Movimento quer Almirante Negro reconhecido como herói nacional | Diário do Porto


Cidadania

Movimento quer Almirante Negro reconhecido como herói nacional

Audiência pública, dia 23, vai discutir o reconhecimento do líder negro que comandou a Revolta da Chibata, na Baía de Guanabara

19 de maio de 2019

João Cândito liderou revolta contra castigos na Marinha (Foto: MPF/Divulgação)

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João Cândido liderou em 1910, na Baía de Guanabara, o movimento que ficou conhecido como a Revolta da Chibata, pela qual os marinheiros mais humildes da Marinha Brasileira, quase todos pretos, se rebelaram contra os castigos físicos impingidos pelos oficiais.

A imprensa da época imortalizou o líder chamando-o de O Almirante Negro. Esse seria o título do samba que João Bosco e Aldir Blanc compuseram em 1975 para homenageá-lo, seis anos após ter morrido pobre e com câncer. O samba acabou sendo chamado de “O Mestre Sala dos Mares”, para poder passar pela Censura, e foi sucesso na voz de Elis Regina e do próprio João Bosco.

Agora, um movimento iniciado em São João do Meriti, na Baixada Fluminense, onde João Cândido viveu seus últimos anos, quer que ele seja reconhecido como herói nacional, um dos grandes expoentes da longa história de resistência dos negros no Brasil.

Esse reconhecimento póstumo será discutido no próximo dia 23, em audiência promovida pelo Ministério Público Federal naquela cidade. O procurador Júlio José Araujo Junior vai ouvir os líderes do movimento para discutir quais medidas legais podem ser tomadas para garantir que a reivindicação seja concretizada.

Um dos objetivos é incluir o nome de João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, uma publicação feita com folhas de aço, que fica guardada no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. O livro conta atualmente com 52 homenageados, figuras consideradas essenciais na construção histórica do país.


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O procurador já instituiu um inquérito civil público para apurar as “medidas de valorização da memória do marinheiro João Cândido”, bem como identificar os seus registros na Marinha Brasileira. Uma lei de 2003 torna obrigatório incluir no currículo escolar as lutas dos negros brasileiros e o MPF acredita que a história do Almirante Negro ainda não recebeu a atenção devida pelas autoridades.

Em 1910, embora proibido por decreto, o chicote continuava sendo usado para manter a disciplina na Marinha, numa clara demonstração de quanto estavam presentes a discriminação racial e social na jovem República brasileira.

Na época, cerca de 90% dos praças eram negros ou mulatos e João Cândido, que era um dos marinheiros mais experientes, foi escolhido como um dos líderes que tentaramnegociar pacificamente o fim dos castigos corporais com o ministro da Marinha e com o Governo Federal.

O movimento não foi atendido e após uma revolta que envolveu mais de 2.000 marinheiros na Baía de Guanabara, João Cândido assumiu o controle dos principais navios de guerra, apontando os canhões para a então capital do Brasil.

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira“, escreveram os rebeldes no manifesto que encaminharam ao presidente Hermes da Fonseca, que, para terminar a revolta, comprometeu-se em acabar com o uso da chibata e em anistiar os revoltosos.

Os rebeldes depuseram as armas, os navios foram devolvidos, mas o Governo não honrou seu compromisso.

João Cândido acabou preso e expulso da Marinha, assim como centenas de outros marinheiros. Para sobreviver, o Almirante Negro trabalhou como estivador e no mercado de peixes que havia na Praça XV, no centro do Rio.

João Bosco e Aldir Blanc contam que a maior objeção que encontraram junto aos censores para aprovar o samba em homenagem a João Cândido não foi o fato de que estavam falando de um líder de uma revolta, mas as menções de que ele era negro.