O Baobá vai voar nas asas da Portela | Diário do Porto


Carnaval 2022

O Baobá vai voar nas asas da Portela

Portela vai levar para Sapucaí a história do Baobá, milenar árvore africana que vai se encontrar com a lendária jaqueira da escola na Avenida

14 de abril de 2022

Símbolo da Portela, a poderosa água de Madureira vai voar mais uma vez sobre a Sapucaí (Tata Barreto/Riotur)

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Uma milenar árvore de origem africana, resistente ao fogo e capaz de armazenar até 120 mil litros de água, viajará de Oswaldo Cruz à Marques de Sapucaí nas asas da águia da Portela. O sagrado e imponente baobá será o tema do enredo de 2022 da azul e branco de Madureira.  Em “Igi Osè – Baobá”, os carnavalescos Renato Lage e Marcia Lage vão contar na Sapucaí a história do ancestral e imponente arbusto que seria um portal misterioso de contato entre o mundo sagrado e o humano.

E o que há em comum entre a sagrada árvore das planícies da África Subsaariana e a mítica jaqueira da Portela, árvore que deu sombra a lendas da agremiação como Paulo da Portela, Paulinho da Viola, Natal, Noca, Casquinha, Manacéia, Tia Surica, Clara Nunes e Monarco, este último morto recentemente e a quem a escola prestará reverência no desfile do sábado, dia 23. Quem conta é um dos compositores do samba-enredo da escola em 2022, Wanderley Monteiro.

“O que nós pensamos e decidimos foi fazer sempre uma alusão do Baobá com a própria jaqueira da Portela, com a própria Portela, da força, da importância do povo africano com o portelense e com a comunidade portelense. A gente fala da jaqueira sem citar a palavra jaqueira, quando a gente fala da primeira semente, sempre com uma alusão à África, Baobá com Portela. Começamos desde o plantio do Baobá até os benefícios, todos os benefícios que o Baobá nos entrega” disse Monteiro ao site “O Carnavalesco”.

Torcida da Portela tomou as arquibancadas da Marques de Sapucaí no ensaio técnico (Rafael Catarcione/Riotur)

Majestade quase centenária

Fundada em 11 de abril de 1923 em Oswaldo Cruz, na zona norte da então capital da República, a Portela completou 99 carnavais no último dia 11. É das escolas cariocas a mais antiga em atividade permanente, sendo a única a participar de todos os desfiles realizados na cidade. Foi inclusive a campeã do primeiro concurso carnavalesco não oficial realizado por Zé Espinguela, em 1929. Desde então, foram 22 títulos, sendo o último em 2017, quando dividiu a coroa com a Mocidade Independente de Padre Miguel. Apesar do longo jejum de conquistas nas últimas décadas, foram 33 anos sem gritar “é campeã” entre 1984 e 2017, a Portela ainda é a maior vencedora do Carnaval do Rio.

Nesse quase centenário, a “Majestade do Samba” escreveu algumas das mais lindas páginas do Carnaval carioca. Produziu obras-primas em formato de samba como “Seis Datas Magnas”, de Candeia e Altair Prego, que garantiu o título para escola em 1953 naquele que muitos consideram o maior desfile da história da Portela; o histórico “Lendas e Mistérios da Amazônia”, de Catoni, Jabolô e Valtenir, do desfile campeão de 1970, que teve na concentração a escola inteira cantando o recém-lançado “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”, do portelense Paulinho da Viola, o maior samba exaltação já feito a uma agremiação carnavalesca, “Hoje tem Marmelada”, de David Correa, Jorge Macedo e Norival Reis, que embalou a vitória de 1980 dividida com Beija-Flor e Imperatriz Leopoldinense e “Contos de Areia”, de Dedé da Portela e Norival Reis, vencedora do desfile de 1984, o primeiro da Era do Sambódromo e último antes do hiato de mais de três décadas interrompido em 2017.

Além de sambas antológicos, a azul e branco de Oswaldo Cruz também foi responsável por uma série de inovações na Avenida, como a introdução de alegorias no desfile de 1935 e de um grupo de violinistas da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, os “encasacados”, que se apresentou à frente da Tabajara do Samba, a bateira da Portela, no desfile de 1964, o último antes da longa e tenebrosa noite da Ditadura Militar no Brasil.

O discreto voo da águia em 2020

Desenvolvido por Renato Lage e Márcia Lage, o enredo “Guajupiá, Terra sem males”, contou a história dos povos indígenas que habitavam o Rio de Janeiro antes da chegada dos europeus. A Portela foi a sétima e última escola a entrar na Avenida no domingo, já com os primeiros raios de sol da segunda-feira iluminando a Sapucaí. Mas o resultado ficou muito aquém das tradições e grandeza da escola. O sétimo lugar tirou a “Majestade do Samba” do Desfile dos Campeãs, o que não acontecia desde 2013.

Veja abaixo e cante a letra do samba 2022 da Azul e Branco de Oswaldo Cruz aqui

“Igi Oṣè – Baobá”

Autores: Wanderley Monteiro, Vinicius Ferreira, Rafael Gigante, Bira, Edmar Jr, Paulo Borges & André do Posto

Intérprete: Gilsinho

Prepara o terreiro, separa a mucua

Apaoká baixou no xirê

Em nosso celeiro a gente cultua

Do mesmo preceito e saber

Raiz imponente da “primeira semente”

Nós temos muito em comum

O elo sagrado de ayê e orun

Casa pra se respeitar: meu baobá!

 

Obatalá colofé

Tem batucada no arê

Pra minha gente de fé ayeraye

Nessa mironga tem mão de ofá

Põe aluá no coité e dandá

 

Saluba, mamãe! Fiz do meu samba curimba

Mata a minha sede de axé

Faz do meu igi osè, moringa

Quem tenta acorrentar um sentimento

“esquece” que ser livre é fundamento

Matiz suburbano, herança de preto

Coragem no medo!

Meu povo é resistência

Feito um “nó na madeira” do cajado de oxalá

Força africana vem nos orgulhar

 

Azul e “banto”, aguerê e alujá

Pra poeira levantar, de crioula é meu tambor

Iluayê na ginga do meu lugar

Portela é baobá no gongá do meu amor


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