tem orientação do Iphan (Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e foi desenvolvido em 2014 por uma empresa especializada, contratada na época pela Cdurp (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro), durante as obras de revitalização da região.

Nilcemar Nogueira, secretária municipal de Cultura, falou das próximas ações para a preservação do Cais do Valongo. Em 2019, será inaugurada a nova sinalização do sítio arqueológico, com iluminação cênica do entorno da região conhecida como Pequena África.  Já o Centro de Interpretação, que receberá visitantes do monumento no antigo Armazém Docas Pedro II, ficará para 2020. O desafio agora é desocupar o imóvel que hoje abriga a ong Ação da Cidadania. Ao DIÁRIO DO PORTO, ela garante que vencerá a batalha judicial.

Aplicativo vai reunir atrações culturais da região

O projeto patrocinado pelo governo americano será gerido pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), presidido por Ricardo Piquet, que também é presidente do Museu do Amanhã.

“Esta parceria nos permitirá contar a história do Sítio Arqueológico do Cais do Valongo, ressignificando um momento doloroso de nosso passado recente, a escravidão, num ambiente de reflexão e de valorização da cultura de matrizes africanas – marcada, sobretudo, pela luta e pela resistência – assim como em um local de promoção e defesa de Direitos Humanos”, disse.

Ao DIÁRIO DO PORTO, Piquet antecipou que o Cais do Valongo será integrado às informações sobre os grandes equipamentos culturais da região, como Museu do Amanhã e AquaRio. O aplicativo está em desenvolvimento e ainda não tem data para ser lançado.

Além do Museu do Amanhã, o IDG  é responsável pelas gestão da Bibliotecas Parque, Paço do Frevo e Fundo da Mata Atlântica.

Iphan quer mais apoio para salvar patrimônio histórico

Muito emocionada, Mônica Costa, superintendente do Iphan no Rio, comemorou a parceria com o governo americano. Segundo ela, parcerias como esta são mais do que bem vindas para salvar o patrimônio histórico cultural do estado. E garantiu que o órgão, que tem o papel de fiscalizar a conservação dos monumentos tombados, está de portas abertas para receber interessados em apoiar a preservação desses bens.

Para muitos presentes, a revitalização das ruínas do único porto para desembarque de negros escravizados no mundo representa um investimento na preservação de nossa memória cultural e da herança do povo africano no Brasil. Já alguns ativistas vêm com ressalva.

“Não dá para saber como, mas isso não repara o que foi feito com nossos antepassados. Fomos forçados a vir parar aqui”, disse Adriana Odara Martins, da Comissão Pequena África, durante breve discurso no local.

A cerimônia terminou com um cântico africano, puxado por Mãe Edelzuita de Oxalá, de 84 anos, que realiza todos os anos a já tradicional lavagem do Valongo. Após a vitória de hoje, ela diz que a próxima será estar com saúde em julho de 2019 para repetir o ritual.

Por Rosayne Macedo, com Assessoria do IDG

 

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