Museu Nacional sobrevivia graças à ajuda da comunidade científica

Tema de abertura do encontro de museus e centros de ciências nesta terça (11), no Museu do Amanhã, o Museu Nacional, em São Cristóvão, vinha sendo mantido ao longo dos últimos quatro anos graças à dedicação e solidariedade da própria comunidade acadêmica. Ao DIÁRIO DO PORTO, professores e estudantes descrevem o estado de abandono e a interrupção de trabalhos científicos

(Foto: Bruno Menezes)
Estudantes se consolam diante dos escombros do Museu Nacional (Foto: Bruno Menezes)

Destruído por um incêndio no último dia 2, o Museu Nacional, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, foi o tema central do debate no Museu do Amanhã na tarde desta terça-feira (11), primeiro dia do 3º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Centro e Museus de Ciência (ABCMC).

O painel Museu Nacional e os 200 anos de museus de Ciência no Brasil, realizado a partir das 16h no Museu do Amanhã, conta com a presença de Alexandre Kellner, diretor do Museu Nacional. Com mediação de José Ribamar, presidente da ABCMC, a mesa-redonda terá ainda a presença de Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Participam também do debate Luciane Gorgulho, chefe do Departamento de Economia da Cultura do BNDES; e Paulo Knauss, diretor do Museu Histórico Nacional. O 3º Encontro Nacional da ABCMC acontece até sábado, no Museu do Amanhã (veja mais aqui).

Em reportagem no local, no dia seguinte ao incêndio que destruiu o prédio histórico e cerca de 90% dos acervos, o DIÁRIO DO PORTO apurou que o Museu Nacional vinha sendo mantida ao longo, pelo menos, dos últimos quatro anos graças à dedicação e solidariedade da própria comunidade acadêmica.

Com o quinto maior acervo do mundo, o edifício erguido por Dom João VI, que foi sede do Império e posteriormente primeira instituição científica do país, sofria com problemas estruturais desde 2016, segundo um relatório interno, além de cortes orçamentários desde 2014.

‘Tragédia anunciada e consumada’, diz Sociedade de Geologia

Estudantes visitam Museu Nacional
Estudantes de Geologia visitaram o Museu Nacional dia 23 de agosto, durante a programação de congresso brasileiro no Rio (Foto: Divulgação)

O 49º Congresso Brasileiro de Geologia, aberto no Museu Nacional no último dia 20 de agosto com cerimônia especial em homenagem aos seus 200 anos, já alertava para a situação de precariedade vivida pela instituição. Foi o último evento realizado no local e o ponto escolhido foi a bela Sala da Baleia, hoje totalmente destruída.

Alexandre Kellner e Ildeu de Castro Moreira, do SBPC, também participaram de uma mesa redonda durante o 49CBG, em que levantou o estado de penúria do Museu Nacional, além do pedido de ampliação de suas dependências. “Foi uma tragédia anunciada e consumada”, pontuou a Sociedade Brasileira de Geologia (SBG), em posicionamento oficial após o incêndio (veja aqui).

Estudantes visitam Museu Nacional
Estudantes de Geologia visitaram o Museu Nacional dia 23 de agosto, durante a programação de congresso brasileiro no Rio (Foto: Divulgação)

A Comissão Organizadora do 49CBG lembrou que este foi o primeiro ponto da ‘Carta do Rio’, documento elaborado ao final do evento, cobrando mais apoio ao espaço (leia na íntegra). E  também se posicionou sobre o incêndio, lembrando, inclusive, a indiferença da mídia em relação a inúmeros apelos envolvendo o Museu (leia aqui).

Ainda na ocasião, a SBG também publicou uma moção de apoio ao Museu Nacional na luta por sua expansão patrimonial, garantindo, assim, sua consolidação e revitalização. O objetivo era pedir a incorporação ao patrimônio do Museu de um terreno na Quinta da Boa Vista, de propriedade da União (veja a moção aqui).

Comunidade científica ajudava na manutenção

Ao DIÁRIO DO PORTOJhone Araújo, de 29 anos, pós-doutorando em Geologia pela UFRJ, contou que o espaço era mantido graças à cooperação informal da própria comunidade acadêmica, não raro com deslocamentos de função e a realização de vaquinhas.

“Essa solidariedade entre funcionários, professores e estudantes pelo espaço não é uma realidade só aqui no Museu, mas também no Fundão, em toda a UFRJ, é uma constante”, descreve Jhone, que frequentava o Museu Nacional há 12 anos, primeiro como visitante e posteriormente como pesquisador da iniciação científica.

“Aqui no Museu não era diferente, era vaquinha, cada um trazendo algum material.É muito sensível para nós, pois todo mundo era apaixonado, deu o seu melhor e tentou o quanto pôde”, desabafa.

No local, Jhone também trabalhou com flutuação do nível do mar e reconstituição tridimensional de peças antigas. “Torço para que estejam na nuvem, diversos materiais estavam sendo digitalizados”, conta ele.

Na quinta-feira passada (dia 6), o geólogo daria uma palestra no Museu Nacional sobre Geoconservação. “Os prédios e suas fachadas também são patrimônio geológico, as rochas que estão nele. Isso aqui vai ser exemplo de desleixo, de descaso para o mundo inteiro.”

Veja mais em: Estudantes de luto vão à luta pelo Museu Nacional

Chefe da Museologia lamenta fim do setor

Marco Aurélio Caldas, chefe da seção de Museologia do Museu Nacional, estava em casa, quando um colega avisou que estava havendo um princípio de incêndio. “Imediatamente, peguei um táxi e vim, pensando em ajudar a controlar o fogo. No meio do caminho, me passaram uma imagem e eu congelei. Quando cheguei, chorar foi a única coisa que consegui fazer. Era chefe, né, não tem mais, minha seção desabou ali”, contou ao DIÁRIO DO PORTO.

O acadêmico foi um dos poucos funcionários que puderam acompanhar o trabalho de resgate e perícia realizados pela Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Polícia Federal. Ele cogita a possibilidade de um curto-circuito ter sido a causa do incêndio, mas não faz ideia de como chegou a tais proporções. “Deve ter sido algo muito forte, para as chamas subirem daquela forma. Quando cheguei, as labaredas já estavam consumindo os telhados”, especula.

Caldas está desiludido quanto à recuperação e mesmo à continuidade das principais pesquisas desenvolvidas na instituição. “A esperança que a gente tinha era encontrar material rochoso, como o Meteorito de Bendegó (que foi achado). Agora, material orgânico, a perda é praticamente total. As múmias, os móveis, que eram do Museu da Marquesa de Santos e aqui se encontravam em comodato, todas as reservas, insetos, o arquivo histórico Semear, que era importantíssimo, tudo isso virou cinzas”, explica, perplexo.

“As pesquisas do DGP, do Departamento de Vertebrados e Invertebrados, Entomologia, Arqueologia, Antropologia, Etnologia, Historiografia, todas eram extremamente importantes.” Caldas cita como exemplo os estudos indígenas do setor de Linguística do departamento de Antropologia, que guardava gravações originais de línguas de povos já extintos.

“Era uma referência para o Brasil e todo o mundo, gravações e pesquisas únicas de muitos grupos indígenas. Se alguém tem isso salvo em algum lugar, vai dar continuidade, se não, vai ser marco zero”, comentou, lembrando que a tragédia tem sido equiparada ao que na França equivaleria à destruição da Biblioteca de Alexandria.

“O passado se perdeu. Sobre o presente a gente não sabe, e o futuro, muito menos. O que vai ser feito com as pesquisas que estavam em andamento aqui? Se alguém conseguiu salvar algum backup…“, afirma, desolado.

Estudantes lembram estado de abandono

(Foto: Bruno Menezes)
(Foto: Bruno Menezes)

O clima no local no “day after” era de muita tristeza. “Era só esforço, só amor. O museu só continuava porque a gente acredita e ama muito o que faz”, desabafou Beatriz Camisão, doutoranda em Geologia pela UFRJ, abraçada a sua amiga, Ana Luíza Pimenta, com quem cursou o mestrado no Museu Nacional. “Não tinha dinheiro para absolutamente nada, não tinha investimento, não tinha água, não tinha luz, tinha dia que faltava tudo, não ter internet era normal.”

“O chão afundava porque estava comido de cupim, não tinha sistema de incêndio, não tem nem alvará dos bombeiros para funcionar. Há dois anos, fecharam as exposições por falta de dinheiro para pagar os terceirizados da segurança e da limpeza, olha o nível da coisa”, descreveu Beatriz, atônita.

Ela conta que a fatalidade não impactará tanto a conclusão de seu doutorado, pois já escreveu sua tese, mas que essa infelizmente não é a sorte de seus colegas. “Tem gente que perdeu todo o material do doutorado, e vai ter que começar o projeto do zero. São anos de dedicação”, relata Beatriz. “É o fim de toda a pesquisa, do esforço de muita gente, que ajudou a construir isso aqui. Tudo destruído. É muito triste”, resumiu, aos prantos.

“A nossa sala de aula era essa aqui, a coleção de entomologia, que era lá atrás, despencou do terceiro andar. A gente viu fotos de tudo retorcido, são 200 anos de pesquisa, a vida inteira de vários pesquisadores, incluindo todos os nossos amigos”, protestou Beatriz.

Ex-aluna ajudou bombeiros na noite do incêndio

Chorando muito com uma rosa em suas mãos, uma ex-aluna da UFRJ e doutoranda em Biologia conta que ajudou os bombeiros na noite do incêndio, mas que foi tratada com hostilidade pela polícia. “Eu estava lá fora agora, levando bomba e gás na cara, tentando entrar, só para chegar aqui e poder ver.”

“Ontem (2) à noite eu também estava aqui, tentando ajudar, porque os bombeiros não tinham água para apagar o fogo. A gente corria trazendo água, e quando chegava na porta do Paço (Imperial) para tentar entregar, levava uma escorraçada, como se a gente que tivesse colocado fogo no museu”, desabafou.

“É dia após dia. O nosso museu acabou de pegar fogo, e tem helicóptero, tem guarda, tem gás, tem bomba, então a gente apanha no coração, a gente apanha no corpo, a gente apanha na alma. Eu me sinto com pouquíssima força nesse momento, mas a gente precisa se unir”, lamentou Johne.

“A gente sofre de todos os lados, contra a ciência, contra a educação nesse país, a toda hora é alguma coisa tentando fazer a gente parar, mas a gente não vai parar”, sentenciou, emocionada, a estudante, que frequentava o palácio desde criança.

Célia, de 62 anos, moradora local formada em relações públicas, conta que o incêndio começou a se alastrar do interior direito da edificação e que às 22h ainda restava intacta toda a metade esquerda do Museu. Ela também acionou os bombeiros.

 

(Foto: Bruno Menezes)
Estudantes foram ver de perto os trabalhos dos bombeiros (Foto: Bruno Menezes)

“A nossa história está indo embora. Olhar para a ruína do museu e ver o céu entre as janelas nos faz pensar: ‘tomaram tudo da gente’. Você viu a cara da minha amiga, ninguém aqui está acreditando”, disse Jhone, sobre sua colega de iniciação científica Gisele Rihz, que estava aos prantos. Ela atuava no Departamento de Geologia e Paleontologia (DGP) do Museu, que continha substâncias químicas inflamáveis.

“Algumas pessoas vieram aqui na madrugada, viram as explosões, isso foi um pouco impactante”, relata. Estudantes vasculharam o entorno da construção, na tentativa de encontrar restos de artefatos que poderiam ter sido atirados pelas explosões, que também foram ouvidas por uma moradora com vista privilegiada.

‘Parece um velório’, diz estudante

“Parece um velório”, disse a estudante de biologia da Unirio Ana Cristina, que sonhava em estagiar no museu. “É muito triste ver destruída uma instituição desse porte, dessa idade e com esse nível de importância nacional e internacional.” Ela disse se lembrar do museu bem conservado quando o visitou pela última vez em 2012, mas que depois tomou um susto ao ver fotos recentes.

Sua mãe, Ana Lúcia, também teve seu sonho interrompido. “Eu trazia muito meus filhos aqui, e o que fica é uma dor no coração por saber que não poderei trazer os netos.”

Caroline Guerra, de 25 anos, estudante de biologia da UFRJ, também protestou. “Estamos todos desolados, porque um museu como esse é cultura para a população, para as crianças, para o futuro do nosso país, mas aqui também se fazia muita pesquisa científica. Não se resgata fósseis antigos e peças históricas que não se encontram em nenhum outro museu no mundo, é um dano irreparável. Um descaso enorme, o museu vinha recebendo menos da metade do orçamento. Por falta de aviso não foi.”

(Foto: Bruno Menezes)
O clima em frente ao Museu era de velório: muitos choravam (Foto: Bruno Menezes)

“Tem que chorar, tem que pedir, tem que espernear, tem que dizer ‘pelo amor de Deus’, tem que mostrar a importância, tem que repetir, tem que mostrar três, sete, vinte vezes a importância. Em uma sociedade que valoriza seus jovens, sua educação, sua história, a gente nem precisaria pedir nada e isso aqui seria um espaço pujante”, refletiu Johne Araújo.

Segundo ele, o Museu necessitava de pouco mais de meio milhão de reais para se manter de pé. “O que são R$ 520 mil (necessários para manter o Museu)?”, indaga Johne, citando o recente reajuste aos ministros do STF, “mas a gente pode dar milhões de exemplos. Como que a gente paga tanto para eles (ministros) e não cuida de um patrimônio desse? Ninguém aqui vê isso como gasto, é investimento em educação, é o que pode fazer o nosso país mudar”, lamentou.

Enquanto a sociedade se mobiliza em torno do problema da precarização do patrimônio histórico no Brasil, as palavras de Renato Ramos, ex-diretor do Museu Nacional são comungadas unanimemente por docentes, discentes e funcionários da primeira instituição científica do país, e provavelmente por toda a população: “Parece que caiu um avião com todos os nossos parentes”. E junto com eles, ancestrais da sociedade brasileira, o seu legado.

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Reportagem de Bruno Menezes, com edição de Rosayne Macedo. Colaborou: Lizzie Nassar

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