'O coronel que raptava infâncias', um soco na alma | Diário do Porto


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‘O coronel que raptava infâncias’, um soco na alma

Livro no jornalista Matheus de Moura conta trajetória de policial envolvido em política corporativa, negócios suspeitos e pedofilia

28 de agosto de 2021



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Olga de Mello

Olga de Mello

Talvez a única beleza de O coronel que raptava infâncias (Intrínseca, R$ 49,90) esteja em seu melancólico título. Poderia ser roteiro de minissérie televisiva sinistra, a trajetória de um policial envolvido em política corporativa, negócios suspeitos e condenado à prisão por pedofilia. O cenário é um Rio de Janeiro a anos-luz de distância da imagem idílica vendida pelo turismo ou fomentada por quem vive nos bairros “nobres” da orla da cidade. A pesquisa detalhada na estreia literária do jornalista Matheus de Moura retrata a desigualdade social de uma metrópole em que o crime se sobrepõe à omissão do Estado.

A primeira versão do livro foi a base do trabalho de conclusão do curso de jornalismo de Matheus, que leu processos e entrevistou o máximo de envolvidos nos pavorosos episódios protagonizados por Pedro Chavarry Duarte, o coronel PM que foi flagrado com uma criança de dois anos, nua, dentro de seu carro estacionado em um posto de gasolina, numa noite em setembro de 2016. Havia anos que ele se apresentava como benfeitor de uma entidade de apoio a crianças muito pobres, cujo endereço os pais desconheciam, embora confiassem os filhos ao coronel para visitas à “sede da creche”. Vez por outra, ele percorria recantos esquecidos pelo poder público, vielas em aglomerações paupérrimas, dando fraldas, brinquedos e mamadeiras para mães em situação de abandono tão lastimável quanto a dos filhos. Para essas pessoas, Chavarry era quase um santo, que se empenhava em melhora as condições de vida das crianças.

Matheus de Moura não buscou qualquer desculpa patológica ao traçar o perfil de Pedro Chavarry Duarte, um homem que teria estado na folha de pagamento do contraventor Castor de Andrade, e cujo relacionamento dentro da corporação permitiu-lhe, ao longo de duas décadas, distribuir benefícios a desprovidos de qualquer apoio estatal – usando dinheiro público.

 


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A descrição dos personagens é objetiva, ainda que detalhe o sofrimento e a imensa carência desses sobreviventes abandonados pelo poder público – pessoas cujas condutas nem sempre seguem caminhos legais ou regulares, premidas pela necessidade de encontrar alimentos, roupas e algum tipo de teto. Chavarry surge como  agente de um poder paralelo, hoje assumido pelas milícias que dominam boa parte da cidade do Rio de Janeiro.

O coronel que raptava infâncias:

relato repugnante

Não há detalhamento sobre os maus tratos às crianças, apenas a menção sobre os casos, o que protege as vítimas, sem, no entanto, preservar a imagem de Chavarry ou justificar sua perversão. O contraste da religiosidade expansiva que o coronel dizia reger sua vida com os abusos a menores tornam mais repugnante o relato dos acontecimentos.

Embora a vilania de Chavarry permeie toda a narrativa, o que emerge do texto como elemento indissociável da tragédia cotidiana é a abissal desigualdade que envolve os personagens, muitos à beira da indigência. Matheus de Moura aponta como fator para a escalada pessoal de Chavarry sua condição de homem branco, enquanto a maioria de suas vítimas é negra. O militar tem origem modesta, porém está longe de padecer da carência das pessoas de quem se aproxima.  A corrupção lhe permitiu a ascensão social, mudando-se de um bairro menos afamado para a valorizada Barra da Tijuca, onde vai viver com a mulher e a filha, que, aparentemente, creditam a condenação de Chavarry – a onze anos de reclusão – à ação de inimigos políticos. Os leitores poderão creditar a brevidade da pena à ação de amigos. E à falta de políticas públicas, que poderiam evitar a recorrência de tantos crimes hediondos.

 


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