Brasil chora a maior tragédia de seu patrimônio histórico | Diário do Porto


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Brasil chora a maior tragédia de seu patrimônio histórico

Uma das maiores tragédias do Patrimônio Histórico do Ocidente, o incêndio que destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, mergulhou o Brasil no luto. Praticamente tudo foi destruído. Não houve prisão nem demissão, e ninguém renunciou ao cargo até agora.

3 de setembro de 2018



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Uma das maiores tragédias do Patrimônio Histórico do Ocidente, o incêndio que destruiu o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista mergulhou o Brasil no luto. Praticamente tudo foi destruído. O museu mais antigo do país foi fundado por Dom João VI em 1818. Tinha mais de 20 milhões de peças, entre elas o mais antigo fóssil humano encontrado no país, “Luzia”, o que torna iviável qualquer tentativa de mensurar o prejuízo da devastação. Até o início da madrugada de hoje, ninguém tinha sido preso ou demitido. Nem renunciado ao cargo.  

Incêndio destruiu a sede da Monarquia e o museu mais importante do país em seu bicentenário (Foto Agência Brasil)

Coleções de relevância internacional, formadas por gerações de pesquisadores ao longo de 200 anos, viraram cinzas, expondo ao mundo o desleixo irresponsável e criminoso com o qual os governos brasileiros tratam seu acervo histórico e cultural há décadas.

Não está claro o que provocou o incêndio, o que será investigado pela Polícia Civil. Felizmente, não houve vítimas, pois a visitação foi encerrada às 17h. Os vigilantes conseguiram sair antes de as chamas se alastrarem.

O Museu é administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 1946.  Entre seus 20 milhões de itens estava a maior coleção egípcia da América Latina, documentos da época do Império, fósseis, coleções de minerais e artefatos greco-romanos.

A beleza da sede da Monarquia na Quinta da Boa Vista, principal ponto turístico da Zona Norte (foto Roberto da Silva/Museu)

No ano de seu bicentenário, o museu, que foi a sede da Monarquia brasileira, ganhou de presente mais cortes orçamentários, fato comum em sua história. De nada adiantou a relevância de ter sido a sede da Monarquia brasileira nem a de seu rico acervo africano, pré-colombiano, grego, mediterrâneo, pré-histórico. Havia fósseis de animais desde a explosão cambriana, dinossauros, a megafauna do pleistoceno, como a preguiça gigante, e milhares de borboletas.

“Perdemos uma biblioteca insubstituível, com obras raríssimas como os livros da expedição de Napoleão no Egito e o diário de viagem de Dom Pedro II às pirâmides e a Luxor. Pesquisas em andamento viraram pó. A memória e a ciência brasileira e mundial estão em luto. Uma dor irreparável. Que nestas eleições, haja um compromisso dos políticos com a memória, a história e a ciência. Minha solidariedade a todos os trabalhadores e pesquisadores”, disse o professor Thomas de Toledo, doutorando em Arqueologia pelo MAE/USP.

O ministro da Educação, Rossiele Soares, prometeu o impossível: “O MEC não medirá esforços para auxiliar a UFRJ no que for necessário para a recuperação desse nosso patrimônio histórico.” Não é possível recuperar o que foi destruído.

O prédio, além de sediar a Monarquia, foi sede da primeira Assembleia Constituinte Republicana de 1889 a 1891 antes de virar museu, em 1892. É tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O presidente Michel Temer também lamentou a tragédia. Em nota, lembrou que foram “perdidos 200 anos de trabalho, pesquisa e conhecimento”. Temer classificou o episódio como perda incalculável. “Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento.” A nota acrescenta que “o valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos os brasileiros”.

O presidente só não falou sobre a responsabilidade de seu governo no corte de verbas para o museu. Agumas salas do prédio já estavam interditadas por risco de desabamento e pela ação de cupins.

Emocionada, a vice-diretora do Museu Nacional, Cristiana Cerezo, atirou-se ao chão ao chegar ao local. Ela afirma que havia muitos produtos inflamáveis no interior do prédio, mas que existia um plano para retirar essas substâncias do museu. “Infelizmente, a tragédia aconteceu antes”, afirmou. Tragédias são assim. Acontecem antes que alguém tome iniciativa para evitá-las.

*Atualizado às 7h de 03/09/2018


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