O louco Carnaval da gripe espanhola embala sonho do Bi da Viradouro | Diário do Porto


Carnaval 2022

O louco Carnaval da gripe espanhola embala sonho do Bi da Viradouro

Atual campeã, Viradouro faz uma ponte entre os carnavais da gripe espanhola e da Covid-19 na luta da Vermelho e Branco pelo Bicampeonato na Sapucaí

21 de abril de 2022

Viradouro fechou os ensaios técnicos para o Carnaval 2022 no Sambódromo (divulgação/Liesa)

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O que 1919 e 2022 têm um comum? Campeã do último Carnaval antes de tudo parar, a Viradouro sabe a resposta. A Vermelho e Branco de Niterói vai levar para Sapucaí a história do louco e inesquecível Carnaval pós-gripe espanhola, a epidemia que entre 1918 e 1919 matou entre 20 e 40 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, foram 35 mil vítimas, um terço delas no Rio de Janeiro, então capital da República. Qualquer semelhança com a atual pandemia do Covid-19 não é mera coincidência.

Os carnavalescos Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira irão fazer uma ponte de 103 anos para mostrar as semelhanças e distopias entre duas épocas que hoje não parecem tão distintas assim. Como em 1919, a dupla enfrentou dificuldades para encontrar peças e materiais para produzir as fantasias e alegorias do enredo.

“Eles usaram canudos, folhas de jornal, copos de papelão, fizeram fantasias de papel-crepom. Na Viradouro trabalhamos muito com reciclagem, com o que tinha no almoxarifado. Vamos ter um carnaval mais manual, com muito mais patchwork”, contou Tarcísio ao portal G1.

Zé Paulo Sierra vai puxar a Viradouro rumo ao Bicampeonato na  Marques de Sapucaí (divulgação/Liesa)

A agremiação contará com uma ala de profissionais de saúde, Vinte e oito médicos e enfermeiros desfilarão em um carro alegórico homenageará à Cruz Vermelha, instituição que foi tão fundamental ao atendimento médico aos doentes da gripe quanto o SUS agora na pandemia.

Assinado Felipe Filósofo, Fabio Borges, Ademir Ribeiro, Devid Gonçalves, Lucas Marques e Porkinho, o título do samba-enredo é a verdadeira síntese do enredo Vermelho e Branco de Niteroi que pisa a Avenida em busca de um inédito Bicampeonato consecutivo em sua história. “Não há Tristeza que Possa Suportar tanta Alegria”. Quem sobreviveu, verá!

A história da Viradouro, a “ganhadeira” de Niterói

A Vermelho e Branca de Niterói foi fundada em 24 de junho de 1946, com as rodas de samba no quintal da casa de “Jangada“, apelido de Nelson dos Santos. Nascida Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Viradouro, o nome da escola, hoje conhecida como Unidos do Viradouro, ou somente Viradouro, se deve à sua proximidade com a antiga Rua Viradouro (hoje Dr. Mário Viana), local onde os bondes faziam o retorno.

As cores originais da escola eram o azul e rosa, em referência ao manto de Nossa Senhora Auxiliadora. Mas a dificuldade em conseguir tecidos, o que afetava as notas, levou à troca para vermelho e branco em 1971, quando voltou a vencer em Niterói.

O Carnaval de 1986 foi marcado por denúncias de subornos de jurados e roubos de envelopes. A apuração conturbada fez com que a Viradouro e a Acadêmicos do Cubango, outra grande escola niteroiense, decidissem abandonar os desfiles na cidade e atravessar a Ponte para a Sapucaí. Começando no Grupo 2-B, atualmente Série D, a escola teve um grande e vitorioso percurso até começar a desfilar no Grupo Especial.


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Com Dercy Gonçalves no Sambódromo

O bicheiro José Carlos Monassa se tornou presidente da escola em 1997 e se manteve até seu falecimento, em 2005. Sob seu comando, a agremiação foi a vencedora do Grupo 2 em 1989, com o enredo “Mercadores e mascates”. Em 1990, foi a vencedora do Grupo 1, como enredo “Só vale o escrito” e em 1991 começou a desfilar no Grupo Especial com o enredo “Bravo! Bravíssimo! – Dercy Gonçalves, o retrato de um povo”. O desfile foi icônico e teve a comediante Dercy Gonçalves, homenageada pela escola, desfilando em destaque no carro alegórico com os seios à mostra. Neste ano a escola ficou em 7º lugar, deixando para trás escolas tradicionais do Rio.

Atriz Erika Januza sendo coroada como a nova rainha de bateira da Vermelho e Branco de Niterói (divulgação/Viradouro)

Se mantendo na elite das escolas de samba, em 1992, com o carnavalesco Max Lopes, a Viradouro apresentou o enredo “E a magia da sorte chegou”, contando a história dos ciganos. Este desfile ficou marcado por ter originado o maior incêndio já visto no sambódromo. O carro alegórico que pegou fogo foi, por ironia, o “Geleiras da Rússia”, que trazia cães da raça Husky Siberiano puxando trenós e torres com inspirações russas. A fumaça do incêndio cobriu toda a Sapucaí e os carros de bombeiros invadiram a pista para conter as chamas. Ninguém se feriu, mas a escola perdeu 13 pontos, ficando em 9º lugar. O desfile, entretanto, foi considerado por especialistas como um dos melhores já realizados no Sambódromo.

O título no Grupo Especial finalmente veio em 1997, com o enredo “Trevas! Luz! A explosão do Universo”, sobre o Big Bang. O carnavalesco Joãosinho 30 conseguiu transpor para a avenida a dualidade da criação e o mestre da bateria Jorjão foi um dos destaques com uma “paradinha” na avenida com compassos de funk, grande inovação na época. O samba-enredo, com autoria de Dominguinhos do Estácio, é um dos mais lembrados do carnaval carioca com o seguinte refrão:

“Vou cair na gandaia

Com a minha bateria

No balanço da mulata

A explosão de alegria”

No ano de 2017, comemorando os 20 anos do título de campeã do Grupo Especial, a escola cria, em 10 de fevereiro, o “Dia do orgulho de ser Viradouro”. Em 2018, foi campeã da Série A com o enredo “Vira a Cabeça, Pira o Coração – Loucos Gênios da Criação”, e em 2019 foi a vice do Grupo Especial com o enredo “Viraviradouro”, que teve o retorno do carnavalesco Paulo Barros e do diretor de bateria Ciça.

Viradouro Bicampeã em 2020

Vice-campeã do Sambódromo em 2019, a Viradouro foi para a Avenida em 2020 com um enredo sobre as Ganhadeiras de Itapuã. Eram mulheres escravizadas que no século XIX vendiam comida e lavavam roupas na Lagoa do Abaeté, em Salvador, para levantar recursos e comprar a liberdade de escravas. O samba teve a composição de Cláudio Russo, Paulo Cesar Feital, Diego Nicolau, Júlio Alves, Dadinho, Rildo Seixas, Manolo, Anderson Lemos e Carlinhos Fionda. Única representante de Niterói no Grupo Especial, a Vermelho e Branco contou com a torcida dos moradores da cidade para atravessar a Passarela do Samba e conquistar o último título antes do mundo parar com a pandemia da Covid-19.

O deslumbrante desfile que garantiu o título do Carnaval para Viradouro em 2020 (divulgação/Liesa)

Ouça aqui e decore a letra do samba-enredo da atual campeã do Carnaval carioca

“Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”

Autores: Felipe Filósofo, Fabio Borges, Ademir Ribeiro, Devid Gonçalves, Lucas Marques e Porkinho

Intérprete: Zé Paulo Sierra

Amor, escrevi esta carta sincera

Virei noites à sua espera

Por te querer, quase enlouqueci

Pintei o rosto de saudade e andei por aí

 

Segui seu olhar numa luz tão linda

Conduziu meu corpo, ainda

O coração é passageiro do talvez

Alegoria ironizando a lucidez

 

Senti lirismo, estado de graça

Eu fico assim quando você passa

A avenida ganha cor, perfuma o desejo

Sozinho te ouço se ao longe te vejo

 

Te procurei nos compassos e pude

Aos pés da cruz agradecer à saúde

Choram cordas da nostalgia

Pra eternidade, um samba nascia

 

Não perdi a fé, preciso te rever

Fui ao terreiro, clamei: obaluaê!

Se afastou o mal que nos separou

Já posso sonhar nas bênçãos do tambor

 

Amanheceu! Num instante já

Os raios de sol foram testemunhar

O desembarque do afeto vindouro

Acordes virão da viradouro

 

Tirei a máscara no clima envolvente

Encostei os lábios suavemente

E te beijei na alegria sem fim

Carnaval, te amo, na vida és tudo pra mim

 

Assinado: um pierrot apaixonado

Que além do infinito o amor se renove

Rio de janeiro, 5 de março de 1919

 

 


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