O importante é ser feliz e respeitado | Diário do Porto


Artigo

O importante é ser feliz e respeitado

No artigo, o jornalista Marcio Vieira faz uma análise do mês do orgulho LGBTQIA+ e sua importância histórica no enfrentamento à discriminação

28 de junho de 2022

Em 2021, houve no Brasil, pelo menos 316 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ (Foto: Rio Tour/ Divulgação)

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                                                                    MARCIO VIEIRA*

Nasci em junho de 1969, mesmo mês e ano que as batidas policiais em bares gays na região de Manhattan, na cidade de Nova York, nos EUA, seguiam um padrão: policiais invadiam o local, ameaçando e espancando funcionários e clientes do bar. Os clientes saíam para a rua e formavam filas para que a polícia pudesse prendê-los.

Contudo, para tudo há um limite ou uma pausa. Nas primeiras horas da manhã do dia 28 de junho de 1969, durante uma operação policial no bar Stonewall Inn. Clientes e curiosos disseram não às agressões e a consequência foi uma confusão que durou dias e resultou em uma rebelião conhecida atualmente como a Revolta de Stonewall, um marco que ajudou a desencadear o movimento atual pelos direitos civis LGBTQIAP+.

Fiz 53 anos no último dia 4 de junho e, confesso, que há 30 e poucos anos eu jamais teria coragem de escrever sobre mim. Um homem gay, feliz, bem estruturado, com uma família e amigos maravilhosos e tenho um tremendo orgulho de poder escrever e dizer eu sou gay.
Tenho a sorte de ter uma família extremamente bem estruturada, onde tudo foi natural. Sei que do ano em que nasci até hoje, milhares lutaram para que a situação melhorasse, mas ainda estamos longe da perfeição.


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Em 2021, houve no Brasil, pelo menos 316 mortes violentas de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersexo (LGBTI+). Esse número representa um aumento de 33,3% em relação ao ano anterior, quando foram 237 mortes. Os dados constam do Dossiê de Mortes e Violências contra LGBTI+ no Brasil.

Entre os crimes ocorridos em 2020, 262 foram homicídios (o que corresponde a 82,91% dos casos), 26 suicídios (8,23%), 23 latrocínios (7,28%) e 5 mortes por outras causas (1,58%). O dossiê, produzido por meio do Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI+, é resultado de uma parceria entre a Acontece Arte e Política LGBTI+, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT).

Os números acima são sinistros, mas a comunidade já tem o que comemorar. União estável, dividir o plano de saúde, escolas inclusivas, delegacias especializadas e está na Constituição crime contra a homofobia. É engraçado, mas fui de uma época em que eu tinha que fingir – não sei se alguém acreditava – que eu tinha namorada. Deus! Inacreditável. Mas, hoje me divirto com isso e vejo a geração Z sem divisões, como havia na minha geração.

Já viajei muito, conheci várias culturas e tenho uma profissão que me dá o privilégio de conhecer todo e qualquer tipo de pessoa. Indiferente de qual país que eu esteja morando ou passando um tempo, o que queremos é ser respeitados. E, por favor, parem com a frase: “seus pais, amigos ou seja lá quem for, aceitaram?” Quem tem que aceitar alguém sou eu. Por fim, passei agora a perguntar – não posso perder a piada – você é hétero? Porque perguntar se “você é gay” hoje é redundância.

*Marcio Vieira é jornalista, tem especialização em inglês em Cambridge, e em História da Arte e Economia pela Universidade de Londres, no Reino Unido.


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