Ó Glória: 'berço da civilização carioca' ganha site | Diário do Porto


História

Ó Glória: ‘berço da civilização carioca’ ganha site

Histórias e joias arquitetônicas do bairro que marcou a virada do Rio de Janeiro para a Zona Sul estarão no portal “Ó Glória”

19 de março de 2021

O pórtico da Igreja da Glória é uma das muitas joias do bairro (Foto César Duarte)

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Quem está acostumado a passar pelo bairro da Glória, colado ao Centro do Rio, pode nem dar muita atenção ao seu patrimônio cultural, paisagístico e arquitetônico, mas o bairro ostenta relíquias da urbanização do Rio de Janeiro. Neste domingo 21, uma boa parte dessa história estará no site Ó Glória, lançado pela produtora Inspirações Ilimitadas.

Para a museóloga e historiadora Mariana Varzea,  idealizadora do portal, foi na Glória que, “em 20 de janeiro de 1567 se deu por definitivo a ocupação das terras cariocas”. Ela se refere à Batalha da Baía de Guanabara, que terminou com a derrota definitiva dos franceses apesar de o comandante português, Estácio de Sá, ter sido atingido por uma flecha que perfurou seu olho e o levaria à morte um mês depois. Mariana é graduada em Museologia, com especialização em História da Arte e da Arquitetura, mestrado em História Social pela PUC Rio.

Mariana Várzea
Mariana Várzea é a idealizadora do Ó Glória (Divulgação)

O site Ó Glória será bilíngue e apresentará um bom conteúdo sobre o patrimônio cultural do bairro, verdadeiro museu a céu aberto da história do Rio e do Brasil, das aldeias tupinambás até os dias atuais. A cereja do bolo são fotografias inéditas de Cesar Duarte, figura carimbada em livros sobre patrimônio natural e arquitetônico.

Curiosidades do Ó Glória

Relógio da Glória à noite
Relógio da Glória, o “berço da civilização carioca” (Cesar Duarte)

Um dos presentes do bairro para os cariocas é o chafariz da Glória, o mais antigo existente no Rio, marco da expansão para a Zona Sul e um dos mais belos monumentos da cidade, infelizmente em mau estado de conservação.  A história do chafariz e da luta por sua preservação é contada no site pelo arquiteto Carlos Fernando de Andrade.

Na recente restauração da Villa Aymoré, arqueólogas descobriram um caminho que unia o local, onde morou a Baronesa de Sorocaba, irmã da Marquesa de Santos, à Igreja da Glória. Dizem as más línguas que o atalho servia para encontros fortuitos de Pedro I com a baronesa. Está no bairro também a Casa de Machado de Assis, que entre 1874 e 1875 escreveu ali o romance A mão e a luva. 

Em 1864, foi instalada na Glória a Primeira Estação de Saneamento das Américas e a terceira do mundo (depois de Londres e Hamburgo), através de uma concessão de D. Pedro II. Esse pioneirismo no saneamento e em outros processos de urbanização fazem da Glória o “berço da civilização carioca”, segundo o historiador Paulo Knauss em entrevista ao site.

 

Marina da Glória
A Marina da Glória: tempos atuais (Divulgação)

 

O Ó Glória terá um mapa interativo que pode ser impresso, depoimentos de especialistas e uma exposição com 35 imagens inéditas. Entre as peças que o portal valoriza está o samba “Sambando na Glória”, de Raphael Moreira e Luizinho Croset, que fala de pontos como o sino da bela igreja de Nossa Senhora do Outeiro da Glória, da música popular em suas ruas e das flechas no ar, uma poética referência aos tamoios e a batalha de conquista da cidade. O samba acompanha um passeio de drone pelo bairro.

A Glória reúne mais de 150 bens tombados e preservados, um dos mais expressivos conjuntos patrimoniais da cidade. O site Ó Glória conta com o apoio do Rio Capital Mundial da Arquitetura e do Congresso Mundial de Arquitetos. Foi idealizado e realizado pela Inspirações Ilimitadas e patrocinado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura e Rede D´Or por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro – Lei do ISS.

Estão no mapa interativo, que percorre 400 anos de história, 32 bens tombados explicados em verbetes e fotos, 120 bens culturais preservados, abas com a evolução urbana do bairro, com os principais arquitetos e paisagistas. Há 50 iconografias históricas; 100 fotos atuais, 15 vídeos com especialistas, imagens de drone mostrando um dia no bairro e 35 imagens inéditas do fotógrafo Cesar Duarte.

 

César Duarte
O fotógrafo César Duarte: presente em livros sobre patrimônio cultural (Divulgação)

 

Segundo Rafael Werneck, gerente de marketing da Rede D’Or São Luiz, que inaugurou no bairro um complexo hospitalar, ”o site Ó Glória é complementar à iniciativa de restauração e modernização do edifício da Beneficência Portuguesa, que há mais de dois séculos marca a paisagem monumental da cidade.”

Passear pela Glória é encontrar palácios imperiais, casarões republicanos, vilas e pequenos prédios dos mais variados coloridos e estilos, que carregam o charme do tempo, mas, em muitos casos, estão abandonados. Jogar luz sobre a Glória é importante para a salvaguarda desse patrimônio cultural que faz uma ponte entre a arquitetura colonial e moderna. Segundo o filósofo e critico de arte Luiz Camillo Osorio, “a Glória é um território de encontro entre a cidade, natureza e arquitetura.”


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