Museu do Amanhã quer rodar a Região Metropolitana

Agenda itinerante só depende de patrocinadores, diz presidente Ricardo Piquet, em entrevista exclusiva à editora do DIÁRIO DO PORTO, Rosayne Macedo. ‘Nosso maior concorrente é a praia’, revelou

Ricardo Piquet é presidente do IDG (Instituto de Gestão e Desenvolvimento), responsável pela gestão do Museu do Amanhã  (Foto: Divulgação)

Por Rosayne Macedo (rosayne@diariodoporto.com.br)

Numa sala com vista para o belo pôr do sol da Baía de Guanabara, que se descortina quase o ano inteiro, Ricardo Piquet recebeu o DIÁRIO DO PORTO para um longo e descontraído bate-papo. No embalo do recorde de 3 milhões de visitantes, alcançado no final de agosto, o presidente do Museu do Amanhã já antecipava o orgulho de ver a instituição ser indicada para o ‘Oscar dos Museus’, prêmio que recebeu dias depois em Londres.

Nesta entrevista exclusiva, Piquet critica a descontinuidade do projeto de revitalização do Porto Maravilha – paralisado por falta de recursos da Caixa – e fala com orgulho da relação com as comunidades vizinhas. Além de abrir as portas para receber, de graça, o ano inteiro, moradores da região e acompanhantes, o espaço destina 20% de suas vagas à população local, ideia que pretende levar para outros museus da cidade.

Formado em Engenharia e mestre em Administração e Marketing pela FGV, com especializações em Harvard e MIT, Piquet também analisa a situação de outros museus a partir da tragédia do Museu Nacional; diz que a população deve aprender a cuidar de seus equipamentos culturais, e alerta para a situação precária de boa parte dos museus, que dependem quase exclusivamente de recursos públicos.

O presidente do ‘museu mais querido’ do Rio também fala sobre as dificuldades financeiras que impedem um planejamento de médio e longo prazos – a programação do terceiro aniversário, em dezembro, e de verão ainda não saiu – e antecipa ao DIÁRIO DO PORTO o plano de levar uma agenda itinerante a outras cidades da Região Metropolitana do Rio – se a população não vai ao museu, o museu vai até ela…

Pai de dois filhos – uma delas é arquiteta e museógrafa em Amsterdã (Holanda) – e avô de dois netos, Piquet é natural de Recife (PE) e vai todo mês à capital pernambucana para visitar a família e “dar uma calibrada” no sotaque nordestino. Dinâmico, faz ginástica para equilibrar a agenda sempre lotada à frente do Museu do Amanhã e demais projetos que coordena, incluindo viagens às principais metrópoles do mundo para representar a instituição nos mais importantes eventos do setor.

Antenado com os principais temas que norteiam a agenda do Museu do Amanhã, como os novos modelos de mobilidade urbana, Piquet vai geralmente de VLT, metrô ou Uber para o trabalho. Nas horas vagas, confessa ser frequentador do vizinho Museu de Arte do Rio (MAR) e, sempre que possível, aproveita as areias de Ipanema. Aliás, a praia é o principal ‘concorrente’ do Museu do Amanhã. E pelo sucesso até aqui, tem tudo para continuar sendo o único.

Experiência profissional

No cargo antes mesmo de o novo ícone do Porto Maravilha abrir as portas, no final de 2015, Piquet, de 54 anos, acumula 25 de experiência em museus de todos os portes. Como o Passo do Frevo em Recife (PE), a Casa de Cultura de Paraty (RJ), o Museu da Língua Portuguesa (SP) e o Museu do Futebol (SP) – todos vinculados à Fundação Roberto Marinho, da qual foi presidente por 12 anos.

Como presidente da Fundação da Vale do Rio Doce, também comandou o Museu da Vale. Antes, como diretor da Empresa de Urbanização de Recife, coordenou a revitalização da região histórica do Recife Antigo. Empreendedor cultural, Piquet está desde 2011 à frente do IDG (Instituto de Gestão e Desenvolvimento), uma organização sem fins lucrativos criada por ele para inovar e modernizar práticas de governança em grandes empreendimentos culturais nas artes, ciência e tecnologia.

Atualmente, além do Museu do Amanhã, o IDG é responsável pela gestão do Paço do Frevo (PE) e o Plano Anual de Atividades do Teatro Santa Isabel (PE). Também atua como gestor operacional e financeiro do Fundo da Mata Atlântica (RJ). Por conta da projeção que o Museu do Amanhã ganhou em nível internacional, Piquet participa de diversos projetos ao redor do mundo, voltados para o desenvolvimento do mercado de museus.

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Museu do Amanhã impressiona com sua arquitetura moderna e programação variada (Foto: Alexandre Macieira/Riotur)

OS 3 MILHÕES DE VISITANTES

  • Hoje o Museu do Amanhã é o maior ícone do Porto Maravilha revitalizado. Como vocês conseguiram alcançar a marca de 3 milhões de visitantes? Qual é a próxima meta?

Eu sou entusiasta do projeto do Porto Maravilha. Há muitos anos que se fala de um projeto desta natureza para recuperar a Zona Portuária. Sempre se falava de Buenos Aires (Puerto Madero), por que não fazer algo semelhante aqui? Depois veio Belém (PA), com atuação no porto. Aonde você vai tem uma área com uma zona portuária revitalizada, em Lisboa (Portugal), o que é muito legal.

A ideia desse projeto do Porto Maravilha, contemplando os vários aspectos de intervenção, de infraestrutura, áreas que não aconteceram de habitação e entretenimento são fundamentais para o mix de uso. No Museu do Amanhã estamos muito envolvidos com outros players do Porto, para contribuir de alguma forma para  que esse projeto vá à frente.

Desde o começo a gente teve a preocupação primeiro de chegar com uma certa cautela e pedindo licença a quem já estava aqui antes da gente. Conversando com os moradores, apresentando o Museu, a proposta, a obra. Depois, inaugurando antes para os moradores, nossos vizinhos, do que para o grande público. Depois, envolvendo os líderes da região para discutir aqui no Museu quais os caminhos, as melhorias, como isso tudo pode impactar positivamente na vida dessas pessoas.

Na paralela, a gente ampliou a programação de qualidade, com volume grande de eventos a cada ano, para criar motivos para o carioca vir aqui mais de uma vez por ano – o ideal é que venha três vezes ao ano. Nós temos hoje um conjunto de visitantes, um volume acima do esperado, acima do que a prefeitura inclusive previa. Acho que foi uma surpresa para todo mundo e uma notícia positiva para o Rio num momento de tantas notícias ruins.

Chegar a 3 milhões antes de completar três anos significa mais de 1 milhão de média por ano de visitantes, que é um número relevante em qualquer lugar do mundo. Conseguimos colocar 1 milhão de visitantes, com grau de satisfação acima de 90%, colocando uma qualidade nesse número, não só de satisfação, também da diversidade sócio-cultural das pessoas que vêm frequentar esse Museu.

A gente vê um percentual de mais de 40% que não são habituais de museus e 15% que nunca vieram ao Museu. Isso significa que meio milhão de pessoas nunca estiveram em um museu antes de visitar o Museu do Amanhã.  Isso abre oportunidade para que essas pessoas possam visitar outros museus, quebrar um certo receio de que esse espaço não era para elas, conhecendo esse mundo dos museus a partir deste aqui.

A gente tem certeza que essas 3 milhões de pessoas, de alguma forma, entraram aqui e saíram melhores para pensar esse amanhã a partir da experiência que viram aqui. Mais importante que a quantidade é a qualidade, mas a quantidade é importante para qualquer balanço que se faça de um equipamento desse porte.

RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES

Projeto Entre Museus proporciona visitas de estudantes da região a espaços culturais (Foto: Guilherme Leporace)
  • Como é relação com as comunidades da Região Portuária? Qual é o papel do Museu para formar público para o hábito de frequentar museus, como ocorre em outras cidades?

O Projeto Entre Museus é uma continuidade desse trabalho com os vizinhos, na medida em que a gente passou a levantar, nas 45 escolas da região do entorno, onde moram 30 mil pessoas, como interagir mais fortemente com o Museu a partir de um incentivo pautado neste propósito. A gente desenvolveu esse projeto, por essa mesma área, para poder trazê-los aqui. E mais: a partir desse contato com o Museu, eles podem conhecer mais 23 museus que ficam na cidade. A gente oferece a oportunidade a alunos, professores e até pais de visitarem esses museus.

O Rio de Janeiro é a maior cidade cultural do Brasil e, por incrível que pareça, tem índice baixo de hábito cultural regular. A gente acredita que esses jovens que tiveram essa experiência, que passaram a perceber isso de maneira diferente, serão os decisores lá na frente. E poderão tomar suas decisões considerando a experiência e o conhecimento que tiveram sobre a nossa cultura.

É um projeto que faz com que as pessoas se conectem com a cidade, com as outras experiências, e o bacana é que a gente teve uma receptividade grande não só dos alunos, professores e dos pais, mas também dos outros museus. São 23 museus que passaram a aceitar a carteira gratuita que nós entregamos para os vizinhos, que dá acesso gratuito em qualquer dia do ano, para visitar o museu com um acompanhante.

Por exemplo, um pai ou uma mãe que só têm o fim de semana para visitar, com o vizinho poderá visitar gratuitamente, em qualquer dia do ano, qualquer um desses museus que fazem parte do circuito. É um projeto do Museu do Amanhã que foi estendido para os parceiros.

Temos ainda um dia gratuito que é terça-feira; temos uma série de atividades voltadas para os vizinhos, como o  seminário 360 graus para discutir essas questões e também o seminário das matrizes africanas, que começou ano passado com o registro do Cais do Valongo pela Unesco como patrimônio da Humanidade. Essa é ideia que a gente tem para manter a nossa relação próxima.

Além disso, por princípio, a gente tem uma abertura para contratar vizinhos: 20% de nosso efetivo vêm da comunidade, desde o primeiro dia. Hoje, dá mais ou menos 30 pessoas, em diferentes funções. O percentual é esse, quanto mais melhor, se tiver mais pessoas fora desse percentual, habilitados para outras funções, serão contratados, claro (que pode aumentar), mas esse é um patamar que a gente definiu como mínimo.

Confira abaixo uma rápida entrevista de Ricardo Piquet à fanpage do Diário do Porto:

 

CULTURA E INSERÇÃO SOCIAL

  • Qual o papel da cultura para a inserção social?

Trabalho com cultura há muito tempo, mas hoje a gente trabalha num espectro mais amplificado. Tudo aquilo que hoje a gente chama de economia criativa tem a ver com o Museu – cultura, meio ambiente, produção científica ou tecnologia e até eventualmente atividades ligadas ao turismo. Esse conjunto de coisas trabalham os ativos do lugar, que se integram.

No que tange especificamente à cultura, latu sensu, a gente pensa que a cultura dá oportunidade às pessoas de repensarem sua maneira de viver e dos outros viverem; entender um pouco esse complexo que é o conjunto das culturas, entender e respeitar as diferenças e poder viver melhor onde está.

Esse é papel principal da cultura: criar e fortalecer suas raízes, sua identidade cultural do lugar e se fazer diferente num meio de interconectividade no mundo inteiro. Se isso for trabalhado, nós teremos, na nossa crença, cidadãos melhor preparados para esse amanhã.

  • Acha que a miséria e a falta de educação contribuem para o aumento da violência?

A falta de governo é a principal razão para a pobreza. Remeter a pobreza à insegurança significa dizer que toda pessoa pobre está sujeita à criminalidade. Eu não acredito nisso. A falta de oportunidades por um desgoverno eleva uma série de destemperos na sociedade. Ao passar por apertos, algumas pessoas vão sucumbir, outras vão sobreviver e outras vão buscar os caminhos que não são aqueles desejáveis, por senso de sobrevivência.

Acredito que é um conjunto provocado pelo desgoverno com a falta de planejamento, a falta de investimento na educação, a falta de oportunidades para geração de renda – não digo nem de emprego formal, a pessoa precisa gerar renda para se manter com dignidade -, e de um plano de governo de salvaguarda desse cidadão que não teve essa oportunidade oferecida. E aí eu defendo em alguns casos um suporte governamental para sobreviver com um mínimo de dignidade, que são as bolsas.

Num momento de crise, de sacrifício, acho que essas bolsas são relevantes para passar uma crise. O problema é que tem que planejar a hora de entrar e de sair para um mundo que ofereça oportunidades para cada um poder construir a sua história.

  • É possível levar a experiência de relação com os vizinhos de outros museus para outros centros culturais da região central?

Um desejo nosso é de levar essa experiência de relação com os vizinhos para todos os vizinhos de todos os museus. E a gente queria trazê-los aqui para conhecer, para que cada espaço tenha o senso de inclusão de sua vizinhança, para que possam primeiro se apropriar daquele bem público que é o museu, um espaço de convivência; depois usufruir aquele conteúdo e, a partir dessa relação, fortalecer – do ponto de vista político, público – a importância daquele lugar.

O lugar que for ativo, do qual as pessoas se apropriarem, que forem usar e passam a defender, ganha importância pública para os políticos. Um lugar (quando é) abandonado, raramente um político vai se virar para ter uma motivação própria ou individual para salvar ou recuperar aquele lugar. Acho que a população tem papel fundamental na sobrevivência dos equipamentos públicos, principalmente os culturais.

INVESTIMENTOS NA REGIÃO

  • Apesar dos grandes investimentos na região até o momento, o sentimento que se tem é que o Porto Maravilha não decola. Não se consolida como região atraente para investimentos e moradias. O que está faltando, o que precisa?

Falta transformar essa iniciativa em um projeto de estado, fixado em metas de longo prazo, onde as outras partes – sociedade civil e empresas privadas – possam acreditar realmente num  plano de longo prazo. Acho lamentável que ocorram esses altos e baixos no desenvolvimento de áreas da cidade, como aconteceu nesse. Ter grandes empresas que resolveram investir, acreditando no potencial de crescimento daquilo, no desenvolvimento daquele área, e simplesmente o projeto ser interrompido – sem fazer julgamento do motivo pelo qual foi interrompido, seja pela crise ou por decisão política de não prosseguir.

Independentemente do motivo, é mais um sinal que gera insegurança para qualquer investidor numa área como essa aqui. Ter os prédios da Tishman Speyer que foram construídos (com a revitalização) e ver um prédio daqueles vazio é o retrato da inconsistência ou da não perenidade de um projeto dessa envergadura. Esse projeto tinha que ser constituído como um projeto estruturante para o desenvolvimento da cidade.

E mais do que isso. Você tem hoje uma região, seja pelo metrô, pelo VLT, pelo BRT que pode chegar, seja por toda a infraestrutura disponível do Centro, é uma área que deveria crescer para a cidade se apropriar ou se reapropriar desse espaço muito mais fácil do que áreas mais novas, que estão nas periferias ou longe desse Centro em que se tem que construir toda a infraestrutura para lá. Imagina o custo para se construir um metrô que chegue até o Recreio, quando poderia ter esse conjunto habitacional aqui nessa região ocupando boa parte dela?!

E se quer pensar em usufruir a infraestrutura que já existe, por que não fazer metrô de superfície ao longo da Baía de Guanabara, até o fundo, até Jardim Gramacho (Duque de Caxias, na Baixada Fluminense)? E distribuir em cidades novas, ou new towns, onde pode permitir que o trabalhador tenha moradia digna e transporte de qualidade para, em 30 minutos, chegar ao Centro.

Acho que isso é falta de um desenho, um planejamento de longo prazo, para que isso possa acontecer, etapa por etapa – infraestrutura e equipamentos vieram, habitação está chegando, transporte está chegando. Claro, por etapas, porque não tem recursos para fazer tudo, mas com um bom planejamento, dá sinais de continuidade. E esses sinais vão sendo retroalimentados a partir da crença do empresário de que vale a pena investir. E isso puxa mais demanda e mais investimento. É importante que este sinal de credibilidade seja restabelecido.

CONTRASTE URBANO E SOCIAL

O Museu do Amanhã é o segundo espaço cultural mais conhecido no Rio, segundo pesquisa: só perde para o Theatro Municipal (Aziz Filho)
  • Existe um contraste visível entre o que se vê no Boulevard Olímpico e o que se vê nas áreas mais internas –  Gamboa, Santo Cristo… Isso não gera uma fonte de tensão? Como incorporar essas áreas carentes ao processo de desenvolvimento dessa nova Região Portuária?

Essa fonte de tensão, na minha maneira de ver, é muito mais intelectual e ideológica do que real para essa população. O fato de ter uma praça desta aqui (Praça Mauá), um VLT aqui, um Museu disponível para toda essa população, não pode ser motivo de conflito, mas de amálgama, de união para discutir melhorias. Se todas as melhorias não chegaram aonde deveriam chegar, então deve-se usar esses espaços para discutir e para cobrar a continuidade dos investimentos.

Não acredito que um projeto bem sucedido como este em que estamos aqui, que recebe 3 milhões de pessoas, que manda notícias positivas para o mundo inteiro, que inspirou vários museus do mundo a partir desse aqui, que recebe essa quantidade de vizinhos, essa quantidade de cariocas, que tem um novo público visitando o Museu, não pode ser ruim. Como pode existir uma avaliação negativa de um investimento que está dando certo, com apoio da iniciativa privada? Esse ano vamos ter 8o% de recursos privados e apenas 20% de recursos públicos.

MUSEU NACIONAL E O PAPEL DA POPULAÇÃO

Bombeiros apagam pontos de fogo no Museu Nacional após incêndio (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil)
  • Esta (fonte privada), então, é a receita para dar certo? Por que o Museu do Amanhã deu certo e tantos outros museus não dão certo? Temos o exemplo do Museu Nacional: só depois da tragédia as pessoas se atentaram que tinham no ‘quintal de casa’ um museu da importância do Museu Nacional. Como gestor, o que o senhor acha que falta nos outros equipamentos culturais – resguardados as características e o conceito de cada um? O Museu Nacional recebia menos visitantes do que o número de brasileiros que vão ao Louvre (França).

Tem várias métricas para comparar os problemas dos museus brasileiros. Trabalho nessa área há 25 anos. Já convivi com muitos museus, novos, velhos, pequenos, grandes. A primeira coisa é que o hábito do brasileiro não privilegia museus e às vezes falta valorizar as atividades culturais; (a sociedade) só valoriza quando perde. Não é colocar a culpa em governo A, B ou C, mas envolver toda a sociedade, os seus representantes, as empresas públicas, as empresas privadas.

Por que chegamos a esse estágio? Se a gente for levantar, existem vários pequenos museus nacionais em condições precaríssimas de manutenção. As pessoas que choraram pela tragédia do Museu Nacional, muitas delas nunca foram ao Museu Nacional. É de lamentar, claro, só pelas imagens, mas houve pouco envolvimento. (A comoção) Foi por remorso – ‘por que eu deixei acontecer isso, por que não cobrei’? Mas por que foram fazer um protesto há 20 anos quando o Museu já clamava por recursos? Vai reclamar quando acabou?

  • Vários museus e centros culturais ao redor do mundo estão se mobilizando para ajudar a recuperar o Museu Nacional. De alguma forma o Museu do Amanhã também vai se envolver?

Já nos envolvemos porque o Museu Nacional é um irmão nosso. Já tínhamos um movimento pela celebração dos 200 anos; eventos agendados previamente; debates sobre o que fazer nos próximos anos; tivemos a diretoria do Museu Nacional agendada para uma sessão no Observatório do Amanhã, do (projeto) Ciências Seis e Meia. Tivemos ainda um encontro da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências debatendo sobre a realidade desses museus, sobre a tragédia do Museu Nacional, quando, na verdade, tínhamos montado essa pauta para celebrar os 200 anos.

Na ocasião, o Ildeu (Moreira), presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, trouxe aqui dados alarmantes sobre a queda vertiginosa de investimentos nos museus de ciências nos últimos 10 anos. Então, não é uma coisa que aconteceu da noite para o dia, foi uma coisa que vinha somando. (O paciente) já estava na UTI e morreu, não foi surpresa. É importante levantar esse assunto, não deixar ele morrer, não deixar passar a tragédia do Museu Nacional e aproveitar o clima de comoção para engajamento pela causa, para que outros não tenham o mesmo desfecho.

  • Entregar para a iniciativa privada é a solução?

Não tem equação pronta para todos os museus. A população precisa valorizar seus ativos culturais, incluindo museus, os espaços, as manifestações, Acho que é preciso envolvimento e engajamento  pela causa da cultura. Não precisa deixar queimar para perceber que tem valor. O valor da coleção do Museu Nacional é incalculável e irreparável, não dá mais. Mas tem vários outros ativos que ainda dá para recuperar.

O que eu espero é que essa tragédia do Museu Nacional não faça as pessoas esquecerem o que aconteceu daqui a um mês porque tem vários museus que estão precisando de ajuda. É necessário, nesse conjunto de discussões, debater o modelo de governança dos museus brasileiros – públicos ou não – para que se tenha uma avaliação correta de como melhorar a forma de engajar, de receber recursos públicos ou privados para sua manutenção. E isso é importante para dar a segurança jurídica que todo apoiador/investidor deseja.

GESTÃO: RECONHECIMENTO E DESAFIOS

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Presidente do Museu do Amanhã, Ricardo Piquet (à direita) recebe a premiação em Londres (Foto: Divulgação)
  • Qual foi o seu melhor momento como presidente do Museu do Amanhã? Quais os principais desafios, os momentos de maior tensão nesse período à frente do equipamento?

Tivemos, graças a Deus, vários bons momentos. Claro que a inauguração foi um grande momento. A Olimpíada foi um momento muito importante para as conexões do Museu do Amanhã com o mundo. Nós aproveitamos muito essa oportunidade porque tinham delegações de todo o mundo, tinham museus de ciências de todo o mundo. Hoje nós temos conexões com museus de todos os continentes a partir dessa efervescência que foi a Olimpíada aqui. Abrigamos a Olimpíada, a maratona passou em volta do Museu, acendemos a tocha paralímpica. Treinei enormemente para correr 100 metros (risos). Foi um grande momento para a cidade, para o Museu, mas acho que ainda terão bons momentos pela frente.

No momento em que se discute investimentos em equipamento A ou B, ao invés de discutir por que não investir em todos os equipamentos e na cultura brasileira, tivemos alguns reconhecimentos de fora, talvez mais relevantes do que o reconhecimento de dentro. Por exemplo, um prêmio de qualidade internacional, o LCD Awards (Leading Culture Destinations Awards 2018), em Londres, nos colocou entre os três finalistas da melhor organização cultural do mundo para envolvimento da comunidade e influência positiva dessa comunidade.

  • Isso te enche de orgulho?

Enche de orgulho todos os que trabalham aqui, os vizinhos, os amigos, os patrocinadores, todos que acreditaram nessa ideia lá atrás. Nós estamos celebrando aqui – independentemente de quem seja o vencedor – que nós estamos numa qualificação entre os melhores do mundo, no Rio de Janeiro, na capacidade de levar uma mensagem positiva para a sociedade.

Estamos ao lado de dois grandes museus com investimentos muito maiores do que esse aqui – o Louvre de Abu Dhabi (nos Emirados Árabes) e o Grande Museu de Vancouver, no Canadá. (A indicação na categoria Melhor Organização Cultural do Ano para Promoção de Soft Power) é o reconhecimento do papel preponderante de um equipamento desse de contribuir, positivamente, para esse amanhã da nossa sociedade.

  • O Museu do Amanhã é um complexo enorme e sua gestão é complexa. Qual a maior dificuldade?

Ele é complexo porque está abarcado aqui um conjunto de tecnologias na construção do prédio, e a manutenção é um desafio. Ele é complexo porque a sociedade tem uma expectativa de que aqui sempre se produza e se promova eventos de qualidade, a gente não pode baixar a régua. É complexo porque os recursos públicos que estavam destinados para cá não puderam ser transferidos por questão de crise financeira da prefeitura.

Vamos chegar ao final deste ano com mais de 80% dos recursos de fonte privada, o que não estava previsto do projeto original. Nenhum museu no Brasil tem mais de 25% de recursos de fonte privada. Nós temos 80 (porcento). Essa tensão em relação à previsão orçamentária é um dificultador para fazer qualquer gestão de médio prazo. A gente trabalha sempre no curto prazo. Isso é um desafio para uma gestão que tem que estar sempre pautada na segurança jurídica e financeira para oferecer alguma coisa com qualidade, sem esse cenário bem definido para o futuro.

E, por último, a maior dificuldade do Museu do Amanhã é fazer com que seja o Museu do Amanhã, qualquer  pisada na bola e ele será visto como o ‘Museu do Ontem’. Tem que estar sempre atento pela programação, pelas tendências, pela manutenção do equipamento, pela oferta de boas experiências. Diante desses cenários todos que eu coloquei antes, de fato é um desafio enorme.

CONEXÃO COM MUSEUS NO MUNDO

  • Você está no Museu do Amanhã desde antes da inauguração. Mas também tem outras atividades na área cultural. Pode nos contar um pouco mais sobre seus outros projetos?

Science Museum, em Londres, é um dos parceiros do Museu Nacional (Foto: Divulgação)

O que a gente quer é fazer essa ideia prosperar em vários lugares do mundo. Reunimos um grupo de brasileiros e holandeses e abrimos uma fundação em Amsterdã (Holanda) para o desenvolvimento de novos projetos de ciências e cultura. Fizemos uma conexão com vários museus do mundo, como o Museu da ONU, em Copenhague (Dinamarca), que está em construção; com o Science Museum, de Londres (Inglaterra), parceiro nosso desde o primeiro ano. Tem uma lista de uns 10 museus aqui. A gente está conectado lá fora.

Faço parte do conselho dessa fundação em Amsterdã, entrei recentemente num outro conselho do Museu da ONU em Copenhague. São oportunidades para, cada vez mais, levar a mensagem do Museu do Amanhã para fora. Passamos pela China, a convite da Unesco; por Abu Dabhi (Emirados Árabes), a convite do governo de lá. E por onde a gente passou as pessoas conhecem o Museu do Amanhã. Estamos levando o nome do Museu do Amanhã e do Rio de Janeiro como contribuição para que outros possam fazer o mesmo.

Essas conexões só são possíveis porque existe o Museu do Amanhã. E vários retornos, vários ativos virão a partir dessas conexões para o Rio de Janeiro. Essas conexões vão permitir ao Museu do Amanhã ajudar outras instituições como também outras instituições ajudarem o Museu do Amanhã. Hoje temos técnicos da Inglaterra trabalhando de graça aqui para a gente por conta desse termo de cooperação com o Science Museum, que tem mais de 150 anos de existência. A cada vez que vêm aqui, eles dizem que aprendem muito com a gente, e a gente aprende com eles, apesar de termos apenas três anos. São boas contribuições e bons retornos para o Museu e para o Rio de Janeiro.

Ricardo Piquet está no cargo de presidente do Museu do Amanhã desde antes da inauguração (Foto: Divulgação)

NOVOS PROJETOS

  • Como consegue conciliar tanta coisa? Você vai ao museu nos seus momentos de lazer? 

Sim, venho muito aqui no fim de semana por conta própria, vou lá no MAR (Museu de Arte do Rio, também na Praça Mauá), vou lá no MAM (Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo).

  • O que mais gosta de visitar no Rio de Janeiro quando tem um tempo livre?

Eu gosto de visitar o principal concorrente do Museu do Amanhã: a praia. Eu vou para Ipanema porque tenho mais amigos para encontrar. É uma concorrência braba. Dia de sol aqui é claro que cai. Quando a gente precisa aumentar a demanda do museu a gente torce pra chover, fazer um dia nublado (risos).

  • Já pensou em fazer eventos itinerantes? Levar o Museu da Amanhã para a Baixada ou para Niterói, São Gonçalo, por exemplo?

Pensamos em levar (o Museu) para vários lugares, inclusive para regiões mais remotas do Rio de Janeiro. É um projeto possível que a gente está oferecendo a alguns patrocinadores. Por incrível que pareça, as dificuldades são grandes para deslocar pessoas da Região Metropolitana do Rio para cá. Se as pessoas vêm de lá, a gente podia estar lá. Levamos o Museu para Brasília, recebemos 5 mil jovens no Fórum Mundial das Águas. Criamos um ponto avançado por uma semana. Vamos desenvolver umas parcerias para levar essa experiência do Museu para outros lugares.

  • Você tem filhos? Eles também visitam o Museu do Amanhã?

Eu tenho dois filhos e dois netos. Meu filho é advogado, morava em São Paulo e agora voltou para cá. Nem que seja por osmose ele tem que vir, de vez em quando a gente traz ele (risos). A minha filha é arquiteta, museógrafa e mora em Amsterdã. Está envolvida com a causa também. Ela terminou o mestrado em Amsterdã e meus dois netos moram lá. Eles já estão crescendo dentro dos museus, passando dias dentro dos museus. Meu filho só quer usufruir (museus), não quer trabalhar com isso não.

  • E como você vem para o Centro da cidade?

De várias formas. Posso vir de Copacabana de metrô e depois pegar o VLT. Quando venho do Aeroporto, o melhor transporte é o VLT – acho magnífico pegar na porta do Santos Dumont e descer aqui na Praça Mauá. Também venho muito de Uber ou táxi, quando o tempo não permite que faça baldeação. Para mim é o melhor, venho trabalhando, venho tranquilo. Não consegui ainda vir de bicicleta, mas vou conseguir, nem que seja bicicleta elétrica (risos).

  • Como é conviver com essa “vista chata” daqui?

É um privilégio estar nesse lugar, vendo a cidade, a Baía de Guanabara. Quando os colaboradores vêm aqui falar de aumento, eu digo que não precisa. Já tem um privilégio como esse aqui nem precisa reclamar da vida. Trabalhar no Museu do Amanhã e com uma vista dessa não precisa de muita coisa mais. É uma estratégia. Eu boto sentado aí, na hora do por do sol, abro a janela e a gente começa a conversar. Acalma todo mundo (risos).

É importante dizer que as pessoas não têm ideia do esforço fenomenal deste time que trabalha aqui para manter o Museu do jeito que é. Se tivesse ideia, batia na porta para nos ajudar. Não temos ainda um programa de voluntariado, mas estamos criando e temos um programa de amigos. Tem várias formas de ajudar o Museu. A gente está conectado com os equipamentos do bairro. Tem uma parceria do combo – AquaRio, MAR e Museu do Amanhã.

Temos uma aproximação grande com o VLT, o presidente é um amigo nosso, Márcio Hannas, trabalhou comigo na Vale, e está disposto a participar do programa Entre Museus. A gente tem uma relação boa com a Marinha, que é aqui ao lado. A gente usufrui um pouco da boa vontade e do carinho que o carioca tem como o Museu, isso a gente não pode negar. A ‘Veja’ colocou o Museu como o mais querido dos museus. A gente está sempre recebendo as pessoas aqui com muito carinho, apesar dessas turbulências.

  • E a programação de verão, como concorrer com a praia?

Tem que fazer uma programação forte, a começar com o aniversário de três anos, em 7 de dezembro, e também promoção de férias. Está sendo costurada.

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