CET-Rio: 'Motociclista não é um suicida' | Diário do Porto


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CET-Rio: ‘Motociclista não é um suicida’

Veja entrevista de Mauro Ferreira, coordenador de Educação para o Trânsito da CET-Rio. Para ele, o discurso de que o motociclista é responsável pelos acidentes é um jeito de culpar a vítima

29 de outubro de 2018

Acidentes no trânsito: motocilistas são principais vítimas ( ginasanders/D.Photo)

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Mauro Ferreira
Mauro Ferreira, da CET-Rio, explica campanha criada para segurança de motociclistas (Foto: Divulgação/CETRio)

Você acompanhou a série sobre acidentes de moto no Rio de Janeiro no DIÁRIO DO PORTO. Mas, afinal, de quem é a responsabilidade sobre os índices alarmantes? “A culpa é dividida praticamente meio a meio. O que reforça a ideia de que todos devemos fazer algo para mudar essa realidade”, afirma Mauro Ferreira, coordenador de Educação para o Trânsito da CET-Rio.

Pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo mostra que 18% dos acidentes envolvendo motociclistas são causados por problemas na via, 8% por problemas na moto e 74% pelo fator humano.

“Dentro desses 74%, um percentual de 51% de culpa do motorista e 49% de culpa do motociclista. A culpabilidade agregada é assim: 8% dos acidentes causados por problemas de manutenção da motocicleta; 18% dos acidentes causados por problemas na via; 37% dos acidentes por culpa dos motoristas e 37% por culpa dos motociclistas (arredondando)”, detalha o especialista, em entrevista ao DIÁRIO DO PORTO.

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Leia trechos da entrevista de Mauro Ferreira:

“Na campanha da CET-Rio que está nas ruas e que tem como foco a segurança dos motociclistas, estamos tentando mostrar que todos podem fazer alguma coisa para mudar essa triste estatística. Principalmente, que o motociclista não é necessariamente um irresponsável inconsequente ou suicida que se expõe ao risco de maneira deliberada.

O motorista deve estar atento, pois muitas vezes não percebe a presença dos motociclistas por falta de atenção mesmo ou por estar mais preocupado com outros automóveis ou veículos maiores.

Rivalidade entre os condutores deve ser evitada

“Existe uma rivalidade entre esses dois tipos de condutores. Não é difícil notar que algumas atitudes dos motociclistas irritam alguns motoristas. Algumas delas sem motivo, como já ouvi motorista reclamar que, quando o sinal abre, os motociclistas se apressam em sair logo na frente, que são muito apressados e afobados.

“Até mesmo pela lei da inércia, a motocicleta é muito mais leve e vai sair com mais facilidade e rapidez. Além do mais, para o motociclista é mais seguro sair na frente do que junto com os outros veículos. Não é motivo para irritar o motorista.

“Existem estudos que relacionam, principalmente no homem, a percepção de que ser ultrapassado equivalente à sensação de estar sendo atacado ou subjugado por outro macho. Por isso vemos disputas nas ruas.

Circular pelo corredor não é proibido para motos

“O motociclista circular no corredor não é proibido pelo Código de Trânsito, embora muita gente pense o contrário. Um estudo nos Estados Unidos concluiu que acidentes no corredor causam ferimentos menos graves e menos mortes do que os ocorridos quando a moto está atrás de outros veículos.

Alerta para uso de celular no trânsito

“É claro que a campanha também pretende atingir o motociclista, pois todos devemos fazer algo para reverter a situação. Uma das mensagens é reforçar o preceito básico da segurança no trânsito, “ver e ser visto”. É muito importante que o motociclista, além de estar muito atento ao que acontece no trânsito, precisa ter certeza de que está sendo visto, principalmente com tantas pessoas usando de maneira totalmente irresponsável o celular.

“Isso inclui o pedestre que atravessa entre os veículos, distraído com o celular e muitas vezes com fones de ouvido e é surpreendido por uma motocicleta no corredor.

Uso do capacete perto de casa

“Outra questão, embora já bastante batida, é o uso do capacete, que é muito comum ser deixado de lado, principalmente quando o motociclista está perto de casa.

“Desenvolvemos vários cartazes para comunidades, os “outdoors sociais”, relembrando que grande parte dos acidentes acontece a menos de um quilômetro da casa do condutor, justamente pela falta de cuidado, por considerar que está em um local seguro e relaxar, deixando de adotar medidas básicas como o uso do capacete.

‘Motociclistas são considerados irresponsáveis e loucos’

“A campanha quer tentar desconstruir essa imagem, muito presente. Geralmente os motociclistas são considerados irresponsáveis e loucos no trânsito. Porém, as mesmas pessoas recorrem aos serviços dos motociclistas quando precisam de agilidade na entrega de um documento ou pizza em menos de 20 minutos.

“Reforçar esse estereótipo, além de não representar a realidade, não surtiria efeito, pois os motoristas achariam que não precisam mudar seu comportamento para promover a segurança dos motociclistas. Ou seja, a culpa seria da vítima. Por outro lado, também não conseguiríamos dialogar com essa categoria, pois já estão cansados de serem vistos dessa forma, e a maioria não se enxerga assim.

“Para desenvolver a campanha, conversamos com especialistas em segurança viária e motociclistas. Relataram que muitas campanhas mostram o motociclista dessa maneira estereotipada e que isso acaba por criar um bloqueio na comunicação pretendida.”

 


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