Turismo

Uma viagem no tempo para reviver história de negros e judeus

A encenação com atores/cantores representa uma rara oportunidade para a população do Rio conhecer o interior do Grande Templo Israelita, inaugurado em 1932, próximo à Praça da Cruz Vermelha. Durante as apresentações, são abordados a sua história e o contexto de época no Rio de Janeiro

28 de agosto de 2018
Visitas teatralizadas a templo na Praça Onze vão contar relação de judeus e negros na Praça Onze (Foto: Divulgação)

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templo judaico
Visitas teatralizadas a templo na Praça Onze vão contar relação de judeus e negros na Praça Onze (Foto: Divulgação)

A partir desta quinta-feira (30), cariocas e visitantes podem participar de um interessante programa turístico-cultural para quem está interessado em conhecer um pouco mais da rica história da região central do Rio de Janeiro. A Praça Onze vai receber uma visita teatralizada ao Grande Templo Israelita, que conta um pouco da história da região no início do século XX.

O roteiro original fala sobre os percursos da imigração no Rio de Janeiro. Atores e músicos usam o templo como cenário e contam parte da história do Centro do Rio e a relação dos judeus com as populações que já viviam na região, particularmente a maior de todas, formada pelos negros, com os quais compartilhavam pobreza e preconceito.

As tradições judaicas, com suas vestes, rezas, comidas, músicas e festas e até a Tia Ciata, que um dia, com seus conhecimentos da medicina africana, curou uma ferida na perna do presidente  da República, Venceslau Braz. Tudo isso faz parte dessa rica história.

Inaugurado em 1932 na Rua Tenente Possolo e com sua entrada principal na Rua Henrique Valadares, o prédio do Grande Templo é remanescente da expressiva comunidade judaica que vivia naquela região como uma extensão da Praça Onze no início do século XX.

A demolição de mais de mil imóveis entre 1941 e 1944 para construção da Avenida Presidente Vargas expulsou parte da população. O prédio do Grande Templo hoje é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan).

As visitas teatralizadas seguem até 29 de novembro, sempre às terças e quintas-feiras, com prioridade para escolas e grupos. O ingresso custa apenas R$ 1. Um domingo por mês haverá um espetáculo aberto ao público em geral.

Visitas teatralizadas a Grande Templo Israelita
Visitas teatralizadas a templo na Praça Onze vão contar relação de judeus e negros na Praça Onze (Foto: Divulgação)

De ‘prestamistas’ a fábrica de cerveja

O público conhecerá um pouco da vida urbana do Rio, com suas viagens de bonde e o intenso comércio local, onde “prestamistas” (ambulantes) dividiam espaço com açougues kosher, vendedores de bagels (rosquinhas trançadas salpicadas de gergelim), hospedarias, chapelarias, sapateiros, livrarias, casas de tecido, tipografias, cortiços, casas de cômodos e até fábricas, como a Manufactura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia, na Visconde de Sapucahi, entre outros negócios.

Além de conhecer as tradições judaicas e a crescente presença feminina nos rituais, é possível entender o processo de integração à cidade e marcos, como o da criação de cemitérios e sinagogas. A relação com os negros que viviam na região também é abordada em fatos como a frequente perseguição aos músicos. João da Baiana, por exemplo, teve seu pandeiro apreendido pela polícia e era comum as rodas de batuques serem desmontadas e seus frequentadores presos.

Antes do Grande Templo duas outras sinagogas já haviam sido construídas na região, a Beith Yaakov e a Beth Israel, mas que já estavam pequenas para reunir toda a comunidade judaica.  Uma grande campanha foi lançada para arrecadar recursos destinados a erguer o novo templo. Um concurso organizado pela comunidade judaica em 1928 foi vencido pelo arquiteto italiano não-judeu, Mario Vodret (também responsável pelo Parque Lage). A visita começa pela escada de entrada e circula por diferentes ambientes do templo.

O dia em que a “Tia Ciata” curou o presidente

As duas sinagogas mais antigas foram derrubadas junto com outros cerca de mil imóveis, entre eles o ateliê de Mestre Valentim e quatro igrejas seculares, como a de São Pedro dos Clérigos em estilo barroco – que ficava exatamente no meio do traçado da nova via – e a  Casa de Tia Ciata,  como era conhecida a negra baiana Hilária Baptista de Almeida. Ela, além de percorrer as ruas da região vendendo quitutes, era uma Iya Kekerê, ou seja, a principal auxiliar do pai de santo do candomblé que frequentava.

A história sobre a cura da ferida de Venceslau Braz, contada na visitação, começa quando  João, marido da Tia Ciata e que trabalhava no gabinete do chefe de polícia do presidente, ofereceu o serviço. O presidente da República aceitou o convite e foi até a Casa de Ciata, que o curou. A partir dali a casa virou um oásis para os negros, que puderam realizar suas rodas de samba no quintal do imóvel de número 117 da extinta Rua Visconde de Itaúna sem a perseguição da polícia.

Nasce uma avenida, morre um bairro

A demolição dos imóveis ocorreu entre 1941 e 1944 para construção da Avenida Presidente Vargas. O processo envolveu a retirada de parte da população pobre formada por imigrantes e negros, muitos ex-escravizados, que haviam ocupado antigos casarões já deixados para trás pelas elites que haviam se deslocado para bairros como Catete, Botafogo, Laranjeiras e Tijuca.

Foi mais uma etapa na longa história da região, então conhecida como Largo do Rocio e que era um mangue, pouco habitada. A sorte começa a mudar na primeira metade do século XIX, ainda no Segundo Reinado, quando começa a ter a atenção do governo. Para abastecer a região foi projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny um chafariz em pedra, instalado na praça central. O batismo como Praça Onze de Junho só ocorre mais adiante, em uma homenagem à vitória brasileira na batalha do Riachuelo ocorrida neste dia durante a guerra contra o Paraguai em 1865.

O roteiro é de Daniela Chindler, com direção de Augusto Pessoa e pesquisa da antropóloga Juliana Portenoy e da historiadora Adriana Xerez. Em cena os atores Júlia Drummond, Diana Vaisman,  Nano Max e Gabriel Hipollyto apresentam músicas da tradição judaica. O projeto conta com o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e da Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei do ISS.

Serviço

Evento: “Grande Templo – Visita Teatralizada”

Período: 30 de agosto a 29 de novembro, às terças e quintas-feiras e sempre no último domingo de cada mês.

Local: Grande Templo Israelita – Rua Tenente Possolo, 8 – Centro

Público:  visitas agendadas para escolas e grupos fechados. Domingos abertos ao público.

Inscrições: 2556-5612 (das 14h às 17h), ou pelo e-mail.

Valor: R$ 1,00

Faixa etária: maiores de dez anos

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