Negacionismo na crise elétrica custará caro, dizem especialistas | Diário do Porto


Energia

Negacionismo na crise elétrica custará caro, dizem especialistas

Governo Bolsonaro repete negacionismo da pandemia na crise elétrica. Má gestão trará graves prejuízos econômicos e sérios danos ambientais,, alertam especialistas

29 de julho de 2021

José Goldemberg alerta que aposta em usinas térmicas é erro grave do País (divulgação)

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Assim como na pandemia da Covid-19, o Brasil pagará um preço alto pelo negacionismo do governo federal na crise elétrica. A falta de transparência e a postura omissa do Executivo diante da intromissão de parlamentares no planejamento energético tornam a Nação mais vulnerável a apagões e elevação do Custo Brasil. O alerta é de alguns dos maiores especialistas brasileiros na questão elétrica, reunidos pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) que assinam o artigoO enfrentamento das crises hídricas: o papel das energias renováveis na construção de uma matriz elétrica mais resiliente e de menor custo.

Um dos autores do artigo (em anexo) é o físico José Goldemberg, que já foi ministro de Educação,secretário nacional de Ciência e Tecnologia,reitor da USP e presidente de quatro grandes estatais do setor elétrico. Para evitar os cortes de energia a partir de novembro, segundo ele, o pior que o governo poderia fazer é o que tem feito: não preparar a população para as emergências. “É parecido com a atitude na pandemia: o governo sabia do problema, mas não estimulou a vacinação. Agora deveria dizer que a situação é grave e tomar providências sérias, como usar as energias renováveis – eólica e solar – para economizar água e encher os reservatórios. Se isso não for feito agora, teremos muitos problemas”, diz Goldemberg.

Também assinam os artigos os engenheiros Luiz Barata e Amanda Ohara. Barata foi diretor geral do Operador do Sistema Nacional (ONS) e secretário executivo no Ministério de Minas e Energia, além de ter ocupado funções técnicas e gerenciais em Itaipu, Eletrobras e Furnas. Amanda Ohara é mestre em Planejamento Energético e atuou como coordenadora técnica do Instituto E+ Transição Energética, coordenadora e consultora da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) – Agência Alemã de Cooperação Internacional– e em funções técnicas e de coordenação na Petrobras.

Paliativo emergencial

Os autores concordam com o acionameno de térmicas como solução emergencial, mas apontam o investimento em fontes renováveis, como eólica e solar, como a opção mais econômica e eficiente para evitar que os reservatórios das hidrelétricas continuem operando em nível crítico – atualmente, o mais baixo em mais de 90 anos. “Os reservatórios são a grande bateria de reserva do Brasil, e a melhor forma de carregá-la, enchendo as represas, é gastar a energia das fontes renováveis”, resume Luiz Barata.

Para Goldemberg, o planejamento brasileiro sempre funcionou bem porque havia reservatórios com água suficiente. “Mesmo nas crises, eles permitiam aguentar por dois anos. A água que temos hoje só aguenta alguns meses, há uma negligência total quando o governo não prepara a população para os dias difíceis que teremos pela frente e não planeja encher os reservatórios investindo em energias renováveis”, complementa.

Goldemberg, Barata e Ohara apontam como erro histórico a omissão do Executivo diante das emendas do Congresso à Medida Provisória de privatização da Eletrobras, que introduziu politização inédita no setor, interrompendo a tradição de robustez no planejamento energético brasileiro desde os anos 1960. “O planejamento do sistema elétrico não está sendo feito pelos órgãos especializados, como a Empresa de Pesquisa Energética (EPE)e o Ministério das Minas e Energia, mas por deputados e senadores, atendendo a interesses eleitorais regionais. A ênfase no uso do gás vai enriquecer alguns setores, mas não resolverá o problema brasileiro. Vamos ter problemas sérios a partir de novembro”, prevê o ex-ministro.

“O governo tem seguido o padrão negacionista. Ele cria comitê de crise, mas não encara a urgência necessária nem envolve todos os interessados, como a Agricultura, profundamente impactada pela falta de água nos reservatórios”, aponta Amanda Ohara. “Há ausência de fundamentação técnica e científica nas ações oficiais, a aposta é feita em soluções opostas às apontadas por estudos, como foi na pandemia. É um erro grave que pode amarrar nosso sistema elétrico por muitos anos a soluções caras, a contratos fixos com térmicas de combustível fóssil, na contramão de estudos e da tendência mundial.” A intervenção do Congresso na MP da Eletrobras elevou de R$ 64,6 bilhões para R$ 71,2 bilhões a previsão de gastos do país com térmicas até 2030.

 

Ohara vê negacionismo do governo na crise elétrica (divulgação)

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Custo financeiro e ambiental

O desmantelamento das instituições do setor, segundo Amanda, ficou claro na MP Eletrobras, quando parlamentares forçaram a contratação de térmicas a gás fora de qualquer previsão do Executivo, a quem cabe planejar. “Isso desautoriza as instituições preparadas para comandar o processo, e as consequências serão o aumento do custo Brasil, o preço alto da energia elétrica, perda de competitividade quando país mais precisa retomar o crescimento. O Brasil desperdiça a oportunidade de ocupar um papel central na descarbonização e se enfraquece geopoliticamente”, lamenta Amanda.

Luiz Barata ressalta que a gestão de Jair Bolsonaro interrompe um “histórico excepcional de planejamento energético”, iniciado na década de 1960. “Ao não reagir contra as emendas à MP da Eletrobras, o Executivo abriu mão de sua função de planejar e deixou o setor elétrico vulnerável como nunca.” Barata comparou o momento atual com a crise elétrica de 2001, último ano de Fernando Henrique Cardoso. “Em 2001 houve uma primeira postura de negação, mas logo o governo reconheceu o problema, passou a atuar com transparência e clareza e a sensibilizar a sociedade para colaborar. Temos hoje uma matriz mais diversificada. A participação hidrelétrica era de 80%, e hoje é pouco superior a 60%. Mas a crise hídrica é bem mais profunda do que em 2001”, compara Barata.

 

Para Barata, crise hídrica atual é pior que a de 2001 (divulgação)

 

Aposta na energia limpa

É a pior situação em 91 anos, ressalta o engenheiro, e apesar disso o governo não age, por motivos políticos, com a transparência adotada em 2001. “Isso é crucial para superar a crise, que precisa ser atacada do lado da oferta e também da demanda por energia. O impacto pode ser como o racionamento de 2001 ou a ocorrência de desligamento de determinadas regiões, por impossibilidade de atendimento.”

A crise não apareceu de uma hora para outra, segundo ele, assim como o comportamento negacionista do governo. “No fim do período seco do ano passado, já tínhamos uma ideia do que vinha pela frente. Aí veio o negacionismo e a decisão de não ser transparente. A verdade não assusta, mas prepara as pessoas para os problemas que virão” , afirma o especialista.

E como resolver o problema? “Agora não tem outro jeito, é acionar as térmicas existentes, tentar capturar migalhas e atuar sobre o consumo. Mas a melhor solução para o futuro, mesmo a curto prazo, são as térmicas. Leva-se 3 a 5 anos para construir uma térmica de combustível fóssil, e muitas estão dando problemas, enquanto os parques eólicos e solares entram em operação com rapidez excepcional. A energia renovável é mais barata, menos agressiva ao ambiente e tem uma resposta de produção muito mais rápida, permitindo que os reservatórios recuperem os níveis de água de 10 a 20 anos atrás”, disse Barata.